
Meu Querido Assassino começa com aquele tipo de ideia que imediatamente chama atenção: um mundo em que menos de 1% da população possui “sangue dourado”, tornando essas pessoas alvos de caça, exploração e comércio ilegal. É uma base forte, quase inquietante, que já nasce pedindo uma crítica social mais afiada ou um thriller realmente sufocante.
Só que a sensação, conforme o filme avança, é de que essa ideia é maior do que a própria narrativa consegue segurar. Existe um universo interessante ali, mas ele nunca é totalmente explorado com foco. Tudo parece importante ao mesmo tempo, e isso acaba diluindo o impacto do que poderia ser central.

Quem é Lhan quando o mundo não está tentando matá-la?
No meio desse caos está Lhan, uma jovem que perde os pais de forma brutal e acaba sendo levada para a Casa 89, um abrigo improvisado onde sobreviventes tentam se manter vivos nesse cenário de caça humana.
A questão é que Lhan raramente parece ocupar o centro da própria história. Ela está sempre reagindo ao que acontece ao redor, sendo empurrada por eventos cada vez mais extremos, mas sem ganhar espaço suficiente para existir além disso. A sensação é de que conhecemos mais o que acontece com ela do que quem ela realmente é.
E isso pesa. Porque em uma história tão carregada de violência e sobrevivência, era justamente a construção emocional da protagonista que deveria sustentar tudo.
E se o treinamento fosse mais importante do que a ação?
Um dos poucos momentos em que o filme realmente encontra um ritmo interessante é quando desacelera para acompanhar o processo de treinamento de Lhan. E aqui existe algo curioso: ao contrário de muitos filmes do gênero, não há glamour na evolução.
Não existe transformação instantânea, nem aquele clássico crescimento estilizado com música épica e cortes rápidos. O que vemos é algo mais duro, mais desconfortável. Aprender a lutar não parece empoderamento, parece desgaste. Parece sobrevivência forçada.
E talvez seja justamente aqui que o filme mais se aproxima de uma ideia potente: o corpo como algo moldado pela violência, não pela escolha.

Mas por que tudo precisa acontecer ao mesmo tempo?
A grande questão de Meu Querido Assassino é simples, mas decisiva: por que o filme quer ser tanta coisa ao mesmo tempo?
Ele tenta ser crítica social, romance trágico, história de vingança, drama emocional e ainda um thriller de ação estilizado. Só que, ao invés de aprofundar essas camadas, ele as empilha.
O resultado é uma narrativa que está sempre ocupada demais para respirar. Relações importantes aparecem, como a dinâmica entre Lhan e Pran, ou o papel de M dentro desse universo, mas nunca têm tempo suficiente para se desenvolver de forma orgânica. Tudo surge com potencial, mas logo é interrompido por mais uma virada de trama.
E isso gera um efeito estranho: nada parece realmente terminar de existir dentro da história.
E se menos fosse mais?
Em vários momentos, o filme parece ter medo do silêncio. Medo de deixar a emoção acontecer sem explicação, medo de confiar que o público vai entender o que está em jogo sem precisar ser constantemente guiado.
Então ele insiste em acelerar, em acumular eventos, em reforçar sentimentos o tempo todo. Só que emoção não funciona por excesso. Funciona por construção.
E quando tudo é intenso o tempo inteiro, nada realmente se destaca.
Vale a pena se perder nesse mundo?
Meu Querido Assassino não é um filme vazio. Ele tem ideias interessantes, momentos bem construídos e uma estética que segura bem a proposta. Existe ambição aqui, e isso é visível em cada escolha.
Mas também é um filme que parece indeciso sobre o próprio coração. Ele quer dizer muita coisa, mas raramente para o suficiente para entender o que deveria dizer com mais força.
No fim, sobra uma experiência curiosa: você entende o universo, reconhece as intenções, mas sai com a sensação de que faltou algo essencial. Não exatamente mais ação, nem mais drama… mas mais foco.











