Supergirl chega aos cinemas com a difícil missão de apresentar uma nova versão de Kara Zor-El após diferentes interpretações da personagem ao longo dos anos. Sob a direção de Craig Gillespie (Cruella e Eu, Tonya), o longa abandona a tentativa de aproximar a heroína do estilo tradicionalmente associado ao Superman e aposta em uma aventura espacial mais agressiva, emocional e distante da imagem clássica da personagem.

A produção também marca um novo começo para Supergirl após a participação de Sasha Calle em The Flash e o sucesso da série televisiva protagonizada por Melissa Benoist. A responsabilidade de assumir esse legado fica com Milly Alcock (House of the Dragon), que entrega uma Kara Zor-El mais impulsiva, ferida e carregada por conflitos internos.

A história acompanha a heroína durante seu aniversário, enquanto ela tenta conviver com os traumas deixados pelo passado e com o peso de ser uma sobrevivente de Krypton. A situação muda quando sua nave é roubada e Krypto, seu cachorro, é gravemente ferido. A busca por uma cura leva Kara para uma jornada pelo espaço ao lado de Ruthye (Eve Ridley), uma jovem determinada a encontrar Krem, responsável pela morte de sua família.

O filme acerta principalmente quando entende que a força da personagem está justamente em explorar territórios diferentes. Em vez de repetir a fórmula de histórias anteriores da família Superman, Supergirl constrói uma aventura com escala galáctica, trazendo criaturas, mundos e conflitos que ampliam o universo da heroína.

Visualmente, a produção é um dos pontos mais fortes. O design de produção demonstra cuidado na criação dos ambientes e dos personagens, enquanto a combinação entre efeitos práticos e computação gráfica resulta em uma experiência consistente. As cenas de ação têm peso e conseguem transmitir a sensação de uma verdadeira aventura espacial, sem depender apenas do espetáculo visual.

Porém, é justamente nesse aspecto que surge uma das maiores frustrações do longa. A adaptação da HQ Supergirl: Woman of Tomorrow, de Tom King e Bilquis Evely, tinha espaço para uma abordagem visual ainda mais ousada e diferente. O filme apresenta bons momentos no espaço, mas raramente se entrega completamente ao potencial criativo de seus mundos. Faltam cenários mais marcantes e uma identidade visual capaz de transformar cada planeta em uma descoberta.

No papel principal, Milly Alcock é o grande destaque. A atriz entende a complexidade da personagem e cria uma Supergirl muito diferente do Superman apresentado recentemente nos cinemas. Sua Kara não é uma figura idealizada ou sempre confiante; ela carrega raiva, insegurança e uma dificuldade real de lidar com as próprias perdas. Alcock sustenta o filme mesmo quando a narrativa ao redor dela perde força.

A participação de Eve Ridley como Ruthye funciona em alguns momentos, mas a personagem nem sempre acompanha o impacto da protagonista. A relação entre as duas deveria ser um dos pilares emocionais da trama, porém algumas escolhas do roteiro fazem essa dinâmica parecer menos envolvente do que poderia ser.

Quem surpreende positivamente é Jason Momoa, que retorna ao universo da DC em uma nova função após interpretar Aquaman. Como Lobo, o ator abraça completamente o exagero e o humor do personagem. Momoa demonstra uma liberdade que combina com o papel, e suas cenas ao lado de Supergirl estão entre as mais divertidas da produção.

O maior problema está no roteiro. Apesar de apresentar boas ideias, a história não consegue desenvolver todo o potencial de seus conflitos. Krem, o antagonista, é o elo mais fraco da narrativa: falta presença, motivação e uma ameaça capaz de justificar a jornada enfrentada pelos protagonistas. Ele funciona apenas como um obstáculo para movimentar a trama, sem deixar uma marca significativa.

Na direção, Gillespie mostra domínio principalmente nas sequências de ação. O cineasta conduz os momentos de combate com clareza e energia, incluindo uma sequência em plano-sequência que se destaca pela construção e pelo ritmo. A câmera acompanha Kara de maneira dinâmica, valorizando a força da personagem e o desempenho físico de Milly Alcock.

Outro mérito do filme está na forma como ele se distancia de Superman. Embora façam parte do mesmo universo, as duas produções possuem propostas diferentes. Enquanto Clark Kent representa uma visão mais esperançosa e inspiradora do heroísmo, Kara é apresentada a partir de uma perspectiva mais turbulenta e pessoal. Essa variedade de estilos é uma das características mais interessantes da nova fase liderada por James Gunn.

A trama está longe de ser uma produção perfeita, mas encontra um caminho próprio para a personagem. O longa é prejudicado por um roteiro irregular e por um vilão pouco desenvolvido, mas compensa com uma protagonista forte, uma direção segura e uma aventura que finalmente coloca Kara Zor-El no centro da própria história.

Mais do que apresentar uma nova versão da heroína, o filme prova que Supergirl não precisa existir como extensão do Superman. Ela funciona melhor quando assume suas próprias dores, sua própria personalidade e seu próprio espaço dentro do universo da DC.

Avaliação geral
Nota do crítico
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Esdras Barbosa
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.
critica-supergirl-ganha-identidade-propria-e-entrega-uma-das-aventuras-mais-promissoras-da-nova-dcSupergirl encontra uma identidade própria ao apresentar uma Kara Zor-El mais intensa, emocional e distante da sombra do Superman. Com uma atuação marcante de Milly Alcock, uma direção segura de Craig Gillespie e sequências de ação visualmente impressionantes, o longa entrega uma aventura espacial com personalidade e amplia as possibilidades da heroína dentro da DC. Apesar dos acertos, o roteiro irregular e um vilão pouco desenvolvido impedem que a produção alcance todo o potencial da sua proposta. Ainda assim, o filme se destaca por construir uma Supergirl com voz própria e mostra que a personagem tem força para protagonizar sua própria jornada nos cinemas.

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