Temperatura Máxima deste domingo, 8 de fevereiro, leva adrenalina ao limite com “Missão Resgate”, estrelado por Liam Neeson

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O domingo, 8 de fevereiro de 2026, promete ganhar contornos bem mais intensos na Temperatura Máxima, da TV Globo. A emissora exibe “Missão Resgate” (The Ice Road), um filme que mistura ação, suspense e drama humano em um cenário onde o frio não perdoa e o tempo é o maior inimigo. Estrelado por Liam Neeson, o longa transforma o gelo do norte do Canadá em palco para uma história de coragem, sacrifício e decisões que podem custar vidas.

A história começa com um desastre que muda tudo. Uma mina de diamantes localizada em uma região isolada do Canadá desmorona, deixando vários trabalhadores presos a centenas de metros abaixo da superfície. Com os sistemas de ventilação comprometidos, o oxigênio passa a se esgotar rapidamente. Cada minuto conta, e a chance de sobrevivência diminui a cada nova hora.

Diante da situação, surge uma única alternativa: transportar equipamentos pesados até o local do acidente por meio das chamadas estradas de gelo, caminhos formados sobre lagos e mares congelados durante o inverno. São rotas perigosas, instáveis e imprevisíveis, onde o peso excessivo pode romper o gelo a qualquer momento. É uma missão que poucos aceitariam — e que muitos consideram impossível.

É nesse contexto que entra Mike McCann, personagem vivido por Liam Neeson. Ele é um caminhoneiro experiente, daqueles moldados pela estrada, pelo silêncio e pelo cansaço de quem já viu de tudo. McCann não é apresentado como um herói invencível, mas como alguém que carrega suas próprias dores e limitações. Ainda assim, quando percebe que vidas estão em jogo, ele decide seguir em frente.

Ao liderar a missão de resgate, McCann precisa enfrentar não só o gelo fino sob as rodas do caminhão, mas também a pressão psicológica de saber que qualquer erro pode ser fatal. O filme encontra força justamente nesses momentos mais humanos, quando o personagem demonstra medo, hesitação e, ao mesmo tempo, um forte senso de responsabilidade.

O elenco de apoio ajuda a reforçar essa sensação de tensão constante. Laurence Fishburne interpreta Jim Goldenrod, um líder pragmático e experiente, que tenta manter o controle mesmo quando tudo parece prestes a desmoronar. Sua presença traz equilíbrio e autoridade à narrativa, funcionando como um contraponto ao personagem de Neeson.

Benjamin Walker vive Tom Varnay, um engenheiro ligado à mina, cuja participação adiciona camadas de conflito e surpresa à trama. Já Amber Midthunder, no papel de Tantoo, traz uma carga emocional importante à história, ajudando a humanizar ainda mais a missão e suas consequências. Os personagens secundários não são meros figurantes: cada um carrega motivações próprias, medos e escolhas difíceis.

Na direção, Jonathan Hensleigh aposta em uma condução direta, sem excessos. O foco está na sensação de perigo iminente, construída por meio de cenas longas nas estradas congeladas, rangidos do gelo e caminhões avançando lentamente sobre superfícies que podem se partir a qualquer instante. O frio é quase um personagem à parte, sempre presente, hostil e silencioso.

A fotografia contribui para essa atmosfera ao explorar paisagens amplas e geladas, transmitindo isolamento e vulnerabilidade. Não há glamour no cenário: tudo é cinza, branco e azul, reforçando a ideia de que os personagens estão sozinhos contra a natureza.

Lançado originalmente em 2021, Missão Resgate teve uma trajetória marcante no streaming antes de chegar à TV aberta. Nos Estados Unidos, a Netflix adquiriu os direitos de exibição, lançando o filme na plataforma em junho daquele ano. O resultado foi imediato: o longa se tornou o título mais assistido do serviço em seu fim de semana de estreia, mostrando a força do gênero e do nome de Liam Neeson junto ao público.

Em outros países, o filme seguiu caminhos diferentes. No Brasil, chegou aos cinemas e às plataformas digitais por meio da Imagem Filmes e California Filmes, enquanto no Reino Unido ficou disponível no Amazon Prime Video. Em Portugal, a exibição ocorreu através da Cinemas NOS.

Para quem não conseguir acompanhar a exibição na Temperatura Máxima, há outras opções. O filme está disponível no Globoplay e no Telecine, para assinantes. Também pode ser alugado no Prime Video, em alta definição, a partir de R$ 14,90, permitindo que o público escolha o melhor momento para encarar essa jornada gelada.

Blue Lock no mundo real! O anime que desafiou o futebol japonês chega aos cinemas em live-action

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O anúncio caiu como uma bomba entre fãs de anime, mangá e futebol. Neste sábado, 7 de fevereiro, foi divulgado um novo teaser do live-action de Blue Lock, acompanhado da confirmação de sua estreia nos cinemas japoneses em 7 de agosto. Abaixo, confira o vídeo:

A origem de Blue Lock está diretamente ligada a um evento real e marcante: a eliminação da seleção japonesa na Copa do Mundo da Rússia, em 2018. Apesar de ter apresentado um futebol organizado e disciplinado, o Japão novamente ficou pelo caminho, reforçando uma crítica recorrente dentro e fora do país: faltava um atacante decisivo, alguém capaz de assumir a responsabilidade nos momentos finais.

Enquanto parte da elite esportiva japonesa parecia resignada com esse cenário, a obra propõe uma reação radical. Dentro da história, essa inquietação ganha rosto e voz através de Anri Teiri, uma jovem dirigente que se recusa a aceitar a ideia de que o Japão jamais terá um artilheiro de elite no cenário mundial.

Convencida de que o problema não é estrutural, mas filosófico, Anri decide apostar tudo em uma ideia extrema. Para isso, ela contrata um treinador tão brilhante quanto controverso: Jinpachi Ego.

Jinpachi Ego e a quebra de paradigmas

Jinpachi Ego não é um técnico comum. Ele surge como uma figura quase antagônica à tradição esportiva japonesa, que sempre valorizou disciplina, espírito coletivo e humildade. Para Ego, esses valores são justamente o que impede o Japão de produzir um atacante realmente letal.

Sua teoria é simples e perturbadora: o futebol japonês fracassa porque seus atacantes são altruístas demais. Falta ego, fome de gols, desejo de ser o protagonista absoluto. A solução proposta por ele beira o absurdo, mas é justamente isso que torna Blue Lock tão intrigante.

Ego cria o projeto Blue Lock, um centro de treinamento de última geração onde 300 jovens atacantes sub-18 são isolados do mundo exterior. Ali, eles passam a competir entre si em desafios eliminatórios, físicos e psicológicos. O objetivo é claro e cruel: apenas um deles sairá como vencedor, destinado a se tornar o camisa 9 da seleção japonesa. Os outros 299 terão suas carreiras praticamente encerradas.

Uma competição onde perder significa desaparecer

Diferente de outros animes esportivos, Blue Lock não suaviza o impacto da derrota. Aqui, perder não é apenas parte do aprendizado, mas o fim da linha. Cada desafio carrega um peso emocional enorme, pois não existe segunda chance.

Esse clima constante de tensão transforma o centro de treinamento em um verdadeiro campo de batalha. Os personagens são forçados a confrontar seus limites, seus medos e, principalmente, sua visão sobre o que significa vencer.

A obra faz questão de deixar claro que talento não é suficiente. Sobrevive quem consegue se adaptar, evoluir e, acima de tudo, colocar o próprio sonho acima de qualquer vínculo emocional.

Isagi Yoichi: um protagonista em conflito

No centro dessa narrativa está Isagi Yoichi, um jovem atacante que representa o oposto do ideal defendido por Jinpachi Ego. Logo no início da história, Isagi vive um momento que define toda a sua trajetória: em uma partida decisiva, ele escolhe passar a bola em vez de finalizar. A jogada parecia correta dentro da lógica do trabalho em equipe, mas termina em fracasso quando o companheiro erra o chute.

A derrota elimina o time do campeonato nacional e deixa Isagi consumido pela dúvida. Ele fez o certo ou apenas foi covarde? Essa pergunta o acompanha quando recebe o convite para participar do projeto Blue Lock.

Ao entrar no programa, Isagi precisa confrontar suas próprias crenças. O jovem que acreditava no futebol coletivo agora é obrigado a desenvolver um instinto egoísta, aprender a pensar primeiro em si e aceitar que, para vencer, será necessário derrotar — e humilhar — outros sonhadores como ele.

Essa jornada interna é um dos maiores trunfos de Blue Lock. O crescimento de Isagi não acontece apenas no campo, mas também no plano psicológico, tornando-o um protagonista complexo, cheio de contradições.

Criado por Muneyuki Kaneshiro e ilustrado por Yusuke Nomura, Blue Lock começou a ser publicado na Weekly Shōnen Magazine em agosto de 2018. Desde seus primeiros capítulos, a obra chamou atenção por sua abordagem agressiva, quase cruel, do esporte mais popular do mundo.

Visualmente, o mangá se destaca pelo traço estilizado de Nomura, que transforma jogadas de futebol em verdadeiros confrontos mentais. As expressões exageradas, os enquadramentos dramáticos e as metáforas visuais ajudam a traduzir o estado emocional dos personagens, algo raro no gênero.

O sucesso editorial foi rápido. A Kodansha passou a lançar os volumes encadernados regularmente, e a série não demorou a alcançar números impressionantes. Até janeiro de 2026, Blue Lock já contava com 37 volumes publicados, mantendo uma base de leitores fiel e crescente.

O impacto de Blue Lock vai muito além das vendas. A obra ultrapassou a marca de 15 milhões de cópias em circulação, consolidando-se como um dos mangás esportivos mais populares da atualidade.

Em 2021, o reconhecimento veio de forma oficial com a conquista do 45º Prêmio de Mangá Kodansha, na categoria Melhor Mangá Shōnen. O prêmio não apenas confirmou a relevância da obra dentro da indústria, como também ajudou a expandir ainda mais seu alcance internacional.

O anime, lançado posteriormente, ampliou esse sucesso, levando a história a um público ainda maior e preparando o terreno para projetos mais ambiciosos, como o live-action.

No Brasil, Blue Lock é publicado pela Panini, que apostou na força da franquia desde seus primeiros volumes. A recepção foi imediata, especialmente entre jovens leitores e fãs de futebol, que se identificam com o tom intenso e competitivo da narrativa.

Em Portugal, a obra começou a ser publicada pela Distrito Manga em fevereiro de 2025, marcando a entrada oficial da franquia no mercado português. Essa expansão no mundo lusófono reflete o alcance global de Blue Lock e ajuda a explicar o interesse internacional em sua adaptação cinematográfica.

Transformar Blue Lock em live-action é um desafio considerável. A obra depende fortemente de exageros visuais e de uma linguagem quase abstrata para representar o conflito interno dos jogadores. Levar isso para o cinema exige equilíbrio entre realismo e estilização.

O teaser divulgado no dia 7 de fevereiro aposta em uma atmosfera mais séria e intensa. As imagens destacam o isolamento do centro de treinamento, o olhar determinado dos personagens e a tensão constante entre os competidores. Mesmo com poucas cenas reveladas, o material sugere um cuidado em preservar o espírito da obra original.

A estreia marcada para 7 de agosto no Japão posiciona o filme em um período estratégico, aproveitando o verão e o aumento do público jovem nos cinemas. Ainda não há informações oficiais sobre lançamento internacional, mas a expectativa é alta, especialmente em países onde o mangá e o anime já possuem uma base sólida de fãs.

Apesar de usar o esporte como pano de fundo, Blue Lock sempre foi uma história sobre pessoas. Fala sobre pressão, fracasso, identidade e a busca obsessiva pelo sucesso. Em um mundo cada vez mais competitivo, a obra dialoga diretamente com uma geração acostumada a disputar espaço, reconhecimento e oportunidades.

Saiba qual filme vai passar no Cine Aventura deste sábado, 7 de fevereiro, na Record TV

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No Cine Aventura deste sábado, 7 de fevereiro de 2026, a Record TV exibe o suspense psicológico Até o Limite, um filme que prende o espectador desde os primeiros minutos e transforma um simples turno de rádio em uma noite de terror, culpa e jogos mentais. Estrelado por Mel Gibson, o longa aposta em tensão constante, reviravoltas inesperadas e personagens cheios de falhas, aproximando o público de uma história que vai muito além de um thriller comum. O filme também está disponível no streaming pelo Prime Video.

A trama gira em torno de Elvis Cooney, um radialista conhecido em Los Angeles por seu estilo provocador, suas piadas ácidas e uma postura que frequentemente ultrapassa limites. Dono de um programa noturno de grande audiência, Elvis decide aceitar um novo desafio profissional ao assumir o horário da meia-noite na rádio KLAT. A mudança, porém, cobra um preço alto. Para seguir focado na carreira, ele se afasta da esposa Olivia e da filha Adria, mergulhando em uma rotina solitária, alimentada pelo ego e pela sensação de poder que o microfone lhe proporciona.

No estúdio, Elvis trabalha ao lado de Mary, a telefonista que filtra as ligações dos ouvintes e mantém o programa funcionando nos bastidores. Logo no início do turno, ele conhece Dylan, um jovem estagiário em seu primeiro dia de trabalho. Fiel ao seu jeito debochado, Elvis decide recepcionar o novato com uma pegadinha, algo que parece inofensivo, mas já indica o tipo de personalidade que domina o ambiente da rádio.

A noite segue aparentemente normal até que Elvis recebe uma ligação que muda tudo. Do outro lado da linha está um homem que se apresenta como Gary. No começo, a conversa soa como mais uma participação excêntrica de um ouvinte noturno. Em poucos segundos, porém, o clima se transforma quando Gary afirma estar dentro da casa de Elvis, mantendo Olivia e Adria como reféns. A ameaça é direta e aterradora. Se Elvis desligar o telefone ou tentar interromper a transmissão, sua família será morta.

Desesperado, Elvis tenta manter a calma enquanto Gary revela o verdadeiro motivo do ataque. Ele afirma que o radialista foi responsável pela morte de Lauren, uma antiga telefonista da rádio que teria tirado a própria vida após ser constantemente humilhada pelas piadas e comentários ofensivos de Elvis. A partir desse ponto, o filme abandona qualquer sensação de conforto e mergulha em um jogo psicológico cruel, onde cada palavra dita ao vivo pode custar uma vida.

Gary passa a controlar o programa e obriga Elvis a se expor publicamente. Em um dos momentos mais constrangedores, ele força o apresentador a admitir no ar que teve um relacionamento com Mary. Em seguida, ordena que Elvis suba até o telhado do prédio e pule. Sem opções, ele obedece, acompanhado por Dylan, Mary e Steven, outro funcionário da emissora. Em uma tentativa de ganhar tempo, Dylan tenta enganar Gary, fingindo que Elvis realmente saltou do prédio. O plano falha quando um drone revela que tudo está sendo monitorado.

Pouco depois, Elvis ouve disparos pelo telefone e acredita que sua esposa e filha foram assassinadas. O choque é devastador. No entanto, ao sair do estúdio, ele escuta a voz de Gary ecoando pelos alto-falantes do prédio. O sequestrador revela que nunca esteve na casa de Elvis. Olivia e Adria ainda estão vivas e escondidas em algum ponto do próprio edifício da rádio. Gary usou o tempo para matar o segurança da entrada, se esconder no prédio e preparar uma explosão. Agora, Elvis tem apenas 40 minutos para encontrá-lo.

O filme ganha ritmo acelerado quando Elvis e Dylan percorrem corredores escuros, salas técnicas e passagens escondidas do prédio. No meio da busca, eles encontram Tony, um velho amigo de Elvis que vinha roubando computadores do local sem que ninguém percebesse. Gary exige que Elvis o mate como prova de obediência. Pela primeira vez, o radialista se recusa a seguir as ordens, deixando Tony escapar. O gesto marca uma virada emocional no personagem, que começa a questionar o tipo de pessoa que se tornou.

Em outro momento tenso, Gary leva Elvis e Dylan a um esconderijo falso e revela que está observando tudo pelas câmeras de segurança. Quando conseguem chegar à sala de controle, eles encontram o corpo de Justin, um apresentador rival que sonhava em ocupar o horário de Elvis. Logo depois, Gary anuncia que agora está no estúdio, mantendo Mary e Steven como reféns.

O clima se torna ainda mais pesado quando Elvis descobre que Olivia e Adria estão no terraço usando coletes explosivos. A polícia entra em cena com Bruce, um agente da SWAT, mas nem mesmo isso impede Gary de continuar controlando a situação. Ele exige uma troca. As duas são libertadas, mas Dylan deve ocupar o lugar delas. Sem alternativas, Elvis aceita. Quando tudo parece perdido, Gary atira em Bruce e aciona o detonador, sem que nada aconteça.

É nesse ponto que o filme surpreende. Elvis e Gary começam a rir e se abraçam, enquanto pessoas que todos acreditavam estar mortas reaparecem ilesas. A revelação é chocante. Tudo não passou de uma gigantesca pegadinha armada por toda a equipe da rádio para assustar Dylan. O problema é que a brincadeira saiu completamente do controle. Em choque, o estagiário deixa o estúdio e acaba caindo de uma escada, aparentemente morrendo no impacto.

Na manhã seguinte, Elvis, destruído emocionalmente, decide abandonar o rádio. Porém, o desfecho guarda mais uma reviravolta. Dylan reaparece vivo. Seu verdadeiro nome é Max, e ele é um dublê contratado para fingir a própria morte como parte de uma última pegadinha, dessa vez organizada para comemorar o aniversário de Elvis, que ele acreditava ter sido esquecido por todos. A ironia é amarga. Depois de tantas manipulações, o único realmente abalado é o próprio radialista.

Lançado nos Estados Unidos em novembro de 2022, após a Saban Films adquirir seus direitos de distribuição, Até o Limite foi filmado em Paris em 2021 e conta ainda com Kevin Dillon, William Moseley, Enrique Arce, Nadia Farès, Alia Seror O’Neill, Paul Spera e Nancy Tate no elenco. Mais do que um suspense eletrizante, o filme provoca reflexões sobre limites, responsabilidade e até onde o entretenimento pode ir antes de se tornar cruel. Uma escolha certeira para quem gosta de histórias intensas e cheias de surpresas.

Resenha – Asterix Omnibus (Volume 2) é a prova de que o humor também pode ser um ato de resistência

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Asterix Omnibus (Vol. 2) é, ao mesmo tempo, um lembrete do enorme talento criativo de René Goscinny e Albert Uderzo e uma prova de como um clássico pode sobreviver — e ser questionado — fora do seu tempo original. A coletânea reúne três aventuras fundamentais (Asterix Gladiador, Uma Volta pela Gália com Asterix e Asterix e Cleópatra), mas o que realmente sustenta o volume não é apenas o humor, e sim a inteligência política por trás de cada piada.

Por trás do tom leve e do traço cartunesco, Asterix sempre foi um comentário ácido sobre poder, imperialismo e resistência cultural. Aqui, isso fica ainda mais evidente. Os romanos não são apenas vilões caricatos; representam sistemas burocráticos, autoritários e absurdamente confiantes na própria superioridade. A aldeia gaulesa, por sua vez, funciona como metáfora da identidade que se recusa a ser apagada — nem pela força, nem pela “civilização” imposta.

Em Asterix Gladiador, o espetáculo da violência romana é tratado com humor, mas também com crítica clara: transformar sofrimento em entretenimento é uma prática antiga — e assustadoramente atual. A forma como Asterix e Obelix subvertem o sistema dos gladiadores expõe o ridículo de uma estrutura que só funciona enquanto ninguém questiona suas regras. O riso aqui não é inocente; é corrosivo.

Uma Volta pela Gália com Asterix talvez seja a história mais politicamente afiada do volume. A tentativa romana de isolar a aldeia com uma paliçada é uma imagem poderosa de controle territorial e cerceamento cultural. A resposta dos gauleses — atravessar o país celebrando comidas, sotaques e costumes — transforma a gastronomia em ato de resistência. É uma aventura simples na forma, mas sofisticada no discurso, exaltando a diversidade como antídoto contra a homogeneização forçada.

Já Asterix e Cleópatra brinca com vaidade, poder e ego nacional, usando o Egito como palco para uma sátira sobre líderes que confundem grandeza pessoal com grandeza histórica. Apesar do tom cômico, há aqui uma crítica direta à obsessão por monumentos, fama e legado, enquanto pessoas comuns lidam com as consequências dessas ambições.

Ainda assim, vale dizer: nem tudo envelheceu perfeitamente. Algumas piadas visuais e estereótipos refletem o contexto da época e podem soar datados para leitores mais atentos hoje. Isso não invalida a obra, mas convida à leitura crítica — algo que, ironicamente, combina muito com o espírito questionador da própria série.

No fim, Asterix Omnibus (Vol. 2) funciona menos como simples entretenimento infantil e mais como uma aula disfarçada de quadrinhos. Um clássico que diverte, sim, mas que também provoca, ironiza o poder e lembra que rir pode ser um ato profundamente político.

Resenha – Meninos Morrem de Medo expõe o fracasso social em lidar com a diferença

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Meninos Morrem de Medo: Contos de Flamígera é um livro que se constrói a partir da delicadeza, mas não se esconde atrás dela. Ao reunir histórias centradas em personagens que a sociedade insiste em marginalizar — pessoas autistas, indivíduos com síndrome de Down e sujeitos profundamente sensíveis — a obra assume uma postura crítica clara: a exclusão não é exceção, é regra. E o medo, longe de ser apenas sentimento individual, é produto de um sistema que pune quem foge da norma.

O tom aparentemente nostálgico que atravessa os contos — cartas perfumadas, códigos de cortesia, encontros mais lentos — funciona menos como saudade de um tempo idealizado e mais como recurso de contraste. Ao evocar um passado em que os gestos carregavam significado, o livro evidencia o empobrecimento das relações contemporâneas, marcadas por pressa, superficialidade e intolerância. Essa escolha narrativa revela um olhar crítico sobre o presente, ainda que sem recorrer ao discurso explícito.

O verdadeiro centro da obra está em seus personagens. Eles não aparecem para cumprir funções simbólicas nem para despertar piedade. Ao contrário, são construídos com complexidade e humanidade, expondo desejos, frustrações e contradições. O livro acerta ao recusar tanto a romantização da diferença quanto a sua exploração como instrumento moralizante. Aqui, o desconforto nasce justamente da normalidade dessas vidas — e da forma como são constantemente violentadas por olhares e expectativas alheias.

A violência retratada nos contos raramente é física. Ela se manifesta de maneira mais sutil e persistente: no silenciamento, no constrangimento, na tentativa constante de corrigir comportamentos considerados inadequados. Meninos Morrem de Medo é incisivo ao mostrar como a violência psicológica é naturalizada e, muitas vezes, invisível. O livro não oferece redenção fácil nem soluções narrativas confortáveis; ele expõe feridas e as deixa abertas.

O título da obra é revelador. O medo que atravessa os personagens não é covardia, mas resultado de um aprendizado social cruel. Aprender a temer o afeto, a exposição e o julgamento é uma forma de sobrevivência em um mundo que exige desempenho e normalização constantes. Nesse sentido, o livro também faz uma crítica direta às construções de masculinidade e à repressão emocional imposta desde a infância.

Do ponto de vista literário, a escrita é contida e consciente. Não há excessos nem ornamentalização do sofrimento. A escolha por uma linguagem limpa e econômica reforça a força do que é dito, evitando qualquer tentativa de espetacularizar a dor. Em alguns momentos, essa contenção pode soar fria, mas é justamente ela que impede o livro de escorregar para o sentimentalismo fácil.

Meninos Morrem de Medo: Contos de Flamígera não é uma leitura confortável, ainda que seja delicada. Sua crítica é silenciosa, mas persistente. Ao colocar no centro da narrativa personagens que costumam ser empurrados para as margens, o livro obriga o leitor a confrontar seus próprios preconceitos e limites de empatia.

Resenha – Ao Meu Redor transforma o sobrenatural em espelho da culpa humana

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Em Ao Meu Redor, André Vianco retorna ao horror com uma proposta clara: usar o sobrenatural não como espetáculo, mas como consequência direta de escolhas morais extremas. O livro parte de uma pergunta provocadora — até onde alguém iria para escapar do próprio inferno? — e responde de forma cruel: sempre existe algo pior à espera.

A protagonista, Teodora, é uma policial corrupta que já surge no limite da queda. Não há tentativa de torná-la simpática ou justificável, e esse é um dos acertos do romance. Sua relação com Raoni, chefe do tráfico, é baseada em conveniência e violência, e a traição que sofre apenas acelera um colapso que já estava em curso. Quando Teodora mata Raoni e inicia uma corrida desesperada atrás do dinheiro do crime, a narrativa assume um ritmo sufocante, marcado por paranoia, culpa e impulsos destrutivos.

O ponto de virada da história acontece com a entrada de Jéssica, a irmã afastada, uma cientista brilhante e emocionalmente instável. A criação da Iboga-7 — uma droga capaz de abrir um canal entre vivos e mortos — desloca o livro do thriller criminal para o horror metafísico. Vianco acerta ao tratar essa transição não como ruptura, mas como aprofundamento: o sobrenatural surge como extensão do caos psicológico e moral das personagens.

A relação entre as duas irmãs é um dos pilares mais interessantes da narrativa. Não há afeto idealizado, apenas ressentimento, dependência e feridas antigas nunca cicatrizadas. O terror que se desenrola no “outro lado” é constantemente atravessado por traumas familiares, tornando difícil separar o que é manifestação do além e o que é projeção da culpa. Ao Meu Redor deixa claro que atravessar mundos não significa escapar de si mesmo.

O horror aqui não se constrói apenas com monstros ou visões perturbadoras, mas com a sensação constante de aprisionamento. O além apresentado por Vianco é hostil, opressor e profundamente psicológico. A experiência é menos sobre o medo do desconhecido e mais sobre o reconhecimento de que certas condenações são autoimpostas. Nesse sentido, o livro se aproxima mais do horror existencial do que do terror clássico.

Narrativamente, Vianco aposta em uma escrita direta, agressiva e sem concessões. O ritmo é intenso, por vezes quase exaustivo, o que reforça a sensação de desespero que acompanha as protagonistas. Em alguns momentos, o excesso de brutalidade pode afastar leitores mais sensíveis, mas essa escolha parece consciente: Ao Meu Redor não quer ser confortável.

O maior mérito do livro está em sua coerência temática. O sobrenatural nunca surge como solução, apenas como ampliação da tragédia. Não há redenção fácil, nem punições simplistas. O horror verdadeiro não está apenas no mundo dos mortos, mas na soma de escolhas feitas em vida — e nas consequências que continuam ecoando depois dela.

Resenha – Os Quadros de Elisa usa o suspense para expor o que a sociedade ainda prefere não enxergar

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Os Quadros de Elisa é um daqueles livros que começam com a promessa de entretenimento, mas rapidamente deixam claro que não estão interessados apenas em distrair. Embora se apresente como um suspense investigativo, a obra aposta em algo mais incômodo: usar o mistério como espelho de um problema estrutural que segue sendo relativizado, ignorado ou mal interpretado — a violência contra a mulher.

O crime que atravessa a vida das irmãs Alice e Elisa funciona menos como um quebra-cabeça policial e mais como um ponto de ruptura. A partir dele, o livro constrói uma narrativa que questiona diretamente a forma como julgamos vítimas, suspeitos e histórias mal contadas. Não há conforto aqui. O leitor é constantemente empurrado para fora da posição passiva, sendo convidado a rever suas próprias certezas e desconfianças.

Elisa, como protagonista, carrega uma complexidade que fortalece a proposta do livro. Ela não é uma investigadora infalível nem uma vítima idealizada. Sua busca por respostas é atravessada por confusão emocional, culpa, medo e contradições — elementos que muitas narrativas insistem em apagar quando falam sobre violência. Essa escolha é acertada e politicamente relevante: o livro entende que a experiência feminina raramente é linear ou facilmente explicável.

Os personagens masculinos que orbitam a trama não existem apenas para preencher a lista de suspeitos. Um ex-namorado abusivo, um relacionamento recente, um homem em situação de rua e um assediador formam um conjunto de figuras que expõem diferentes faces de uma mesma estrutura de poder. O mérito do livro está em não transformar nenhum deles em vilão óbvio demais, mas também em não relativizar comportamentos abusivos. Essa ambiguidade gera desconforto — e esse desconforto é necessário.

Narrativamente, Os Quadros de Elisa provoca ao brincar com estereótipos. O leitor é levado a desconfiar de quem parece perigoso e a minimizar atitudes que socialmente costumam ser normalizadas. Quando essas expectativas são quebradas, o impacto não está apenas na surpresa do enredo, mas na constatação de como somos treinados a enxergar determinadas situações de forma enviesada. O suspense, aqui, funciona como armadilha ética.

O cenário turístico do Sudeste brasileiro é uma escolha particularmente eficaz. Ao deslocar a violência para espaços associados ao lazer, à beleza e à segurança, o livro desmonta a ideia de que esse tipo de crime está restrito a lugares marginalizados. A mensagem é clara: a violência não escolhe paisagem, classe social ou contexto idealizado. Ela acontece onde preferimos não olhar.

Do ponto de vista literário, a escrita é direta e funcional, sem excessos estilísticos. Em alguns momentos, a narrativa poderia arriscar mais formalmente, aprofundando certas passagens emocionais, mas essa contenção também contribui para a fluidez e para o alcance do livro. A prioridade está menos na sofisticação da linguagem e mais na clareza da mensagem — uma escolha que faz sentido dentro da proposta.

O maior mérito de Os Quadros de Elisa está em sua recusa em ser apenas um suspense de consumo rápido. O livro incomoda porque não oferece respostas fáceis nem vilões confortáveis. Ele questiona, provoca e aponta para uma realidade que ainda encontra resistência em ser debatida com a seriedade necessária. Ao final, o mistério se resolve, mas o incômodo permanece — e essa é, sem dúvida, a sua maior vitória.

Resenha – Fernão e a Epopeia da Coluna dos Pretos transforma guerra em memória e espiritualidade em resistência

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Fernão e a Epopeia da Coluna dos Pretos não é um romance que busca agradar. Ele se impõe. Ao fundir ficção e acontecimentos históricos do século XIX no Cone Sul, a obra constrói uma narrativa que confronta o leitor com um passado marcado por violência, apagamento e luta constante por dignidade. Trata-se de uma história que entende a guerra não como espetáculo, mas como consequência direta de um sistema que se sustentou pela exclusão e pelo racismo estrutural.

A trama acompanha Fernão e Abubakar, líderes do quilombo da Taperinha, que assumem o comando da chamada Coluna dos Pretos em meio aos conflitos que atravessam o Brasil imperial e seus desdobramentos regionais. A marcha rumo à guerra não nasce do desejo de conquista, mas da impossibilidade de permanecer neutro. Desde o início, o livro deixa claro que a sobrevivência, para corpos negros naquele contexto, é sempre política.

Fernão surge como uma figura moldada pela guerra. Associado a Ogum, orixá do ferro e do combate, ele carrega uma liderança que não se confunde com heroísmo romântico. Seu papel é atravessado por responsabilidade coletiva, cansaço e consciência histórica. A força que o move não é a glória, mas a necessidade de proteger aquilo que ainda resiste. Em contraste, Abubakar, ligado a Oxóssi, opera em outra frequência: estratégia, observação e precisão. Seu arco sagrado funciona tanto como arma quanto como símbolo de equilíbrio, lembrando que resistir também exige cálculo e silêncio.

A presença da espiritualidade afro-brasileira é um dos elementos centrais da narrativa. Os orixás não aparecem como abstrações mitológicas, mas como referências vivas que orientam decisões, sustentam identidades e organizam o mundo simbólico dos personagens. A fé, aqui, não é escapismo; é estrutura. Ela sustenta a travessia física e emocional dos personagens diante de um cenário que constantemente ameaça desumanizá-los.

O romance acerta ao não romantizar o conflito. As batalhas são descritas com dureza, e o custo da guerra se impõe a cada avanço. Mortes, perdas e dilemas morais atravessam a narrativa, lembrando que resistir não elimina a dor — apenas a torna necessária. Os desaparecimentos, as derrotas e as cicatrizes funcionam como marcas permanentes, e não como obstáculos passageiros a serem superados.

As personagens femininas desempenham um papel decisivo na sustentação da história. Zabelê e Justina não ocupam espaços periféricos; elas garantem a continuidade da comunidade, preservam a fé e mantêm viva a memória coletiva enquanto os homens marcham. Sua resistência se manifesta no cuidado, na palavra e na permanência. O livro reconhece, com acerto, que a guerra não se vence apenas no confronto armado, mas também na capacidade de manter laços e identidade.

A escrita é direta, densa e consciente de seu peso histórico. Não há excesso de ornamentos nem tentativas de suavizar a violência do período retratado. O ritmo é deliberado, exigindo atenção do leitor, sobretudo nos momentos em que a narrativa se volta para os dilemas internos dos personagens. Essa escolha reforça o caráter reflexivo da obra, que prefere provocar a oferecer conforto.

Fernão e a Epopeia da Coluna dos Pretos se estabelece como um romance que reivindica espaço no debate sobre memória histórica e representação. Ao centrar a narrativa na resistência negra e integrar espiritualidade, política e identidade, o livro atua como gesto literário e político. Não busca respostas fáceis nem finais redentores. Seu maior mérito está em lembrar que a história não é neutra — e que narrá-la também é um ato de resistência.

Resenha – O Alquimista de Bastos é uma fantasia histórica inquietante

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O Alquimista de Bastos nasce de uma pergunta simples e irresistível: e se a alquimia tivesse dado certo? A partir dessa ideia, o livro constrói uma França alternativa do século XVIII que intriga desde o primeiro momento. Aqui, o paganismo deixa de ser perseguido e passa a ocupar o centro das políticas do Estado, enquanto a alquimia abandona o campo da crença para se firmar como ciência reconhecida. Esse cenário reinventado não serve apenas como pano de fundo, mas molda toda a narrativa, criando uma atmosfera densa, carregada de tensão política e dilemas morais constantes.

É nesse contexto que conhecemos Damian Willard, um britânico que chega a Paris fingindo ser apenas mais um estudante. Por trás da fachada acadêmica, porém, ele esconde sua verdadeira missão: investigar o desaparecimento de jovens ligados a um curso de esoterismo. Damian é um protagonista profundamente humano. Jornalista, racional e cético, ele se vê cercado por um universo onde fé, símbolos e poder se misturam de forma sedutora e perigosa. Esse conflito interno — entre aquilo em que acredita e aquilo que começa a presenciar — sustenta boa parte da força emocional da história.

Ainda assim, é impossível falar do livro sem destacar Simon Durant. Misterioso, magnético e inquietante, ele rouba a atenção sempre que surge. Simon não é apenas um mestre em alquimia; ele encarna a promessa do conhecimento absoluto, do poder que transcende limites humanos. Sua presença provoca fascínio e desconforto na mesma medida. A relação que se forma entre ele e Damian é construída com cuidado, explorando nuances psicológicas, jogos de influência e uma tensão constante que faz o leitor questionar intenções e verdades a todo momento.

O suspense da obra não depende de grandes reviravoltas ou choques repentinos. Ele cresce de forma silenciosa, quase sufocante. Os desaparecimentos funcionam mais como um alerta do que como o foco central da trama. O verdadeiro perigo está nas escolhas feitas ao longo do caminho, na facilidade com que convicções podem se quebrar e no preço cobrado por se aproximar demais de conhecimentos que talvez nunca devessem ser alcançados. Aqui, a alquimia deixa de ser apenas a busca pelo ouro e se transforma em metáfora para mudança, corrupção e perda de si mesmo.

A escrita acompanha esse tom com elegância e cuidado. As descrições da Paris alquímica, do ambiente universitário e dos rituais são ricas e imersivas, convidando o leitor a caminhar por esse mundo com atenção. O ritmo é mais contemplativo, o que favorece a atmosfera, mas exige entrega. O Alquimista de Bastos não é um livro para ser devorado com pressa, e sim absorvido aos poucos, como um experimento perigoso que precisa ser observado com cautela.

Resenha – O Livro dos Portais é uma fantasia que transforma escolhas em risco

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Há livros que entretêm, livros que impressionam e aqueles raros que fazem o leitor desacelerar para absorver cada detalhe, com medo de perder algo importante. O Livro dos Portais se encaixa nesse último grupo. Não é apenas uma história sobre magia ou viagens instantâneas — é um convite para refletir sobre desejo, poder e as consequências de atravessar limites que parecem simples demais para serem verdadeiros.

A narrativa começa de maneira quase silenciosa, ancorada em uma rotina comum. Cassie Andrews não é uma protagonista épica à primeira vista. Ela trabalha em uma livraria em Nova York, divide o apartamento com a melhor amiga e leva uma vida que poderia ser a de qualquer leitor apaixonado por livros. Essa escolha é inteligente: quanto mais comum Cassie parece, mais fácil é se identificar com ela. Quando o elemento fantástico surge, ele não explode; ele sussurra. E isso torna tudo ainda mais inquietante.

O famoso Livro dos Portais entra em cena de forma delicada, quase casual, mas carrega um peso simbólico enorme. A ideia de que “qualquer porta pode ser todas as portas” é poética, sedutora e perigosa. O autor entende muito bem o apelo dessa premissa: quem nunca quis escapar instantaneamente, mudar de lugar, recomeçar em outro cenário? A magia aqui não é apenas visual; ela conversa diretamente com desejos muito humanos.

O grande mérito do livro está na construção do seu universo. Em vez de explicar tudo de uma vez, a história revela seus segredos aos poucos, como se o leitor também estivesse sendo testado. Descobrir que existem outros livros mágicos — cada um com uma função específica — amplia o horizonte da narrativa e adiciona camadas de mistério. A Biblioteca Fox, guardiã desses volumes raríssimos, funciona quase como uma entidade moral, levantando a pergunta central da obra: quem deveria ter acesso ao poder?

Os personagens secundários ajudam a sustentar essa complexidade. Izzy não é apenas a “melhor amiga da protagonista”; ela representa o vínculo com a realidade, o afeto e a normalidade que Cassie corre o risco de perder. Já os antagonistas são um dos pontos mais fortes da trama. “A mulher” é uma presença perturbadora, construída muito mais pela tensão psicológica do que por ações explícitas. Sua frieza e obsessão pelos livros criam um desconforto constante. O Caçador de Livros, por sua vez, é quase um símbolo da inevitabilidade: uma força que sempre encontra aquilo que procura.

Outro aspecto que chama atenção é o ritmo da narrativa. O Livro dos Portais sabe quando acelerar e quando parar. Há cenas de suspense que prendem a respiração, mas também momentos de introspecção que permitem ao leitor refletir junto com Cassie. O livro não tem pressa em ser apenas um espetáculo; ele quer ser sentido. Isso pode não agradar quem busca ação ininterrupta, mas certamente recompensa quem aprecia histórias que respiram.

Em termos de escrita, o tom é acessível, envolvente e visual. É fácil imaginar os cenários, sentir a tensão ao atravessar uma porta desconhecida ou o peso emocional de cada escolha. A fantasia nunca se sobrepõe totalmente à humanidade dos personagens, e esse equilíbrio é o que torna a leitura tão cativante.

No fundo, O Livro dos Portais fala sobre limites. Sobre o que estamos dispostos a fazer para alcançar nossos desejos. Sobre como o poder, quando parece simples demais, costuma cobrar um preço alto. A magia não é apresentada como um presente gratuito, mas como uma responsabilidade que exige maturidade e sacrifício.

Ao terminar a leitura, fica aquela sensação incômoda e deliciosa de que algo permaneceu com você. O tipo de livro que faz o leitor olhar para uma porta comum e imaginar possibilidades, mas também refletir se realmente teria coragem de atravessá-la. O Livro dos Portais não promete respostas fáceis — e talvez seja exatamente isso que o torna tão memorável.

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