Crítica – O Diabo Veste Prada 2 é uma evolução sensível e sofisticada do original

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O Diabo Veste Prada 2 surpreende não por revisitar um universo já consagrado da cultura pop, mas pela decisão consciente de amadurecer junto com seu público. Longe de se apoiar apenas na nostalgia, a sequência demonstra entendimento sobre a passagem do tempo, o peso das escolhas e a permanência de certas estruturas, tanto pessoais quanto profissionais. Em vez de replicar fórmulas, o filme expande o legado do original e constrói uma obra mais sensível, sofisticada e emocionalmente consciente.

Sob o ponto de vista técnico, há um controle notável de linguagem. A direção equilibra com precisão momentos de imponência, que reforçam hierarquias, poder e distanciamento, com passagens mais íntimas, nas quais o silêncio e os gestos mínimos ganham protagonismo. Trata-se de uma mise-en-scène mais madura, menos interessada em ostentação e mais comprometida com a observação.

A fotografia acompanha essa proposta com inteligência dramática. A paleta de cores dialoga diretamente com o estado emocional das personagens. Ambientes frios e calculados dominam os espaços corporativos, enquanto tons mais quentes emergem nos raros momentos de vulnerabilidade. O glamour permanece presente, mas deixa de ser um fim em si mesmo para se tornar ferramenta narrativa. O figurino, por sua vez, segue como um dos pilares do filme, não apenas como expressão estética, mas como extensão simbólica das personagens, funcionando como armadura, linguagem e identidade.

É no roteiro, porém, que a continuação encontra sua maior força. Há uma clara recusa em simplificar suas protagonistas. Essas mulheres retornam mais densas, marcadas por conquistas e perdas, conscientes do custo de suas trajetórias. O texto articula temas como conflitos geracionais, a transformação do mercado editorial e a pressão constante por relevância, especialmente sobre mulheres em posições de poder. Tudo isso sem recorrer ao didatismo ou ao excesso de exposição, confiando na capacidade interpretativa do espectador.

As atuações sustentam esse equilíbrio com precisão. Meryl Streep e Anne Hathaway demonstram uma química ainda mais complexa, construída a partir de camadas de afeto, ressentimento, admiração e rivalidade. Há uma sensação constante de história compartilhada, como se cada troca de olhares carregasse o peso de anos não ditos. O elenco compreende que revisitar personagens icônicos exige mais do que familiaridade. Exige verdade, e é exatamente isso que entregam.

Um dos aspectos mais relevantes do filme está na forma como aborda a cobrança feminina. A narrativa evidencia, com delicadeza, as exigências contraditórias impostas às mulheres. Ser firme, mas acessível. Ser forte, mas não ameaçadora. Ser impecável em múltiplas dimensões simultaneamente. Ao explorar essa tensão, o longa revela o desgaste de uma performance contínua e socialmente imposta.

Essa abordagem contribui para que a experiência seja distinta para diferentes gerações. Assistir a essa história em outro momento da vida inevitavelmente altera a leitura de seus conflitos, tornando-os mais próximos, mais reconhecíveis e, por isso, mais impactantes.

No fim, O Diabo Veste Prada 2 se consolida como uma continuação rara. Respeita o legado do original sem se limitar a ele. Mais maduro, mais humano e interessado nas fissuras por trás do glamour, o filme troca o fascínio superficial por uma investigação mais honesta de suas personagens. O resultado é uma obra que, além de elegante, demonstra um afeto genuíno por suas contradições. E é justamente aí que reside sua maior força.

Crítica – Alma Gêmea é um drama intenso entre amor e preconceitos que nem sempre encontra equilíbrio na história

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Alma Gêmea é uma série que tenta equilibrar dois caminhos narrativos bem diferentes: de um lado, um drama romântico atravessado por descobertas pessoais e afetivas; do outro, um retrato duro de preconceitos sociais que aparecem de forma constante, quase como uma sombra que acompanha os personagens. O resultado é uma obra que oscila entre momentos sensíveis e outros em que o excesso de temas parece competir pela atenção do espectador.

A história acompanha Ryu Narutaki, um jovem japonês em conflito com sua própria identidade e suas emoções, e Johan Hwang, um boxeador coreano marcado por contradições internas e uma postura mais fechada diante do mundo. O primeiro encontro entre os dois já estabelece o tom curioso da série: um erro de lugar em uma igreja, uma confissão involuntária e um tipo de situação que mistura humor constrangedor com vulnerabilidade emocional. Esse início, apesar de simples, funciona bem como gatilho narrativo, porque coloca os protagonistas em uma posição de exposição total, sem defesa.

O problema é que a série parece ter consciência demais do impacto dessas cenas e, em alguns momentos, força a mão para transformar situações naturais em eventos quase simbólicos. A ideia de usar o confessionário como ponto de virada é interessante, mas o roteiro insiste em reforçar esse simbolismo de forma repetitiva, o que tira um pouco da espontaneidade.

Outro ponto importante é como a narrativa trata a sexualidade dos personagens. A série tenta abordar a descoberta e aceitação do amor entre dois homens com sensibilidade, mas ao mesmo tempo insere conflitos externos pesados, como homofobia e xenofobia, de maneira constante e quase acumulativa. Em vez de permitir que esses temas respirem dentro da história, o roteiro às vezes os empilha, criando a sensação de que os personagens estão sempre sob ataque, sem espaço para leveza ou pausa emocional.

Ainda assim, há méritos claros na construção da relação entre Ryu e Johan. O desenvolvimento do vínculo entre eles não acontece de forma apressada. Após o primeiro encontro, a narrativa os afasta e os reconecta em diferentes circunstâncias, incluindo um evento em um ringue de luta, onde Johan enfrenta um adversário americano e toma uma decisão controversa ao perder intencionalmente. Essa escolha narrativa abre espaço para discussões interessantes sobre identidade, pressão e sacrifício, embora a série não explore completamente as consequências emocionais desse ato.

O que poderia ser apenas um romance direto se transforma em uma história espalhada por diferentes cidades e fases da vida dos personagens. Berlim, Seul e Tóquio não são apenas cenários decorativos, mas também funcionam como espelhos das transformações internas de Ryu e Johan ao longo de uma década. Esse recorte temporal é um dos elementos mais fortes da série, pois mostra como sentimentos podem resistir ao tempo e às mudanças de contexto.

Outro aspecto positivo está nas personagens secundárias, especialmente a amiga de Ryu e a irmã de Johan. A relação entre elas surge de forma espontânea e traz uma leveza que contrasta com o peso emocional dos protagonistas. Essa amizade funciona quase como uma válvula de escape narrativa, permitindo momentos mais humanos e menos tensionados, algo que a série precisava explorar com mais frequência.

Por outro lado, o roteiro nem sempre sabe dosar suas ambições. Em alguns episódios, a trama parece mais preocupada em abordar grandes temas sociais do que em desenvolver de forma profunda as emoções individuais dos protagonistas. Isso gera uma sensação de fragmentação: há boas ideias, mas nem todas recebem o tempo necessário para amadurecer.

A atuação dos protagonistas sustenta boa parte do impacto emocional da série. Ryu é construído como alguém mais sensível e introspectivo, enquanto Johan carrega uma rigidez externa que aos poucos vai se quebrando. A dinâmica entre os dois funciona justamente porque existe contraste, mas também uma curiosidade mútua que cresce com o tempo.

Crítica – Mestres do Universo é uma aventura de fantasia competente, mas excessivamente presa à nostalgia e à fórmula clássica do herói escolhido

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Foto: Reprodução/ Internet

Dirigido por Travis Knight, Mestres do Universo traz Nicholas Galitzine no papel do Príncipe Adam / He-Man e reúne um elenco de peso que ajuda a sustentar a ambição da produção. Jared Leto interpreta o Esqueleto, principal antagonista da história, enquanto Idris Elba surge como Mentor. O filme ainda conta com Camila Mendes e Morena Baccarin em papéis importantes dentro da narrativa, reforçando o investimento em nomes conhecidos para dar nova vida ao universo de Eternia.

A história segue uma estrutura bastante familiar para quem já viu outras grandes aventuras de fantasia. Depois de ver seu reino ameaçado por forças do mal, o jovem Príncipe Adam é afastado de seu destino e cresce longe de Eternia. Anos depois, já adulto, ele precisa retornar para enfrentar o inimigo que marcou sua origem, entender seu verdadeiro papel e assumir a responsabilidade de proteger aquilo que foi perdido. É uma jornada clássica de descoberta e amadurecimento, centrada na ideia do herói que precisa aceitar quem realmente é.

Apesar de trabalhar com uma fórmula conhecida, o filme não tenta esconder isso. Pelo contrário, ele parece abraçar essa simplicidade narrativa como parte de sua identidade. Em vez de reinventar completamente a mitologia, a produção aposta em uma aventura direta, com ritmo constante, cenas de ação bem distribuídas e um tom que mistura momentos mais sérios com um leve senso de humor.

Um dos pontos mais interessantes está justamente no equilíbrio entre nostalgia e atualização. O longa traz referências ao desenho original de forma pontual, funcionando como um aceno para quem cresceu com a franquia, sem depender disso para se sustentar. Esses elementos aparecem ao longo da narrativa como parte natural do mundo de Eternia, o que ajuda a criar uma conexão emocional com o público mais antigo.

Ao mesmo tempo, o filme se preocupa em ser acessível para quem está conhecendo esse universo pela primeira vez. A apresentação dos personagens é clara, as motivações são bem estabelecidas e o mundo é construído de forma gradual, sem exigir conhecimento prévio da franquia. Isso permite que a história funcione tanto como uma adaptação quanto como um ponto de entrada para novos espectadores.

No aspecto visual, Mestres do Universo entrega aquilo que promete: um grande espetáculo de fantasia. Eternia é retratada com cenários amplos, criaturas fantásticas e uma direção de arte que busca reforçar a escala épica da história. As cenas de batalha têm ritmo intenso e são pensadas para causar impacto, explorando bem o potencial visual do universo criado.

Crítica – Supergirl ganha identidade própria e entrega uma das aventuras mais promissoras da nova DC

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Supergirl chega aos cinemas com a difícil missão de apresentar uma nova versão de Kara Zor-El após diferentes interpretações da personagem ao longo dos anos. Sob a direção de Craig Gillespie (Cruella e Eu, Tonya), o longa abandona a tentativa de aproximar a heroína do estilo tradicionalmente associado ao Superman e aposta em uma aventura espacial mais agressiva, emocional e distante da imagem clássica da personagem.

A produção também marca um novo começo para Supergirl após a participação de Sasha Calle em The Flash e o sucesso da série televisiva protagonizada por Melissa Benoist. A responsabilidade de assumir esse legado fica com Milly Alcock (House of the Dragon), que entrega uma Kara Zor-El mais impulsiva, ferida e carregada por conflitos internos.

A história acompanha a heroína durante seu aniversário, enquanto ela tenta conviver com os traumas deixados pelo passado e com o peso de ser uma sobrevivente de Krypton. A situação muda quando sua nave é roubada e Krypto, seu cachorro, é gravemente ferido. A busca por uma cura leva Kara para uma jornada pelo espaço ao lado de Ruthye (Eve Ridley), uma jovem determinada a encontrar Krem, responsável pela morte de sua família.

O filme acerta principalmente quando entende que a força da personagem está justamente em explorar territórios diferentes. Em vez de repetir a fórmula de histórias anteriores da família Superman, Supergirl constrói uma aventura com escala galáctica, trazendo criaturas, mundos e conflitos que ampliam o universo da heroína.

Visualmente, a produção é um dos pontos mais fortes. O design de produção demonstra cuidado na criação dos ambientes e dos personagens, enquanto a combinação entre efeitos práticos e computação gráfica resulta em uma experiência consistente. As cenas de ação têm peso e conseguem transmitir a sensação de uma verdadeira aventura espacial, sem depender apenas do espetáculo visual.

Porém, é justamente nesse aspecto que surge uma das maiores frustrações do longa. A adaptação da HQ Supergirl: Woman of Tomorrow, de Tom King e Bilquis Evely, tinha espaço para uma abordagem visual ainda mais ousada e diferente. O filme apresenta bons momentos no espaço, mas raramente se entrega completamente ao potencial criativo de seus mundos. Faltam cenários mais marcantes e uma identidade visual capaz de transformar cada planeta em uma descoberta.

No papel principal, Milly Alcock é o grande destaque. A atriz entende a complexidade da personagem e cria uma Supergirl muito diferente do Superman apresentado recentemente nos cinemas. Sua Kara não é uma figura idealizada ou sempre confiante; ela carrega raiva, insegurança e uma dificuldade real de lidar com as próprias perdas. Alcock sustenta o filme mesmo quando a narrativa ao redor dela perde força.

A participação de Eve Ridley como Ruthye funciona em alguns momentos, mas a personagem nem sempre acompanha o impacto da protagonista. A relação entre as duas deveria ser um dos pilares emocionais da trama, porém algumas escolhas do roteiro fazem essa dinâmica parecer menos envolvente do que poderia ser.

Quem surpreende positivamente é Jason Momoa, que retorna ao universo da DC em uma nova função após interpretar Aquaman. Como Lobo, o ator abraça completamente o exagero e o humor do personagem. Momoa demonstra uma liberdade que combina com o papel, e suas cenas ao lado de Supergirl estão entre as mais divertidas da produção.

O maior problema está no roteiro. Apesar de apresentar boas ideias, a história não consegue desenvolver todo o potencial de seus conflitos. Krem, o antagonista, é o elo mais fraco da narrativa: falta presença, motivação e uma ameaça capaz de justificar a jornada enfrentada pelos protagonistas. Ele funciona apenas como um obstáculo para movimentar a trama, sem deixar uma marca significativa.

Na direção, Gillespie mostra domínio principalmente nas sequências de ação. O cineasta conduz os momentos de combate com clareza e energia, incluindo uma sequência em plano-sequência que se destaca pela construção e pelo ritmo. A câmera acompanha Kara de maneira dinâmica, valorizando a força da personagem e o desempenho físico de Milly Alcock.

Outro mérito do filme está na forma como ele se distancia de Superman. Embora façam parte do mesmo universo, as duas produções possuem propostas diferentes. Enquanto Clark Kent representa uma visão mais esperançosa e inspiradora do heroísmo, Kara é apresentada a partir de uma perspectiva mais turbulenta e pessoal. Essa variedade de estilos é uma das características mais interessantes da nova fase liderada por James Gunn.

A trama está longe de ser uma produção perfeita, mas encontra um caminho próprio para a personagem. O longa é prejudicado por um roteiro irregular e por um vilão pouco desenvolvido, mas compensa com uma protagonista forte, uma direção segura e uma aventura que finalmente coloca Kara Zor-El no centro da própria história.

Mais do que apresentar uma nova versão da heroína, o filme prova que Supergirl não precisa existir como extensão do Superman. Ela funciona melhor quando assume suas próprias dores, sua própria personalidade e seu próprio espaço dentro do universo da DC.

Crítica – A Morte do Demônio: Em Chamas eleva a escala da franquia com efeitos práticos angustiantes até escorregar no CGI

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Foto: Reprodução/ Internet

Após o enorme sucesso de A Morte do Demônio: A Ascensão, impulsionado por uma ótima bilheteria e por uma recepção bastante positiva do público, uma continuação parecia inevitável. É nesse cenário que A Morte do Demônio: Em Chamas chega aos cinemas, apostando em uma escala não apenas maior, mas também mais sangrenta e angustiante. Há mais violência, mais gore e, surpreendentemente, menos roteiro. Como se a franquia tivesse decidido que o espectador não precisa de motivo, só de estômago forte.

Com roteiro e direção de Sébastien Vaniček, o filme acompanha uma família e coloca Alice, personagem interpretada por Souheila Yacoub, no centro da história. Logo nos primeiros minutos, fica estabelecido que o relacionamento entre Alice e Will não vive sua melhor fase. Mas calma, porque qualquer chance de desenvolver essa dinâmica é interrompida quando Will sofre um acidente de carro. Nada como uma entidade maligna para resolver uma crise de casal.

Os parentes de Will, por sua vez, formam um grupo completamente desestabilizado que despreza Alice sem qualquer sutileza. A situação familiar, já constrangedora o suficiente para um jantar de Natal, piora rapidamente. Antes que um deadite assuma o corpo do pai de Will, todos decidem se refugiar em uma casa isolada, no meio do nada, caindo aos pedaços. Porque, evidentemente, em filme de terror, bom senso não existe.

À medida que o pai vai ficando mais perturbador, a tensão cresce de forma eficiente, até desaguar em uma cena angustiante em que ele mata um cachorro a sangue-frio. A partir daí, a sanidade do roteiro vai junto com a do personagem.

A ideia de explorar conflitos familiares e inseguranças, com os deadites usando essas fragilidades contra as próprias vítimas, é boa no papel. O problema é que o roteiro empilha tantas inconsistências e conveniências que fica difícil fingir que não notou. Personagens fazem coisas simplesmente porque a trama precisa se mover, não porque fariam sentido enquanto seres humanos minimamente funcionais.

Depois de ver o próprio pai matar um cachorro na frente de todo mundo, a família resolve, com toda a cautela do mundo, levá-lo ao hospital. Resultado óbvio: mais uma tragédia. É o tipo de decisão que exige do público uma fé cega na burrice alheia.

O longa também flerta com a comédia e, por vezes, funciona. A grande questão é que boa parte do humor gira em torno de uma mesma frase de efeito repetida à exaustão, como se o roteiro tivesse encontrado uma piada e decidido nunca mais soltá-la. Engraçada na primeira vez, cansativa na quinta.

Se o roteiro decepciona, a direção de Vaniček compensa e sobra. Há sequências visualmente impressionantes, com destaque para um plano-sequência que acompanha Alice rastejando pelo chão enquanto uma luta caótica acontece ao fundo, sem um único corte. É coreografia de verdade, não só caos filmado com câmera tremida.

A fotografia aposta em tons acinzentados, evitando pretos absolutos, o que dá ao filme uma sujeira visual que combina com a casa decadente que serve de cenário. A câmera passeia por todos os cômodos, banheiro, escada, sótão e teto, até o público sentir que conhece aquele lugar de cor. Nada de cenário decorativo esquecido no canto.

A maquiagem, os efeitos práticos e as cenas de gore são de outro nível. Nesse quesito, A Morte do Demônio: Em Chamas entrega alguns dos momentos mais extremos e criativos da franquia, com mutilações e sangue em fartura suficiente para agradar quem veio para isso mesmo. Pelo menos até o terceiro ato decidir estragar a festa.

Porque aí está o maior problema do filme. Havia um ponto perfeito para encerrar a história, com impacto e economia. Só que alguém decidiu que aquilo não bastava, abraçou a computação gráfica e transformou o desfecho em uma farofa espetaculosa que passou longe do ponto. Tem gosto de final trocado de última hora, aquele que promete grandiosidade e entrega inchaço. Em vez de fechar com força, o filme escolhe se afogar em CGI.

Com personagens que tentam (e às vezes conseguem) ser interessantes, uma família disfuncional em tempo integral e sangue à vontade, A Morte do Demônio: Em Chamas funciona melhor quando você desliga o cérebro crítico e aceita as regras absurdas do jogo. É divertido, é uma boa pedida para quem gosta de horror sujo e visceral, com cenas agonizantes muito bem executadas tecnicamente. Só uma pena que o roteiro não tenha vindo com o mesmo capricho da direção, da maquiagem e dos efeitos práticos.

Ainda assim, o filme tem seus méritos e vai encontrar seu público. Particularmente, eu fugiria no exato instante em que meu pai matasse um cachorro na minha frente. Sem pensar duas vezes, sem parar para arrumar a mala. O que realmente me assusta é perceber que nenhum personagem cogita essa possibilidade óbvia. Então, talvez seja até justo que todos cheguem tão perto da morte. Ninguém aqui merece sobreviver por mérito próprio.

Crítica – Descendentes: País das Maravilhas Malvado volta aos trilhos e entrega sua melhor aventura desde o segundo filme

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Após a morte de Cameron Boyce e a saída de Dove Cameron, Sofia Carson e Booboo Stewart, a franquia Descendentes precisou encontrar um novo caminho. Quando a Disney decidiu retomar a série com um quarto filme centrado em Red e Chloe, o resultado ficou muito abaixo do que se esperava. O longa anterior tomou decisões narrativas questionáveis, bagunçou o próprio cânone ao colocar heróis e vilões estudando juntos no passado e ainda sofreu com problemas técnicos evidentes, como perucas que mudavam de aparência entre as cenas e a promessa de um baile que nunca chegou a acontecer.

Parecia difícil imaginar um retorno convincente. Felizmente, Descendentes: País das Maravilhas Malvado consegue mostrar que ainda havia espaço para recuperar a franquia.

A maior qualidade do quinto filme está justamente na disposição de corrigir os erros anteriores. A história começa contextualizando as consequências da viagem no tempo apresentada no longa passado, evitando que o público fique perdido diante da nova realidade. A premissa também funciona melhor ao explorar a ideia de que toda ação gera uma consequência.

Como a Rainha de Copas agora é uma pessoa boa, surge um novo espaço para o conflito. É nesse cenário que aparece Maddox, filho do Chapeleiro Maluco, interpretado por Leonardo Nam. O personagem assume o papel de antagonista e sequestra a Rainha dentro do próprio palácio. A dinâmica lembra, em alguns aspectos, o que Audrey fez em Descendentes 3, com o vilão agindo pelas sombras e estabelecendo as próprias regras.

Essa nova realidade também coloca Red e Chloe diante de conflitos mais interessantes. Red, vivida por Kylie Cantrall, precisa se adaptar a uma posição social completamente diferente. Sem o peso de ser vista como uma vilã, ela já não exerce o mesmo tipo de influência sobre as pessoas ao seu redor. Chloe, interpretada por Malia Baker, por sua vez, descobre que sua mãe, Cinderela, se tornou uma figura muito mais rígida no presente.

A relação entre as duas protagonistas é um dos pontos mais bem trabalhados do filme. Suas diferenças são exploradas de maneira mais natural, e o roteiro consegue desenvolver essa amizade sem transformar os conflitos em discussões artificiais.

O elenco de apoio, porém, oscila bastante. Em alguns momentos, surgem personagens que roubam a cena. É o caso de Max, interpretado por Brendon Tremblay, e Hazel, filha do Capitão Gancho vivida por Kiara Romero. Hazel tem uma presença forte e chama atenção sempre que aparece, enquanto Max ganha um arco dramático interessante ao questionar as perdas que seu pai sofreu por causa das mudanças provocadas pela viagem no tempo.

O humor também encontra um bom equilíbrio com Luís Madrigal, vivido por Alexandro Byrd, que acrescenta leveza à história e mostra que a expansão desse universo ainda pode render bons personagens.

Por outro lado, o filme repete um problema recorrente da franquia ao inserir figuras que parecem existir mais para ampliar a linha de produtos do que para contribuir com a narrativa. Robbie Hood, interpretado por Joel Oulette, e os gêmeos Smee são exemplos claros disso. Ambos têm pouco impacto na trama e poderiam ser retirados sem causar grandes consequências.

O mesmo acontece com Pink, a nova irmã de Red. Liamani Segura tem uma ótima voz, mas a personagem ainda não encontrou uma personalidade própria. A escolha de Ruby Rose Turner, que interpretou a versão jovem da Rainha de Copas no quarto filme, poderia ter criado uma conexão visual mais interessante entre as personagens. Pink, da forma como foi apresentada, acaba parecendo mais uma preparação para uma possível história futura do que alguém realmente importante para este capítulo.

Visualmente, o salto de qualidade é enorme. O orçamento maior aparece principalmente na construção dos cenários, com uma decisão acertada de priorizar ambientes práticos. O País das Maravilhas ganha vida justamente porque boa parte dos espaços é construída de forma física, enquanto o CGI fica concentrado em momentos que realmente precisam de efeitos digitais.

A direção de arte também corrige problemas que incomodavam no filme anterior. Os figurinos estão mais elaborados e consistentes, embora ainda exista uma dependência excessiva de roupas monocromáticas para diferenciar visualmente as protagonistas.

Na parte musical, a identidade teatral de Descendentes continua presente. A trilha sonora talvez não tenha músicas tão imediatamente memoráveis quanto as da trilogia original, mas duas sequências se destacam.

A primeira é uma disputa musical criativa em que os personagens são reduzidos de tamanho e cantam sobre um enorme tabuleiro de xadrez. A ideia é visualmente interessante e aproveita bem o conceito do País das Maravilhas. A segunda é “Heartless”, um dueto pop-rock entre Chloe e Max que injeta energia na segunda metade da história e funciona especialmente bem pela química entre os intérpretes.

O principal problema estrutural está no ritmo. A trama se passa em um período muito curto, de aproximadamente um dia e meio, e o filme raramente permite que os personagens respirem. Falta aquela sensação de passagem de tempo presente nos primeiros capítulos, quando havia espaço para momentos cotidianos, como conversas mais longas ou cenas aparentemente simples que ajudavam a desenvolver as relações.

Aqui, quase tudo acontece em sequência. Um acontecimento leva imediatamente ao próximo, e o roteiro raramente desacelera para que as consequências sejam absorvidas pelos personagens ou pelo público.

Ainda assim, o resultado final é positivo. O desfecho deixa diversas pontas abertas e praticamente prepara o terreno para um sexto filme, mas, dessa vez, a possibilidade de continuação não parece um problema. Pelo contrário, existe a sensação de que a franquia finalmente encontrou uma direção mais segura.

Descendentes: País das Maravilhas Malvado não reinventa a fórmula, mas entende melhor o que funcionava nela. Com cenários mais convincentes, atuações mais engajadas e uma preocupação maior em respeitar a própria mitologia, o filme recupera parte do encanto perdido no capítulo anterior.

Depois de um quarto filme bastante problemático, a franquia finalmente volta aos trilhos. O resultado não chega ao nível da trilogia original, mas representa uma recuperação significativa e, até aqui, é o melhor capítulo desde Descendentes 2.

Resenha – Sob o Céu dos Andes transforma uma história de família em um suspense marcado por violência e interesses ocultos

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É fácil encontrar thrillers que colocam o crime organizado no centro da história. O difícil é encontrar um que saia dos lugares mais conhecidos. Sob o Céu dos Andes faz justamente isso. Em vez das grandes cidades ou das rotas tradicionais do tráfico, a trama se passa na província de Loja, na fronteira entre Peru e Equador, onde antigos conflitos armados, mineração e narcotráfico acabam dividindo o mesmo espaço.

Nadine chega à região para rever a família, mas o reencontro toma outro rumo quando ela percebe que as pessoas mais próximas escondem muito mais do que simples desentendimentos. Aos poucos, a protagonista deixa de ser apenas alguém que observa os acontecimentos e passa a fazer parte deles. É uma mudança que acontece de forma natural na maior parte do livro, porque cada descoberta abre espaço para outra ainda mais delicada.

O aspecto mais interessante da obra está na forma como ela conecta interesses que, à primeira vista, parecem distantes. A exploração das minas, a presença de mercenários contratados por uma empresa estrangeira e a influência do narcotráfico não aparecem como histórias separadas. Tudo faz parte da mesma engrenagem, e o livro mostra como quem vive naquela região acaba sendo afetado por decisões tomadas muito longe dali.

Nem tudo funciona com a mesma força. O romance envolvendo Nadine, o jornalista espanhol e Sean ocupa um espaço que poderia ser usado para aprofundar personagens e conflitos familiares. Em alguns momentos, a impressão é de que a história perde um pouco da tensão construída anteriormente para dar atenção a relações que não despertam o mesmo interesse. O suspense cresce quando o foco permanece nos segredos da família e na disputa pelo território, não quando a trama tenta transformar esses encontros em um dilema amoroso.

Nadine também convence mais pelos momentos em que demonstra insegurança do que quando assume uma postura decisiva de uma hora para outra. Algumas escolhas importantes acontecem rápido demais e mereciam um desenvolvimento mais cuidadoso. Ainda assim, ela permanece uma personagem fácil de acompanhar justamente porque reage aos acontecimentos como alguém que foi surpreendida por uma realidade completamente diferente daquela que imaginava encontrar.

Outro ponto positivo é a ambientação. O autor não trata a fronteira apenas como pano de fundo. A região influencia o comportamento dos personagens, determina alianças e ajuda a explicar por que tanta violência consegue permanecer escondida durante tanto tempo. Essa relação entre espaço e narrativa dá identidade ao livro e faz diferença ao longo da leitura.

Sob o Céu dos Andes talvez não aproveite todo o potencial dos personagens que apresenta, mas acerta ao construir um conflito que vai além da ação. O livro fala sobre famílias marcadas pelo silêncio, comunidades presas entre interesses muito maiores do que elas e pessoas obrigadas a decidir até onde estão dispostas a ir para continuar vivas. Quando termina, fica menos a lembrança dos confrontos e mais a sensação de que ninguém atravessa aquela fronteira sem carregar alguma consequência.

Resenha – Crocotives: Lá Vem Pedrada mostra que nem uma cidade tranquila consegue deixar Mango & Brash parados por muito tempo

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Depois de tantas perseguições, explosões e planos mirabolantes, parecia que Mango & Brash finalmente teriam um descanso. Os criminosos desapareceram, o quartel-general da R.O.U.P.A. ainda passa por reformas e o MegaRobôBrash virou motivo suficiente para manter qualquer vilão bem longe da cidade. O problema é que paz demais também pode ser um problema, principalmente para dois detetives que vivem correndo atrás de confusão.

É justamente dessa situação aparentemente comum que Crocotives: Lá Vem Pedrada tira boa parte do seu humor. Os protagonistas ficam entediados com a rotina e passam a acompanhar o maior assunto do momento: as Pedras Parceiras, uma febre entre os moradores. Tudo parece apenas mais uma brincadeira até que as pedras começam a desaparecer e a dona da loja some sem deixar pistas. A partir daí, o descanso acaba de vez.

O quinto volume mantém exatamente o que fez a série conquistar tantos leitores. O humor continua sendo o centro da história, com piadas visuais, diálogos rápidos e situações absurdas que funcionam tanto para quem está conhecendo os personagens quanto para quem acompanha a dupla desde os primeiros livros. Mango e Brash seguem formando uma parceria divertida porque suas personalidades vivem entrando em choque, mas nunca deixam de se completar quando a investigação começa.

A história também acerta ao não complicar além da conta o mistério. O desaparecimento das pedras serve apenas como ponto de partida para uma sequência de acontecimentos cada vez mais malucos. O livro sabe que seu foco é divertir e não tenta parecer mais sério do que precisa. Esse equilíbrio faz com que a leitura seja leve e mantenha um ritmo constante do começo ao fim.

As ilustrações continuam sendo uma parte importante da experiência. Elas não estão ali apenas para acompanhar o texto, mas ajudam a contar a história e reforçam muitas das piadas. Em vários momentos, uma expressão dos personagens ou um detalhe escondido na página diz tanto quanto os diálogos.

Por outro lado, quem espera uma investigação cheia de grandes reviravoltas talvez encontre uma história mais simples do que imaginava. O mistério existe, mas nunca se torna realmente complexo. Isso, no entanto, parece ser uma escolha consciente da série, que prefere apostar na comédia e na aventura em vez de construir um quebra-cabeça elaborado.

Mesmo chegando ao quinto volume, a série ainda consegue encontrar situações diferentes para colocar seus protagonistas em apuros. O livro evita repetir exatamente a mesma fórmula e cria um problema novo a partir de algo completamente inofensivo, mostrando que, naquele universo, qualquer acontecimento pode virar uma grande missão.

Crocotives: Lá Vem Pedrada é mais uma leitura divertida para o público infantil e para quem gosta de histórias cheias de humor, ação e personagens carismáticos. Não é um livro que pretende reinventar a série, mas entende muito bem o que seus leitores esperam e entrega outra aventura capaz de arrancar boas risadas do início ao fim.

Crítica – Homem-Aranha: Um Novo Dia troca o espetáculo pela maturidade de Peter Parker

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Depois de Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, parecia difícil imaginar qual seria o próximo passo de Peter Parker. O personagem já tinha atravessado o caos do multiverso, dividido a tela com diferentes versões de si mesmo e participado de eventos cada vez maiores dentro do MCU. Havia o risco de ele se tornar apenas mais uma peça desse enorme quebra-cabeça.

Homem-Aranha: Um Novo Dia segue justamente pelo caminho contrário.

Peter perdeu a tia May. MJ e Ned já não fazem ideia de quem ele é. Em vez de transformar isso em mais uma desculpa para salvar o planeta, o filme entende que o maior conflito do Homem-Aranha sempre foi pessoal. A luta mais difícil nunca aconteceu contra um supervilão, mas contra a solidão.

Na primeira direção de Destin Daniel Cretton na franquia, a Marvel abandona o espetáculo constante para contar uma história menor em escala, mas muito mais íntima. Há um cuidado em fazer Nova York voltar a ser parte da identidade do herói. As ruas parecem vivas, os prédios têm peso, e Peter finalmente volta a parecer um garoto que vive apertado, dorme pouco e tenta equilibrar uma vida impossível.

Tom Holland entrega sua atuação mais madura como o personagem. O Peter inseguro dos primeiros filmes dá lugar a alguém mais cansado, marcado pelas perdas e obrigado a seguir em frente sem ninguém para dividir esse peso. A mutação genética apresentada pelo roteiro amplia sua força e também sua agressividade, criando um conflito interessante entre o herói que ele sempre tentou ser e a pessoa em que pode acabar se tornando.

Enquanto Peter escolhe manter distância para proteger quem ama, MJ e Ned seguem suas vidas sem imaginar que ele continua por perto. Essa renúncia dá força ao filme e funciona graças às atuações. Zendaya vive sua melhor versão da personagem até agora, mesmo aparecendo menos do que muitos esperam, enquanto Jacob Batalon continua sendo um alívio natural sempre que entra em cena.

Outra ótima surpresa é Jon Bernthal. Em vez de transformar o Justiceiro em um antagonista, o roteiro explora a relação entre dois homens que enxergam a violência de formas completamente diferentes. O contraste entre o idealismo de Peter e o pragmatismo de Frank Castle rende alguns dos melhores diálogos do filme.

Esse Castle está mais contido do que a versão da série, mas isso funciona dentro da proposta da história. Existe uma cena no hospital que revela um lado mais humano do personagem sem parecer forçada, e é justamente ali que a química entre Bernthal e Holland aparece com mais força.

Quem realmente domina boa parte do filme, porém, é Sadie Sink. Sua personagem se torna o eixo emocional da narrativa e mantém uma presença constante, mesmo quando está fora de cena. O problema é que o roteiro nunca desenvolve seu passado com a profundidade necessária. Algumas respostas chegam rápido demais e deixam a sensação de que havia uma história maior ali, mas ela acaba resumida em explicações superficiais.

O roteiro também insiste em mostrar a solidão de Peter, mas quase nunca apresenta a vida comum que ele tanto deseja recuperar. Falta vê-lo vivendo essa rotina perdida. Sem isso, o peso do sacrifício acaba ficando mais no discurso do que nas imagens.

As poucas interações entre Peter, MJ e Ned seguem essa mesma lógica. O filme aproxima os personagens de momentos emocionalmente fortes, mas sempre recua antes de realmente explorar essas emoções.

A trama envolvendo manipulação mental começa interessante, porém perde força quando o Departamento de Controle de Danos assume papel central na história. A partir daí, a narrativa passa a seguir caminhos mais previsíveis e enfraquece parte das revelações do terceiro ato.

Já a participação de Bruce Banner soa deslocada. O Hulk de Mark Ruffalo entra na história sem uma função realmente importante, apenas para repetir um conflito que o MCU já explorou diversas vezes. É um arco que pouco acrescenta ao filme e parece existir apenas para criar uma conexão com o restante da franquia.

No aspecto técnico, Um Novo Dia funciona muito bem. Os efeitos visuais têm algumas oscilações no início, mas evoluem bastante conforme a história avança. A fotografia valoriza a cidade sem exageros, os figurinos estão excelentes e a direção das cenas de ação acerta ao privilegiar coreografias claras em vez da câmera excessivamente agitada que se tornou comum em tantos filmes do gênero.

A trilha sonora também merece destaque. Em vez de buscar grandiosidade a qualquer custo, acompanha o estado emocional de Peter e reforça o tom melancólico da narrativa sem exagerar.

Mesmo com um roteiro irregular, personagens que poderiam ser melhor desenvolvidos e algumas escolhas seguras demais, Homem-Aranha: Um Novo Dia devolve ao personagem algo que fazia falta havia muito tempo: a sensação de que Peter Parker voltou a ser o centro da própria história. Quando o filme se concentra nele, deixa claro que o Homem-Aranha continua sendo muito mais interessante quando enfrenta os problemas que nenhum superpoder consegue resolver.

Crítica – O Fim da Rua transforma dinossauros e ficção científica em uma divertida viagem ao cinema dos anos 80

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Dirigido por David Robert Mitchell, de Corrente do Mal e Under the Silver Lake, O Fim da Rua pega uma família comum, coloca todo mundo no meio de um acontecimento completamente absurdo e deixa o resto acontecer. O resultado é uma aventura que mistura dinossauros, ficção científica, conflitos familiares e uma boa dose de nostalgia.

A história acompanha Denise (Anne Hathaway) e Greg (Ewan McGregor), um casal que atravessa uma fase complicada no relacionamento enquanto tenta cuidar dos dois filhos adolescentes. A rotina já não anda muito bem, mas tudo fica ainda mais complicado quando um estranho fenômeno cósmico atinge Oak Street.

De uma hora para outra, aquela rua residencial passa a dividir espaço com um passado muito mais distante. Dinossauros aparecem entre as casas, plantas pré-históricas tomam conta do lugar e a família precisa descobrir como continuar vivendo enquanto algo impossível acontece bem diante de seus olhos.

O roteiro tenta dar uma explicação para o fenômeno usando conceitos de espaço-tempo, buracos de minhoca e referências a Carl Sagan. Mas o mais interessante é que o filme não fica preso à necessidade de explicar cada detalhe. Ele apresenta a situação, estabelece suas regras e deixa a história seguir.

Um filme que entende os anos 80

O grande mérito de O Fim da Rua está na maneira como ele reproduz o espírito das aventuras daquela época.

Não é só uma questão de figurino, carros ou objetos antigos espalhados pelos cenários. O filme parece entender como aquelas histórias funcionavam. Uma família comum se envolve em uma situação absurda, crianças acabam no meio do problema e o perigo aparece de todos os lados.

Existe uma liberdade no roteiro que lembra muito as produções que passavam na televisão durante os anos 80 e 90. É aquela lógica em que ninguém perde muito tempo perguntando se determinada situação faz sentido. Se existem dinossauros na rua, então o jeito é descobrir como lidar com eles.

Nesse aspecto, O Fim da Rua lembra The Twilight Zone. A realidade continua aparentemente normal até que alguma coisa completamente inexplicável aparece e muda tudo. A partir daí, o acontecimento estranho serve para colocar os personagens diante de problemas que já estavam escondidos.

Dinossauros no meio da vizinhança

O filme também se diverte bastante com os clichês das aventuras familiares.

Há o garoto valentão que continua perseguindo um dos protagonistas mesmo quando a vizinhança está tomada pelo caos. Tem também o cachorro hiperativo que parece ter saído diretamente de uma comédia familiar como Beethoven.

Essas situações poderiam parecer bobas em outro filme, mas aqui fazem parte da proposta. O Fim da Rua sabe que está brincando com esse tipo de história e não tenta transformar tudo em algo mais sério do que precisa ser.

As referências a Os Goonies, Querida, Encolhi as Crianças, Jumanji e Jurassic Park também aparecem de maneira bastante natural. O filme não precisa copiar essas produções para lembrar delas. Basta colocar seus personagens em situações que remetem àquele tipo de aventura.

É justamente essa mistura que dá personalidade ao longa.

Denise é muito mais do que a mãe da família

No meio de toda essa confusão, Denise acaba sendo a personagem mais interessante.

Ela é mãe, esposa e responsável por uma parte importante da rotina familiar, mas existe uma insatisfação que vai aparecendo aos poucos. Denise sente que deixou algumas coisas para trás e começa a perceber que sua própria vida acabou ficando em segundo plano.

Isso aparece principalmente através de um livro que ela escreve escondida. É uma escolha simples do roteiro, mas suficiente para revelar uma parte da personagem que não aparece nas conversas com o marido ou com os filhos.

A comparação com Francesca, personagem de Meryl Streep em As Pontes de Madison, faz sentido nesse ponto. As histórias são bem diferentes, mas existe uma questão parecida: a mulher que percebe que existe uma vida além dos papéis que assumiu dentro da família.

O filme não aprofunda tanto esse assunto quanto poderia, mas pelo menos permite que Denise tenha uma história própria.

Anne Hathaway segura o filme

Anne Hathaway é quem melhor aproveita esse material.

Denise precisa reagir aos dinossauros, ao caos e às situações absurdas, mas também está lidando com problemas pessoais que não desaparecem só porque o mundo ficou de cabeça para baixo.

A atriz consegue passar essa mistura sem transformar a personagem em alguém excessivamente dramático. Denise continua sendo uma pessoa comum colocada em uma situação que definitivamente não é comum.

E talvez seja justamente por isso que ela funciona tão bem. Mesmo com toda a loucura acontecendo ao redor, dá para entender suas frustrações.

O filme poderia ter ficado mais tempo com seus personagens

O principal problema de O Fim da Rua está no desenvolvimento.

O filme apresenta várias questões interessantes envolvendo Denise, Greg e os filhos, mas nem sempre permanece tempo suficiente com elas. Quando alguma situação começa a ficar mais interessante, a aventura acaba puxando a história para outro lado.

Isso é mais perceptível nos conflitos familiares. Existe material para entender melhor o que cada personagem está sentindo, mas algumas dessas questões passam rápido demais.

Não chega a estragar o filme. Só deixa aquela sensação de que algumas cenas poderiam ter respirado um pouco mais.

No fim, os dinossauros são só parte da história

Apesar de toda a loucura envolvendo dinossauros, fenômenos cósmicos e espaço-tempo, O Fim da Rua funciona melhor quando lembra que sua história também é sobre pessoas.

Denise está tentando entender o que quer da própria vida. Greg precisa lidar com um relacionamento que não está no melhor momento. Os filhos estão crescendo e enfrentando seus próprios problemas.

O mundo pode estar completamente fora do lugar, mas os conflitos continuam sendo os mesmos.

É isso que faz o filme funcionar. O Fim da Rua não precisa ser uma aventura perfeita para ser divertido. Ele abraça suas referências, brinca com o cinema de aventura dos anos 80 e 90 e coloca uma família comum diante de uma situação que ninguém teria como imaginar.

No meio de dinossauros e fenômenos inexplicáveis, existe uma história bastante simples sobre pessoas tentando descobrir o que fazer quando a vida que conheciam deixa de fazer sentido.

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