Dica no MUBI: A Substância – Um corpo, duas versões e o preço da perfeição

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Já parou pra pensar no que faria se pudesse criar uma nova versão de si mesmo? Uma cópia fiel, só que mais jovem, mais bonita, mais “aprimorada”? Em A Substância, essa fantasia vira realidade — mas o preço, como sempre, é mais alto do que parece.

Dirigido e roteirizado pela francesa Coralie Fargeat (Revenge), o filme é uma bomba estética e emocional, com uma performance corajosa de Demi Moore, que entrega aqui um dos papéis mais impactantes (e autoficcionais) da carreira. Ela vive Elisabeth Sparkle, uma ex-estrela do mundo fitness que, depois de décadas sendo símbolo de juventude e disciplina, é descartada pela TV como quem joga fora um pote de creme vencido.

Humilhada, esquecida e à beira de um colapso, Elisabeth aceita experimentar uma droga experimental — uma substância misteriosa que promete “regenerar” sua juventude. Mas essa não é uma fórmula mágica de rejuvenescimento. É outra coisa. A substância cria outra você. Literalmente.

É aí que entra Margaret Qualley, vivendo a nova Elisabeth — mais nova, mais confiante, mais livre. Por contrato, as duas precisam dividir o mesmo corpo em turnos semanais: sete dias para a original, sete dias para a nova. Simples na teoria. Mas no fundo, quem vai querer abrir mão da própria existência assim, tão facilmente?

Um thriller de identidade com sangue, brilho e crítica social

A Substância é grotesco, estiloso, dolorido e brilhante — tudo ao mesmo tempo. Um terror corporal que conversa com filmes como A Mosca ou Cisne Negro, mas com uma linguagem muito própria. É uma fábula feminista sobre envelhecer sob os holofotes, ser descartada pelo sistema, e sobre o desejo desesperado de continuar sendo vista.

Entre cenas que beiram o absurdo e outras que apertam o peito, o longa constrói uma metáfora visceral sobre fama, vaidade, autoimagem e o terror de ser esquecida. E o mais interessante é que nada disso é pregado com discurso — tudo vem pelo corpo, pela imagem, pelo desconforto que a câmera imprime.

Demi Moore se entrega de corpo e alma. Literalmente. Ao lado de Margaret Qualley (em mais uma atuação física e vibrante), as duas constroem um embate tenso, emocional e até melancólico entre a mulher que tenta manter sua identidade e a outra que só quer existir — custe o que custar.

E no meio disso tudo, o espectador assiste à guerra silenciosa (e às vezes sangrenta) entre essas duas versões de uma mesma mulher. Quem vence, afinal? A que já viveu ou a que promete durar para sempre?

🎬 A Substância (The Substance)
Direção e roteiro: Coralie Fargeat
Elenco: Demi Moore, Margaret Qualley, Dennis Quaid
Duração:
Classificação: 18 anos
Disponível agora na MUBI
Também para aluguel no Prime Video

O Silêncio das Ostras: Filme mineiro emociona e denuncia os impactos humanos da mineração

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Na tela, a poeira parece não assentar. A lama não seca. As palavras quase não saem — e talvez por isso o silêncio diga tanto. Em O Silêncio das Ostras, primeiro longa de ficção do premiado documentarista Marcos Pimentel, a tragédia de Brumadinho deixa de ser manchete e se transforma em carne, memória e ferida aberta. O filme estreou com aclamação no 26º Festival Internacional de Cinema do Rio de Janeiro e chega agora aos cinemas de todo o Brasil como uma das obras mais urgentes, sensíveis e necessárias do nosso tempo.

Narrado pelos olhos da pequena Kaylane (vivida com delicadeza por Lavínia Castelari), o filme não traz heróis nem respostas fáceis. Apenas sobreviventes. Gente comum, como tantas que vivem (ou sobrevivem) nas sombras da mineração em Minas Gerais. Kaylane nasceu e cresceu em um vilarejo de operários onde a paisagem é seca, o tempo é pesado e os sonhos… enterrados. À sua volta, o pai, silenciado por anos de trabalho insalubre; a mãe Cleude (Sinara Telles), exausta de carregar nas costas os cacos de uma vida que a mineração não poupou.

Entre perdas sucessivas, Kaylane aprende cedo a conviver com a despedida. Cresce sozinha, cercada por irmãos que seguem o mesmo destino dos pais, e encontra nos insetos e na natureza — o que ainda resta dela — sua forma de entender o mundo. Há um lirismo estranho e profundo nisso tudo. O filme nos convida a ver pelos olhos dela, a sentir por dentro aquilo que a terra parece gritar, mas ninguém escuta.

“O filme nasceu do desejo de revisitar lugares que foram esvaziados. A mineração não extraiu só o minério — arrancou também a alma dessas comunidades”, conta o diretor Marcos Pimentel. A ficção ganha ainda mais força quando entrelaçada a imagens reais dos rompimentos de barragens, como os de Fundão (2015) e Brumadinho (2019), tragédias que mataram centenas, destruíram ecossistemas e deixaram marcas que seguem pulsando — invisíveis para muitos, mas ainda muito vivas para quem ficou.

O Silêncio das Ostras não é um filme sobre o passado. É sobre o presente que insiste em não mudar. É sobre o cotidiano de quem viu a água virar lama, os vizinhos virarem nomes em placas e os sonhos virarem silêncio. “Retratamos uma dor que ainda é real”, reforça Pimentel.

Mais do que denúncia, o longa é um manifesto poético. Uma tentativa de reocupar os vazios — geográficos e afetivos — deixados pelas mineradoras. A trilha é o silêncio, mas a imagem fala. E como fala.

Foto: Reprodução/ Cred Olhar Filmes

A beleza que resiste

A fotografia do filme aposta em tons ocres, quase sem vida, que contrastam com a imaginação fértil de Kaylane. Ali onde tudo parece morto, ela encontra beleza. Onde muitos já não enxergam saída, ela ainda procura caminhos. Há uma doçura trágica nisso. Uma força que emociona.

Com atuações marcantes de Bárbara Colen, Lavínia Castelari, Sinara Telles e um elenco profundamente comprometido com a verdade da história, o filme transforma um cenário devastado em palco de resistência emocional. É sobre crescer no meio do fim do mundo. E, ainda assim, sonhar.

Estreia nacional

Além de Belo Horizonte, O Silêncio das Ostras entra em cartaz esta semana em diversas capitais e cidades brasileiras, incluindo São Paulo, Rio de Janeiro, Recife, Porto Alegre, Salvador, Fortaleza, Curitiba, Brasília, Manaus, Belém, Vitória, Londrina e Sorocaba.

Entre a batina e o amor proibido: O romance A Voz do Tempo revela escândalo envolvendo ex-padre nos anos 40

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Por trás de muitas histórias de família repousam segredos silenciados por décadas. Às vezes, eles estão escondidos em cartas antigas, fotografias desbotadas ou em peças de roupa guardadas em baús. No caso da escritora Lenah Oswaldo Cruz, o segredo estava em uma batina branca com detalhes dourados e em três cadernos manuscritos encontrados entre os pertences do pai. A descoberta, ao mesmo tempo íntima e perturbadora, deu origem ao romance A Voz do Tempo (Leitura Coletiva), que narra o amor proibido entre um padre beneditino e uma jovem da elite carioca, nos anos 1930 e 40.

Misturando memória pessoal, pesquisa histórica e reconstrução ficcional, o livro parte da trajetória real de Dom Xavier, um respeitado professor de filosofia e sacerdote da ordem beneditina que, em determinado momento de sua vida, decide abandonar o sacerdócio ao se apaixonar por Dora, uma jovem de beleza marcante, pertencente a uma família tradicional do Rio de Janeiro. O relacionamento, vivido em segredo até a ruptura definitiva com a Igreja, logo se tornaria público — e escandaloso.

“Quando encontrei os diários, percebi que precisava contar essa história. Não só pela minha família, mas pelo que ela dizia sobre fé, desejo e o peso das escolhas em tempos mais duros”, conta a autora, em entrevista.

Amor, culpa e silêncio: as consequências de uma decisão radical

A união entre Xavier e Dora, selada sob o impulso de um sentimento arrebatador, não trouxe apenas o alívio da libertação. A renúncia de Xavier à vida religiosa foi duramente julgada pela comunidade católica e pela própria família, e o casamento, idealizado como fuga e recomeço, logo revelou rachaduras profundas.

“Eles pagaram um preço alto por terem escolhido o amor. Só que o amor, às vezes, não basta.” Essa é uma das frases recorrentes no romance, que acompanha a evolução da relação do casal ao longo das décadas — da paixão inicial aos conflitos conjugais, das expectativas frustradas à violência doméstica, do sonho romântico à dor cotidiana.

Ao contar a história de seus pais, Lenah não tenta redimi-los. O que ela oferece ao leitor é uma narrativa profundamente humana, em que a coragem de romper com as estruturas tradicionais também abre espaço para o desencanto. Dora, antes musa inspiradora de uma mudança de vida radical, torna-se uma mulher ressentida e melancólica. Xavier, por sua vez, vê-se prisioneiro de uma decisão que o distancia da fé e da vocação, mas não lhe oferece a paz que imaginava encontrar fora da batina.

A memória como reconstrução do que foi (e do que poderia ter sido)

Escrito em primeira pessoa, o romance oscila entre o relato memorialístico e a ficção histórica. Ao longo das páginas, Lenah costura trechos dos diários paternos com lembranças da infância, cenas reconstruídas a partir de relatos familiares e referências ao contexto político e cultural da época. A narrativa atravessa cidades como São Paulo, Rio de Janeiro, Washington e Lisboa, acompanhando os deslocamentos e transformações do casal e de seus descendentes.

Eventos históricos como a Revolução Constitucionalista de 1932, o surgimento de movimentos intelectuais católicos no Brasil e a vida universitária nos anos 50 servem de pano de fundo para a trama. Mas é na dimensão afetiva que o livro encontra sua força. Ao relatar os impactos do casamento conturbado dos pais em sua própria formação emocional, Lenah revela também o esforço de reconstrução — da memória, da identidade e, sobretudo, da escuta.

“Durante anos, essa história foi tratada como tabu na minha família. Escrevê-la foi uma forma de escavar não só o passado, mas o silêncio que ele impôs.”

O poder do romance como lugar de revelação

A Voz do Tempo chega aos leitores não apenas como uma história de amor impossível, mas como um retrato sensível das consequências emocionais de decisões radicais em uma sociedade ainda profundamente marcada pela moral religiosa. Ao dar voz a personagens reais — com todas as suas imperfeições, falhas e contradições —, Lenah Oswaldo Cruz propõe uma reflexão sobre os limites entre vocação e desejo, fé e liberdade, família e ferida.

Amalia Ulman estreia Magic Farm com exclusividade na MUBI: uma sátira alucinada sobre mídia, autenticidade e o olhar colonial contemporâneo

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A partir desta sexta-feira, 11 de julho, a MUBI — plataforma de streaming, distribuidora e produtora reconhecida por sua curadoria ousada e autoral — disponibiliza com exclusividade o aguardado Magic Farm, novo longa da artista visual e cineasta Amalia Ulman, que explora com humor ácido, estética experimental e um olhar provocativo os bastidores da construção de narrativas na era das mídias performativas.

Mais do que um filme, Magic Farm é uma desconstrução — do olhar branco, da indústria de conteúdo, da fronteira entre ficção e realidade. Inspirado pelo jornalismo “semi-gonzo” popularizado pela Vice News na década de 2010, o filme propõe uma reflexão sobre como o suposto olhar alternativo sobre o “terceiro mundo” muitas vezes perpetua estereótipos sob uma nova roupagem, cool e desencanada.

Satirizando a sede por narrativas exóticas

Na trama, acompanhamos uma equipe de documentaristas outsiders em busca da próxima grande “história estranha” em um país latino-americano não especificado. O grupo, formado por personalidades que flertam com o narcisismo, a ignorância cultural e a falsa empatia, embarca numa jornada que começa como cobertura jornalística e rapidamente se transforma em espetáculo grotesco — uma crítica clara à exploração midiática travestida de engajamento.

O roteiro, escrito pela própria Ulman, é afiado ao expor os mecanismos contemporâneos de criação de conteúdo e de produção de personagens. Magic Farm desmonta o fetiche ocidental por experiências “autênticas” em territórios que são vistos mais como cenário do que como realidade. É um retrato inquietante — e muitas vezes cômico — do privilégio de quem pode entrar, gravar e sair, sem se comprometer com as consequências.

Elenco potente, ironia visual e camadas de desconforto

O filme conta com um elenco de destaque, reunindo Chloë Sevigny (ícone do cinema indie norte-americano), Alex Wolff (Oppenheimer, Um Lugar Silencioso: Dia Um), Simon Rex (Red Rocket), Joe Apollonio, Camila del Campo e a própria Amalia Ulman, que também assume papel central na narrativa. Juntos, eles habitam um universo onde o real e o encenado se misturam em um jogo cínico e escancaradamente desconfortável.

Visualmente, Magic Farm é vibrante, fragmentado e instável — como um feed de rede social em colapso. A montagem brinca com texturas documentais, vídeos de bastidores, cenas encenadas e imagens de arquivo manipuladas. Tudo se costura como num pesadelo digital, onde nada é confiável e tudo pode ser conteúdo.

De “El Planeta” à crítica da indústria cultural

Ulman, que já havia se destacado com El Planeta (2021), filme sobre sobrevivência feminina na Espanha pós-crise, mostra aqui uma maturidade autoral ainda mais afiada. Enquanto El Planeta era introspectivo e delicado, Magic Farm é expansivo, debochado e profundamente incômodo — um ataque direto à estética do “cool consciente”, ao jornalismo superficial e à fome ocidental por histórias que misturem tragédia e pitadas de exotismo.

Para a diretora, a lógica do “Fake it ‘til you make it” (finja até conseguir) é mais do que uma crítica — é uma lente para compreender como subjetividades são criadas e comercializadas hoje, tanto na arte quanto no jornalismo, na política ou nas redes sociais.

Dica na Netflix: Te Espero no Fim da Jornada — Um filme sobre encontros improváveis, feridas abertas e o poder transformador da conexão

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Algumas histórias não precisam de grandes reviravoltas para emocionar. Elas só precisam ser honestas. Te Espero no Fim da Jornada é assim: um filme que fala baixinho, mas que vai fundo. Não grita, não pressiona, não tenta ser o que não é — e talvez por isso mesmo, acabe tocando de um jeito inesperado.

Na trama, conhecemos Tian Yu, um escritor de Hong Kong que já teve seus dias de brilho, mas hoje caminha à beira do próprio abismo. Assombrado por uma acusação de plágio e por lembranças que ainda doem, ele carrega um vazio difícil de explicar. Em meio ao caos interno, decide embarcar numa viagem até Taipei — uma fuga, talvez. Ou um último suspiro antes de desistir de tudo.

É lá que ele conhece Xiang, um jovem que vive à margem, entre becos e riscos, mas que tem no olhar uma certa inquietude bonita de se ver. Xiang não pergunta muito, não invade. Apenas oferece companhia, abrigo e uma promessa: levar Tian Yu até a tal Baía das Baleias, um lugar escondido no mapa, que dizem ser passagem para algo maior — um tipo de paraíso, quem sabe.

O que começa como uma jornada geográfica logo se transforma numa viagem interna. E o que parecia apenas um roteiro improvável entre um escritor melancólico e um quase-gângster, vai revelando um vínculo que não se encaixa em definições fáceis. Há silêncio, mas também afeto. Há mágoa, mas também esperança. E, acima de tudo, há o reconhecimento de que, às vezes, tudo o que a gente precisa é encontrar alguém que nos veja de verdade.

Dirigido por Angel Ihan Teng, o longa taiwanês é puro lirismo. A câmera passeia com calma, permitindo que a relação entre os protagonistas floresça com tempo, com verdade, com espaço para respirar. Nada é forçado — nem o drama, nem a emoção. O filme entende que as grandes mudanças acontecem no detalhe: num toque, num desabafo tímido, num gesto de cuidado que salva sem alarde.

🎬 Ficha Técnica
Título: Te Espero no Fim da Jornada
Direção: Angel Ihan Teng
Elenco: Terrance Lau Chun-him, Fandy Fan, Chan Tzu-hsuan
Duração: 1h43min
Gênero: Drama romântico / Taiwanês
Na Netflix
Classificação indicativa: 16 anos

Dica no Reserva Imovision: Sebastian — Um retrato cru e poético da identidade e desejo

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Alguns filmes chegam de mansinho, mas deixam marcas profundas. Sebastian, dirigido por Mikko Mäkelä, é exatamente assim. Disponível no catálogo do Reserva Imovision, o longa é um mergulho sensível, corajoso e inquietante na vida de um jovem que tenta se entender em meio às próprias contradições.

A história acompanha Max, um escritor de 25 anos que vive em Londres. À primeira vista, ele parece um jovem comum — introspectivo, criativo, em busca de espaço no mundo literário. Mas, quando a noite cai, Max assume uma identidade paralela: ele se torna Sebastian, um trabalhador do sexo que atende homens por aplicativos, motéis e quartos alugados. O que começa como uma forma de sobreviver — e talvez até buscar inspiração — logo se transforma em algo mais complexo. Max começa a se perder na fronteira entre o personagem que criou e quem ele realmente é.

É difícil assistir a Sebastian e sair ileso. Não porque o filme é gráfico ou provocador à força, mas porque ele se entrega com uma honestidade rara. O diretor Mikko Mäkelä opta por uma narrativa íntima, quase confessional, em que tudo é sentido à flor da pele — do toque ao silêncio, da vulnerabilidade à tensão. Nada é gratuito: cada cena parece carregada de um peso emocional que se reconhece mesmo nos gestos mais sutis.

Mais do que falar sobre sexo, o longa fala sobre solidão, pertencimento, performance. Fala sobre o que acontece quando usamos máscaras por tanto tempo que esquecemos como era o rosto por trás delas. Max/Sebastian não é um herói, nem uma vítima — ele é humano. E é justamente isso que torna o filme tão tocante.

Indicado ao British Independent Film Awards e exibido no Sundance Film Festival, Sebastian é um daqueles filmes que não fazem concessões. É um retrato delicado da juventude queer, das rotas de fuga, das tentativas desesperadas de se conectar com o outro (ou consigo mesmo). É sobre a arte como forma de sobrevivência — mas também como armadilha. Sobre amar, desejar, se expor e, no fim, tentar juntar os pedaços da própria identidade.

🎧 Para quem é esse filme?

Pra quem já se sentiu dividido. Pra quem viveu (ou vive) tentando agradar todos, menos a si mesmo. Pra quem carrega dúvidas que não se encaixam em frases prontas. Pra quem entende que crescer, às vezes, significa perder um pouco o chão. E também pra quem acredita que cinema pode ser lugar de cura, de encontro, de verdade.


🎬 Ficha Técnica
Título original: Sebastian
Direção: Mikko Mäkelä
Duração: 110 minutos
Ano de lançamento: 2024
Classificação indicativa: 18 anos
Contém: Conteúdo sexual, uso de drogas ilícitas e cenas de violência

Crítica – Shadow Force decepciona com narrativa previsível e produção sem brilho

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Quando um filme de ação chega às telas, as expectativas naturalmente envolvem adrenalina, sequências eletrizantes e personagens que cativam o público. Infelizmente, Shadow Force não consegue cumprir essa promessa e acaba se tornando uma experiência decepcionante, mesmo contando com um elenco talentoso.

Logo no início, o filme já apresenta um problema básico que dificulta a imersão do espectador: um erro de continuidade que passa despercebido apenas por quem não está atento. Uma assassina de aluguel executa um tiro perfeito a longa distância, e o homem cai morto. Porém, segundos depois, a mesma cena é contraditada por um enquadramento que não faz sentido dentro da lógica apresentada. Pequenos detalhes como esse parecem simples, mas refletem uma falta de cuidado que se repete ao longo do filme.

Omar Sy, que carrega no nome o peso de seu talento e carisma, interpreta mais uma vez um personagem americano de origem senegalesa — uma escolha que, apesar de trazer representatividade, não se aprofunda em camadas ou singularidades. O roteiro, infelizmente, não oferece a complexidade necessária para que o ator explore seu potencial, deixando-o preso a um papel que se encaixa no molde padrão de heróis de ação contemporâneos.

A trama parte de uma premissa com potencial: um casal de agentes secretos, traídos por sua própria agência, foge com o filho para sobreviver. No entanto, a narrativa rapidamente se perde em clichês batidos — o “último trabalho antes da aposentadoria”, o “mentor corrompido”, a “fuga em família” — fórmulas já vistas inúmeras vezes e que pouco acrescentam ao gênero. O roteiro não surpreende, tampouco emociona, entregando reviravoltas previsíveis e diálogos genéricos.

Visualmente, Shadow Force também decepciona. A direção, que deveria conduzir o ritmo frenético típico do gênero, tropeça em cenas confusas e mal iluminadas, onde o espectador acaba por perder a noção dos movimentos e da ação. Um exemplo é a tentativa de coreografar uma luta entre o casal protagonista — a sequência é tão escura e desordenada que se torna praticamente ilegível. A fotografia opaca e os cenários genéricos — galpões, florestas e motéis — colaboram para a sensação de que o filme poderia se passar em qualquer lugar do mundo, sem deixar qualquer marca.

Outro ponto que chama a atenção — e gera desconforto — é uma sequência de violência em uma igreja. O ataque, brutal e gratuito, parece deslocado da trama e levanta questões importantes sobre representatividade e as escolhas narrativas feitas pelo filme. A violência ali parece mais uma decisão calculada do que uma necessidade para o desenvolvimento da história.

No elenco de apoio, os personagens secundários funcionam mais como elementos utilitários para movimentar a trama do que figuras com personalidade ou complexidade. O vilão principal, por sua vez, se apresenta como uma caricatura, o que diminui o peso do conflito e a tensão que deveria carregar.

Apesar das limitações do filme, Omar Sy mostra comprometimento e entrega uma atuação sólida — especialmente em uma cena de confronto verbal, onde seu talento brilha com mais intensidade e autenticidade, oferecendo um raro momento de verdade em meio à produção.

No balanço geral, Shadow Force acaba se tornando um filme que não consegue se afirmar nem como entretenimento eficiente nem como uma obra original dentro do gênero. É uma produção que soa desgastada e pouco inspirada, que poderia ter sido melhor com um roteiro mais ousado e uma direção mais atenta.

Para o público que acompanha a carreira de Omar Sy, o filme é um lembrete de que até mesmo grandes atores podem enfrentar projetos que não fazem jus ao seu potencial. Para os fãs do cinema de ação, resta a frustração de assistir a um produto que parece mais um trabalho automático do que uma obra pensada para envolver e emocionar.

Shadow Force pode até preencher algumas horas de tela, mas dificilmente deixará uma marca significativa na memória do público.

Exclusivo! A Mulher Que Nunca Existiu e Depois da Vida estreiam na Reserva Imovision

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A última semana trouxe à Reserva Imovision duas estreias exclusivas que revelam, com sutileza e potência, o poder transformador do cinema. De um lado, o mestre japonês Hirokazu Koreeda nos guia por uma fábula existencial delicada e profundamente tocante. Do outro, uma voz feminina tunisiana nos confronta com a urgência da identidade e da resistência em um mundo desigual. Ambas as histórias atravessam culturas e fronteiras para chegar onde o cinema mais verdadeiro sempre quer chegar: dentro de nós.

🌫️ Depois da Vida, de Hirokazu Koreeda — Uma memória para a eternidade

Imagine morrer e, antes de partir definitivamente, receber a chance de escolher uma única lembrança para levar com você para sempre. Essa é a premissa — poética e perturbadora — de Depois da Vida, um dos filmes mais sensíveis da carreira de Hirokazu Koreeda, diretor consagrado por obras como Assunto de Família e Pais e Filhos.

Ambientado em um espaço metafísico entre a vida e a morte, o filme acompanha recém-falecidos que, guiados por uma equipe de mediadores, têm três dias para decidir qual foi o momento mais significativo de suas vidas. Uma vez escolhida, essa memória é transformada em filme — o único fragmento que os acompanhará pela eternidade.

Koreeda trata a morte não como fim, mas como convite à contemplação. Em vez de dogmas ou fantasias místicas, o que vemos é um exercício de humanidade: simples, silencioso e devastadoramente bonito. Um filme que nos faz sair em busca das nossas próprias memórias inesquecíveis.

🕊️ A Mulher Que Nunca Existiu — Um silêncio que vira grito

De volta ao plano terreno — e à dura realidade da vida —, A Mulher Que Nunca Existiu nos leva à Tunísia contemporânea, onde as mulheres lutam todos os dias para serem vistas, ouvidas e respeitadas.

Aya é uma mulher marcada por traumas. Após sobreviver a um grave acidente, ela vê na tragédia a oportunidade de apagar seu passado e assumir uma nova identidade. É sua chance de escapar, de reinventar-se — até que ela se torna testemunha de uma brutalidade policial. Entre o desejo de se manter invisível e a necessidade de denunciar, Aya será confrontada por um dilema íntimo e coletivo: até onde vale o preço de calar?

O filme não é apenas um drama pessoal. É também uma radiografia social sobre o que significa ser mulher em um país onde a liberdade é condicionada, e a verdade, perigosa. É um manifesto silencioso — até que explode.

🎞️ Duas experiências, um mesmo destino: a transformação

Tanto Depois da Vida quanto A Mulher Que Nunca Existiu convidam o espectador a pausar, respirar e refletir. São histórias que não gritam, mas ecoam. Que não oferecem respostas fáceis, mas despertam perguntas necessárias.

Ambos os filmes já estão disponíveis exclusivamente na plataforma Reserva Imovision, que segue sendo o espaço ideal para quem busca mais do que entretenimento: um cinema com alma, com coragem e com verdade.

O Agente Secreto emociona Paris com frevo, público lotado e homenagem a Wagner Moura no Louvre

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Na noite de 5 de julho, o cinema brasileiro viveu mais um de seus momentos históricos. Sob o céu de Paris, nos emblemáticos jardins do Museu do Louvre, uma sessão especial de O Agente Secreto encantou 2.500 espectadores, que lotaram o espaço ao ar livre do Festival Cinéma Paradiso Louvre. O evento uniu cultura, política e emoção — com direito a frevo, homenagem e a consagração de um dos maiores nomes do audiovisual nacional.

🏆 Palma de Ouro com sotaque baiano

O momento mais aguardado da noite foi a entrega oficial da Palma de Ouro de Melhor Ator a Wagner Moura, pela interpretação de Marcelo, protagonista do longa. A premiação havia sido anunciada em maio, durante o Festival de Cannes, mas Moura não pôde comparecer. O diretor Kleber Mendonça Filho recebeu o prêmio em seu nome na ocasião.

Agora, a honraria foi entregue diretamente a Moura, das mãos da atriz francesa Juliette Binoche, que presidiu o júri de Cannes este ano. Aplaudido de pé por um público emocionado, o ator agradeceu ao lado de Kleber e da produtora Emilie Lesclaux, em uma celebração marcada também pela apresentação vibrante dos Guerreiros do Passo, grupo que levou o frevo pernambucano para o coração da capital francesa.

🌍 Um filme brasileiro que fala várias línguas

A força do longa não se resume aos prêmios. O Agente Secreto já garantiu distribuição em 94 países nas Américas, Europa, Ásia e Oceania, graças à MK2 Films, responsável pela comercialização internacional. Entre os territórios já confirmados estão grandes polos cinematográficos como Estados Unidos, China, México, Reino Unido, Coreia do Sul, Índia, Grécia e Nova Zelândia.

A turnê internacional segue em julho com pré-estreias em Portugal: no Cinema São Jorge, em Lisboa (dia 23), e no Cinema Trindade, no Porto (dia 25), ambas com a presença de Kleber Mendonça Filho. O filme também passou recentemente pelo Festival de Sydney, depois de estrear em Cannes, onde conquistou quatro prêmios importantes: Melhor Diretor, Melhor Ator (Wagner Moura), o Prêmio FIPRESCI (Federação Internacional de Críticos de Cinema) e o Art et Essai, concedido pela AFCAE (Associação Francesa de Cinema de Arte e Ensaio).

🕵️‍♂️ Suspense político com sotaque, suor e memórias

Ambientado no Recife de 1977, durante os anos sombrios da ditadura militar, o longa traz um retrato tenso e realista de um país sob vigilância, censura e desconfiança. Moura interpreta Marcelo, um especialista em tecnologia que retorna à sua cidade natal tentando reconstruir a vida após um passado turbulento — mas logo percebe que o Recife que reencontra é um campo minado, onde nada é o que parece.

Com direção precisa e fotografia carregada de simbolismo, o filme mistura thriller político, drama psicológico e crônica urbana para contar uma história nacional com ressonância universal. A trilha sonora, os detalhes de época e a tensão crescente tornam O Agente Secreto um filme potente e necessário — uma verdadeira carta política em forma de cinema.

🎭 Um elenco poderoso para uma história densa

O elenco reúne grandes nomes do audiovisual brasileiro, como Maria Fernanda Cândido, Gabriel Leone, Carlos Francisco, Hermila Guedes, Alice Carvalho e Roberto Diogenes. A produção é de Emilie Lesclaux, com coprodução internacional da CinemaScópio (Brasil), MK Productions (França), Lemming Film (Holanda) e One Two Films (Alemanha).

A distribuição no Brasil é da Vitrine Filmes, enquanto no mercado internacional o longa será lançado pela NEON (EUA e Canadá) e pela MUBI (Reino Unido, Irlanda, Índia e América Latina — com exceção do Brasil).

🎟️ Sessões especiais e estreia no Brasil

Embora o filme já tenha conquistado plateias internacionais, o público brasileiro terá a chance de vivê-lo nos cinemas a partir de setembro, com sessões especiais antecipadas em várias cidades. A estreia comercial está marcada para o dia 6 de novembro, quando O Agente Secreto finalmente chegará em circuito nacional.

“Isto aqui está incrível! Mas estou muito ansioso para mostrar o filme no Brasil”, disse Kleber Mendonça Filho no palco do Louvre. “Vamos começar a exibir o longa em sessões especiais já em setembro.”

Voo de sucesso: Como Treinar o Seu Dragão encanta o mundo e ultrapassa US$ 470 milhões nas bilheteiras globais

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A história de amizade entre um jovem viking e um dragão indomável voltou às telas — desta vez em carne, osso e efeitos visuais arrebatadores. O remake live-action de Como Treinar o Seu Dragão não apenas tocou os corações dos antigos fãs, como também conquistou uma nova geração. E os números não deixam dúvidas: a magia está de volta, mais forte do que nunca.

Desde sua estreia, o longa já acumula US$ 479 milhões em bilheteria mundial, mostrando que o apelo emocional da trama, aliado à tecnologia de ponta e à nostalgia cuidadosamente dosada, ainda é uma fórmula poderosa.

Estreia com fôlego de blockbuster

Nos Estados Unidos, o longa foi além das previsões mais otimistas do mercado. Lançado em meio a uma temporada competitiva, o filme superou expectativas e estreou com US$ 83 milhões, quando a previsão mais confiante girava entre US$ 70 e US$ 80 milhões. Ao fim do fim de semana prolongado de 4 de julho, já havia somado US$ 224 milhões no mercado doméstico, mantendo-se firme no top 3 das bilheteiras e mostrando que há espaço para narrativas sensíveis em meio a tantos heróis e monstros.

No mundo, o coração dos dragões bate forte

O sucesso também ecoou além das fronteiras americanas. O remake arrecadou US$ 114 milhões em sua abertura internacional, com destaques para o México (US$ 14 milhões), Reino Unido e Irlanda (US$ 11,2 milhões) e China (US$ 11,2 milhões). Esses mercados demonstraram uma forte conexão com a história universal sobre empatia, coragem e superação — temas que, somados a visuais impressionantes, continuam encantando plateias diversas.

Entre a nostalgia e a inovação: o que torna o remake tão poderoso?

Diferente de muitas releituras que apenas recriam planos da animação original, o novo Como Treinar o Seu Dragão aposta em uma reinterpretação sensível. Mantendo o núcleo emocional da relação entre Soluço e Banguela, o filme oferece uma experiência visual mais madura, com um mundo vívido, batalhas intensas e uma nova textura dramática. Ainda assim, sem abandonar o espírito encantador da franquia, que sempre falou sobre ver o mundo com os olhos da empatia — até mesmo quando esse mundo tem escamas e solta fogo.

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