Saiba qual filme vai passar no Cine Aventura deste sábado, 7 de fevereiro, na Record TV

No Cine Aventura deste sábado, 7 de fevereiro de 2026, a Record TV exibe o suspense psicológico Até o Limite, um filme que prende o espectador desde os primeiros minutos e transforma um simples turno de rádio em uma noite de terror, culpa e jogos mentais. Estrelado por Mel Gibson, o longa aposta em tensão constante, reviravoltas inesperadas e personagens cheios de falhas, aproximando o público de uma história que vai muito além de um thriller comum. O filme também está disponível no streaming pelo Prime Video.

A trama gira em torno de Elvis Cooney, um radialista conhecido em Los Angeles por seu estilo provocador, suas piadas ácidas e uma postura que frequentemente ultrapassa limites. Dono de um programa noturno de grande audiência, Elvis decide aceitar um novo desafio profissional ao assumir o horário da meia-noite na rádio KLAT. A mudança, porém, cobra um preço alto. Para seguir focado na carreira, ele se afasta da esposa Olivia e da filha Adria, mergulhando em uma rotina solitária, alimentada pelo ego e pela sensação de poder que o microfone lhe proporciona.

No estúdio, Elvis trabalha ao lado de Mary, a telefonista que filtra as ligações dos ouvintes e mantém o programa funcionando nos bastidores. Logo no início do turno, ele conhece Dylan, um jovem estagiário em seu primeiro dia de trabalho. Fiel ao seu jeito debochado, Elvis decide recepcionar o novato com uma pegadinha, algo que parece inofensivo, mas já indica o tipo de personalidade que domina o ambiente da rádio.

A noite segue aparentemente normal até que Elvis recebe uma ligação que muda tudo. Do outro lado da linha está um homem que se apresenta como Gary. No começo, a conversa soa como mais uma participação excêntrica de um ouvinte noturno. Em poucos segundos, porém, o clima se transforma quando Gary afirma estar dentro da casa de Elvis, mantendo Olivia e Adria como reféns. A ameaça é direta e aterradora. Se Elvis desligar o telefone ou tentar interromper a transmissão, sua família será morta.

Desesperado, Elvis tenta manter a calma enquanto Gary revela o verdadeiro motivo do ataque. Ele afirma que o radialista foi responsável pela morte de Lauren, uma antiga telefonista da rádio que teria tirado a própria vida após ser constantemente humilhada pelas piadas e comentários ofensivos de Elvis. A partir desse ponto, o filme abandona qualquer sensação de conforto e mergulha em um jogo psicológico cruel, onde cada palavra dita ao vivo pode custar uma vida.

Gary passa a controlar o programa e obriga Elvis a se expor publicamente. Em um dos momentos mais constrangedores, ele força o apresentador a admitir no ar que teve um relacionamento com Mary. Em seguida, ordena que Elvis suba até o telhado do prédio e pule. Sem opções, ele obedece, acompanhado por Dylan, Mary e Steven, outro funcionário da emissora. Em uma tentativa de ganhar tempo, Dylan tenta enganar Gary, fingindo que Elvis realmente saltou do prédio. O plano falha quando um drone revela que tudo está sendo monitorado.

Pouco depois, Elvis ouve disparos pelo telefone e acredita que sua esposa e filha foram assassinadas. O choque é devastador. No entanto, ao sair do estúdio, ele escuta a voz de Gary ecoando pelos alto-falantes do prédio. O sequestrador revela que nunca esteve na casa de Elvis. Olivia e Adria ainda estão vivas e escondidas em algum ponto do próprio edifício da rádio. Gary usou o tempo para matar o segurança da entrada, se esconder no prédio e preparar uma explosão. Agora, Elvis tem apenas 40 minutos para encontrá-lo.

O filme ganha ritmo acelerado quando Elvis e Dylan percorrem corredores escuros, salas técnicas e passagens escondidas do prédio. No meio da busca, eles encontram Tony, um velho amigo de Elvis que vinha roubando computadores do local sem que ninguém percebesse. Gary exige que Elvis o mate como prova de obediência. Pela primeira vez, o radialista se recusa a seguir as ordens, deixando Tony escapar. O gesto marca uma virada emocional no personagem, que começa a questionar o tipo de pessoa que se tornou.

Em outro momento tenso, Gary leva Elvis e Dylan a um esconderijo falso e revela que está observando tudo pelas câmeras de segurança. Quando conseguem chegar à sala de controle, eles encontram o corpo de Justin, um apresentador rival que sonhava em ocupar o horário de Elvis. Logo depois, Gary anuncia que agora está no estúdio, mantendo Mary e Steven como reféns.

O clima se torna ainda mais pesado quando Elvis descobre que Olivia e Adria estão no terraço usando coletes explosivos. A polícia entra em cena com Bruce, um agente da SWAT, mas nem mesmo isso impede Gary de continuar controlando a situação. Ele exige uma troca. As duas são libertadas, mas Dylan deve ocupar o lugar delas. Sem alternativas, Elvis aceita. Quando tudo parece perdido, Gary atira em Bruce e aciona o detonador, sem que nada aconteça.

É nesse ponto que o filme surpreende. Elvis e Gary começam a rir e se abraçam, enquanto pessoas que todos acreditavam estar mortas reaparecem ilesas. A revelação é chocante. Tudo não passou de uma gigantesca pegadinha armada por toda a equipe da rádio para assustar Dylan. O problema é que a brincadeira saiu completamente do controle. Em choque, o estagiário deixa o estúdio e acaba caindo de uma escada, aparentemente morrendo no impacto.

Na manhã seguinte, Elvis, destruído emocionalmente, decide abandonar o rádio. Porém, o desfecho guarda mais uma reviravolta. Dylan reaparece vivo. Seu verdadeiro nome é Max, e ele é um dublê contratado para fingir a própria morte como parte de uma última pegadinha, dessa vez organizada para comemorar o aniversário de Elvis, que ele acreditava ter sido esquecido por todos. A ironia é amarga. Depois de tantas manipulações, o único realmente abalado é o próprio radialista.

Lançado nos Estados Unidos em novembro de 2022, após a Saban Films adquirir seus direitos de distribuição, Até o Limite foi filmado em Paris em 2021 e conta ainda com Kevin Dillon, William Moseley, Enrique Arce, Nadia Farès, Alia Seror O’Neill, Paul Spera e Nancy Tate no elenco. Mais do que um suspense eletrizante, o filme provoca reflexões sobre limites, responsabilidade e até onde o entretenimento pode ir antes de se tornar cruel. Uma escolha certeira para quem gosta de histórias intensas e cheias de surpresas.

Resenha – Asterix Omnibus (Volume 2) é a prova de que o humor também pode ser um ato de resistência

Asterix Omnibus (Vol. 2) é, ao mesmo tempo, um lembrete do enorme talento criativo de René Goscinny e Albert Uderzo e uma prova de como um clássico pode sobreviver — e ser questionado — fora do seu tempo original. A coletânea reúne três aventuras fundamentais (Asterix Gladiador, Uma Volta pela Gália com Asterix e Asterix e Cleópatra), mas o que realmente sustenta o volume não é apenas o humor, e sim a inteligência política por trás de cada piada.

Por trás do tom leve e do traço cartunesco, Asterix sempre foi um comentário ácido sobre poder, imperialismo e resistência cultural. Aqui, isso fica ainda mais evidente. Os romanos não são apenas vilões caricatos; representam sistemas burocráticos, autoritários e absurdamente confiantes na própria superioridade. A aldeia gaulesa, por sua vez, funciona como metáfora da identidade que se recusa a ser apagada — nem pela força, nem pela “civilização” imposta.

Em Asterix Gladiador, o espetáculo da violência romana é tratado com humor, mas também com crítica clara: transformar sofrimento em entretenimento é uma prática antiga — e assustadoramente atual. A forma como Asterix e Obelix subvertem o sistema dos gladiadores expõe o ridículo de uma estrutura que só funciona enquanto ninguém questiona suas regras. O riso aqui não é inocente; é corrosivo.

Uma Volta pela Gália com Asterix talvez seja a história mais politicamente afiada do volume. A tentativa romana de isolar a aldeia com uma paliçada é uma imagem poderosa de controle territorial e cerceamento cultural. A resposta dos gauleses — atravessar o país celebrando comidas, sotaques e costumes — transforma a gastronomia em ato de resistência. É uma aventura simples na forma, mas sofisticada no discurso, exaltando a diversidade como antídoto contra a homogeneização forçada.

Já Asterix e Cleópatra brinca com vaidade, poder e ego nacional, usando o Egito como palco para uma sátira sobre líderes que confundem grandeza pessoal com grandeza histórica. Apesar do tom cômico, há aqui uma crítica direta à obsessão por monumentos, fama e legado, enquanto pessoas comuns lidam com as consequências dessas ambições.

Ainda assim, vale dizer: nem tudo envelheceu perfeitamente. Algumas piadas visuais e estereótipos refletem o contexto da época e podem soar datados para leitores mais atentos hoje. Isso não invalida a obra, mas convida à leitura crítica — algo que, ironicamente, combina muito com o espírito questionador da própria série.

No fim, Asterix Omnibus (Vol. 2) funciona menos como simples entretenimento infantil e mais como uma aula disfarçada de quadrinhos. Um clássico que diverte, sim, mas que também provoca, ironiza o poder e lembra que rir pode ser um ato profundamente político.

Resenha – Meninos Morrem de Medo expõe o fracasso social em lidar com a diferença

Meninos Morrem de Medo: Contos de Flamígera é um livro que se constrói a partir da delicadeza, mas não se esconde atrás dela. Ao reunir histórias centradas em personagens que a sociedade insiste em marginalizar — pessoas autistas, indivíduos com síndrome de Down e sujeitos profundamente sensíveis — a obra assume uma postura crítica clara: a exclusão não é exceção, é regra. E o medo, longe de ser apenas sentimento individual, é produto de um sistema que pune quem foge da norma.

O tom aparentemente nostálgico que atravessa os contos — cartas perfumadas, códigos de cortesia, encontros mais lentos — funciona menos como saudade de um tempo idealizado e mais como recurso de contraste. Ao evocar um passado em que os gestos carregavam significado, o livro evidencia o empobrecimento das relações contemporâneas, marcadas por pressa, superficialidade e intolerância. Essa escolha narrativa revela um olhar crítico sobre o presente, ainda que sem recorrer ao discurso explícito.

O verdadeiro centro da obra está em seus personagens. Eles não aparecem para cumprir funções simbólicas nem para despertar piedade. Ao contrário, são construídos com complexidade e humanidade, expondo desejos, frustrações e contradições. O livro acerta ao recusar tanto a romantização da diferença quanto a sua exploração como instrumento moralizante. Aqui, o desconforto nasce justamente da normalidade dessas vidas — e da forma como são constantemente violentadas por olhares e expectativas alheias.

A violência retratada nos contos raramente é física. Ela se manifesta de maneira mais sutil e persistente: no silenciamento, no constrangimento, na tentativa constante de corrigir comportamentos considerados inadequados. Meninos Morrem de Medo é incisivo ao mostrar como a violência psicológica é naturalizada e, muitas vezes, invisível. O livro não oferece redenção fácil nem soluções narrativas confortáveis; ele expõe feridas e as deixa abertas.

O título da obra é revelador. O medo que atravessa os personagens não é covardia, mas resultado de um aprendizado social cruel. Aprender a temer o afeto, a exposição e o julgamento é uma forma de sobrevivência em um mundo que exige desempenho e normalização constantes. Nesse sentido, o livro também faz uma crítica direta às construções de masculinidade e à repressão emocional imposta desde a infância.

Do ponto de vista literário, a escrita é contida e consciente. Não há excessos nem ornamentalização do sofrimento. A escolha por uma linguagem limpa e econômica reforça a força do que é dito, evitando qualquer tentativa de espetacularizar a dor. Em alguns momentos, essa contenção pode soar fria, mas é justamente ela que impede o livro de escorregar para o sentimentalismo fácil.

Meninos Morrem de Medo: Contos de Flamígera não é uma leitura confortável, ainda que seja delicada. Sua crítica é silenciosa, mas persistente. Ao colocar no centro da narrativa personagens que costumam ser empurrados para as margens, o livro obriga o leitor a confrontar seus próprios preconceitos e limites de empatia.

Resenha – Ao Meu Redor transforma o sobrenatural em espelho da culpa humana

Em Ao Meu Redor, André Vianco retorna ao horror com uma proposta clara: usar o sobrenatural não como espetáculo, mas como consequência direta de escolhas morais extremas. O livro parte de uma pergunta provocadora — até onde alguém iria para escapar do próprio inferno? — e responde de forma cruel: sempre existe algo pior à espera.

A protagonista, Teodora, é uma policial corrupta que já surge no limite da queda. Não há tentativa de torná-la simpática ou justificável, e esse é um dos acertos do romance. Sua relação com Raoni, chefe do tráfico, é baseada em conveniência e violência, e a traição que sofre apenas acelera um colapso que já estava em curso. Quando Teodora mata Raoni e inicia uma corrida desesperada atrás do dinheiro do crime, a narrativa assume um ritmo sufocante, marcado por paranoia, culpa e impulsos destrutivos.

O ponto de virada da história acontece com a entrada de Jéssica, a irmã afastada, uma cientista brilhante e emocionalmente instável. A criação da Iboga-7 — uma droga capaz de abrir um canal entre vivos e mortos — desloca o livro do thriller criminal para o horror metafísico. Vianco acerta ao tratar essa transição não como ruptura, mas como aprofundamento: o sobrenatural surge como extensão do caos psicológico e moral das personagens.

A relação entre as duas irmãs é um dos pilares mais interessantes da narrativa. Não há afeto idealizado, apenas ressentimento, dependência e feridas antigas nunca cicatrizadas. O terror que se desenrola no “outro lado” é constantemente atravessado por traumas familiares, tornando difícil separar o que é manifestação do além e o que é projeção da culpa. Ao Meu Redor deixa claro que atravessar mundos não significa escapar de si mesmo.

O horror aqui não se constrói apenas com monstros ou visões perturbadoras, mas com a sensação constante de aprisionamento. O além apresentado por Vianco é hostil, opressor e profundamente psicológico. A experiência é menos sobre o medo do desconhecido e mais sobre o reconhecimento de que certas condenações são autoimpostas. Nesse sentido, o livro se aproxima mais do horror existencial do que do terror clássico.

Narrativamente, Vianco aposta em uma escrita direta, agressiva e sem concessões. O ritmo é intenso, por vezes quase exaustivo, o que reforça a sensação de desespero que acompanha as protagonistas. Em alguns momentos, o excesso de brutalidade pode afastar leitores mais sensíveis, mas essa escolha parece consciente: Ao Meu Redor não quer ser confortável.

O maior mérito do livro está em sua coerência temática. O sobrenatural nunca surge como solução, apenas como ampliação da tragédia. Não há redenção fácil, nem punições simplistas. O horror verdadeiro não está apenas no mundo dos mortos, mas na soma de escolhas feitas em vida — e nas consequências que continuam ecoando depois dela.

Resenha – Os Quadros de Elisa usa o suspense para expor o que a sociedade ainda prefere não enxergar

Os Quadros de Elisa é um daqueles livros que começam com a promessa de entretenimento, mas rapidamente deixam claro que não estão interessados apenas em distrair. Embora se apresente como um suspense investigativo, a obra aposta em algo mais incômodo: usar o mistério como espelho de um problema estrutural que segue sendo relativizado, ignorado ou mal interpretado — a violência contra a mulher.

O crime que atravessa a vida das irmãs Alice e Elisa funciona menos como um quebra-cabeça policial e mais como um ponto de ruptura. A partir dele, o livro constrói uma narrativa que questiona diretamente a forma como julgamos vítimas, suspeitos e histórias mal contadas. Não há conforto aqui. O leitor é constantemente empurrado para fora da posição passiva, sendo convidado a rever suas próprias certezas e desconfianças.

Elisa, como protagonista, carrega uma complexidade que fortalece a proposta do livro. Ela não é uma investigadora infalível nem uma vítima idealizada. Sua busca por respostas é atravessada por confusão emocional, culpa, medo e contradições — elementos que muitas narrativas insistem em apagar quando falam sobre violência. Essa escolha é acertada e politicamente relevante: o livro entende que a experiência feminina raramente é linear ou facilmente explicável.

Os personagens masculinos que orbitam a trama não existem apenas para preencher a lista de suspeitos. Um ex-namorado abusivo, um relacionamento recente, um homem em situação de rua e um assediador formam um conjunto de figuras que expõem diferentes faces de uma mesma estrutura de poder. O mérito do livro está em não transformar nenhum deles em vilão óbvio demais, mas também em não relativizar comportamentos abusivos. Essa ambiguidade gera desconforto — e esse desconforto é necessário.

Narrativamente, Os Quadros de Elisa provoca ao brincar com estereótipos. O leitor é levado a desconfiar de quem parece perigoso e a minimizar atitudes que socialmente costumam ser normalizadas. Quando essas expectativas são quebradas, o impacto não está apenas na surpresa do enredo, mas na constatação de como somos treinados a enxergar determinadas situações de forma enviesada. O suspense, aqui, funciona como armadilha ética.

O cenário turístico do Sudeste brasileiro é uma escolha particularmente eficaz. Ao deslocar a violência para espaços associados ao lazer, à beleza e à segurança, o livro desmonta a ideia de que esse tipo de crime está restrito a lugares marginalizados. A mensagem é clara: a violência não escolhe paisagem, classe social ou contexto idealizado. Ela acontece onde preferimos não olhar.

Do ponto de vista literário, a escrita é direta e funcional, sem excessos estilísticos. Em alguns momentos, a narrativa poderia arriscar mais formalmente, aprofundando certas passagens emocionais, mas essa contenção também contribui para a fluidez e para o alcance do livro. A prioridade está menos na sofisticação da linguagem e mais na clareza da mensagem — uma escolha que faz sentido dentro da proposta.

O maior mérito de Os Quadros de Elisa está em sua recusa em ser apenas um suspense de consumo rápido. O livro incomoda porque não oferece respostas fáceis nem vilões confortáveis. Ele questiona, provoca e aponta para uma realidade que ainda encontra resistência em ser debatida com a seriedade necessária. Ao final, o mistério se resolve, mas o incômodo permanece — e essa é, sem dúvida, a sua maior vitória.

Resenha – Fernão e a Epopeia da Coluna dos Pretos transforma guerra em memória e espiritualidade em resistência

Fernão e a Epopeia da Coluna dos Pretos não é um romance que busca agradar. Ele se impõe. Ao fundir ficção e acontecimentos históricos do século XIX no Cone Sul, a obra constrói uma narrativa que confronta o leitor com um passado marcado por violência, apagamento e luta constante por dignidade. Trata-se de uma história que entende a guerra não como espetáculo, mas como consequência direta de um sistema que se sustentou pela exclusão e pelo racismo estrutural.

A trama acompanha Fernão e Abubakar, líderes do quilombo da Taperinha, que assumem o comando da chamada Coluna dos Pretos em meio aos conflitos que atravessam o Brasil imperial e seus desdobramentos regionais. A marcha rumo à guerra não nasce do desejo de conquista, mas da impossibilidade de permanecer neutro. Desde o início, o livro deixa claro que a sobrevivência, para corpos negros naquele contexto, é sempre política.

Fernão surge como uma figura moldada pela guerra. Associado a Ogum, orixá do ferro e do combate, ele carrega uma liderança que não se confunde com heroísmo romântico. Seu papel é atravessado por responsabilidade coletiva, cansaço e consciência histórica. A força que o move não é a glória, mas a necessidade de proteger aquilo que ainda resiste. Em contraste, Abubakar, ligado a Oxóssi, opera em outra frequência: estratégia, observação e precisão. Seu arco sagrado funciona tanto como arma quanto como símbolo de equilíbrio, lembrando que resistir também exige cálculo e silêncio.

A presença da espiritualidade afro-brasileira é um dos elementos centrais da narrativa. Os orixás não aparecem como abstrações mitológicas, mas como referências vivas que orientam decisões, sustentam identidades e organizam o mundo simbólico dos personagens. A fé, aqui, não é escapismo; é estrutura. Ela sustenta a travessia física e emocional dos personagens diante de um cenário que constantemente ameaça desumanizá-los.

O romance acerta ao não romantizar o conflito. As batalhas são descritas com dureza, e o custo da guerra se impõe a cada avanço. Mortes, perdas e dilemas morais atravessam a narrativa, lembrando que resistir não elimina a dor — apenas a torna necessária. Os desaparecimentos, as derrotas e as cicatrizes funcionam como marcas permanentes, e não como obstáculos passageiros a serem superados.

As personagens femininas desempenham um papel decisivo na sustentação da história. Zabelê e Justina não ocupam espaços periféricos; elas garantem a continuidade da comunidade, preservam a fé e mantêm viva a memória coletiva enquanto os homens marcham. Sua resistência se manifesta no cuidado, na palavra e na permanência. O livro reconhece, com acerto, que a guerra não se vence apenas no confronto armado, mas também na capacidade de manter laços e identidade.

A escrita é direta, densa e consciente de seu peso histórico. Não há excesso de ornamentos nem tentativas de suavizar a violência do período retratado. O ritmo é deliberado, exigindo atenção do leitor, sobretudo nos momentos em que a narrativa se volta para os dilemas internos dos personagens. Essa escolha reforça o caráter reflexivo da obra, que prefere provocar a oferecer conforto.

Fernão e a Epopeia da Coluna dos Pretos se estabelece como um romance que reivindica espaço no debate sobre memória histórica e representação. Ao centrar a narrativa na resistência negra e integrar espiritualidade, política e identidade, o livro atua como gesto literário e político. Não busca respostas fáceis nem finais redentores. Seu maior mérito está em lembrar que a história não é neutra — e que narrá-la também é um ato de resistência.

Resenha – O Alquimista de Bastos é uma fantasia histórica inquietante

O Alquimista de Bastos nasce de uma pergunta simples e irresistível: e se a alquimia tivesse dado certo? A partir dessa ideia, o livro constrói uma França alternativa do século XVIII que intriga desde o primeiro momento. Aqui, o paganismo deixa de ser perseguido e passa a ocupar o centro das políticas do Estado, enquanto a alquimia abandona o campo da crença para se firmar como ciência reconhecida. Esse cenário reinventado não serve apenas como pano de fundo, mas molda toda a narrativa, criando uma atmosfera densa, carregada de tensão política e dilemas morais constantes.

É nesse contexto que conhecemos Damian Willard, um britânico que chega a Paris fingindo ser apenas mais um estudante. Por trás da fachada acadêmica, porém, ele esconde sua verdadeira missão: investigar o desaparecimento de jovens ligados a um curso de esoterismo. Damian é um protagonista profundamente humano. Jornalista, racional e cético, ele se vê cercado por um universo onde fé, símbolos e poder se misturam de forma sedutora e perigosa. Esse conflito interno — entre aquilo em que acredita e aquilo que começa a presenciar — sustenta boa parte da força emocional da história.

Ainda assim, é impossível falar do livro sem destacar Simon Durant. Misterioso, magnético e inquietante, ele rouba a atenção sempre que surge. Simon não é apenas um mestre em alquimia; ele encarna a promessa do conhecimento absoluto, do poder que transcende limites humanos. Sua presença provoca fascínio e desconforto na mesma medida. A relação que se forma entre ele e Damian é construída com cuidado, explorando nuances psicológicas, jogos de influência e uma tensão constante que faz o leitor questionar intenções e verdades a todo momento.

O suspense da obra não depende de grandes reviravoltas ou choques repentinos. Ele cresce de forma silenciosa, quase sufocante. Os desaparecimentos funcionam mais como um alerta do que como o foco central da trama. O verdadeiro perigo está nas escolhas feitas ao longo do caminho, na facilidade com que convicções podem se quebrar e no preço cobrado por se aproximar demais de conhecimentos que talvez nunca devessem ser alcançados. Aqui, a alquimia deixa de ser apenas a busca pelo ouro e se transforma em metáfora para mudança, corrupção e perda de si mesmo.

A escrita acompanha esse tom com elegância e cuidado. As descrições da Paris alquímica, do ambiente universitário e dos rituais são ricas e imersivas, convidando o leitor a caminhar por esse mundo com atenção. O ritmo é mais contemplativo, o que favorece a atmosfera, mas exige entrega. O Alquimista de Bastos não é um livro para ser devorado com pressa, e sim absorvido aos poucos, como um experimento perigoso que precisa ser observado com cautela.

Resenha – O Livro dos Portais é uma fantasia que transforma escolhas em risco

Há livros que entretêm, livros que impressionam e aqueles raros que fazem o leitor desacelerar para absorver cada detalhe, com medo de perder algo importante. O Livro dos Portais se encaixa nesse último grupo. Não é apenas uma história sobre magia ou viagens instantâneas — é um convite para refletir sobre desejo, poder e as consequências de atravessar limites que parecem simples demais para serem verdadeiros.

A narrativa começa de maneira quase silenciosa, ancorada em uma rotina comum. Cassie Andrews não é uma protagonista épica à primeira vista. Ela trabalha em uma livraria em Nova York, divide o apartamento com a melhor amiga e leva uma vida que poderia ser a de qualquer leitor apaixonado por livros. Essa escolha é inteligente: quanto mais comum Cassie parece, mais fácil é se identificar com ela. Quando o elemento fantástico surge, ele não explode; ele sussurra. E isso torna tudo ainda mais inquietante.

O famoso Livro dos Portais entra em cena de forma delicada, quase casual, mas carrega um peso simbólico enorme. A ideia de que “qualquer porta pode ser todas as portas” é poética, sedutora e perigosa. O autor entende muito bem o apelo dessa premissa: quem nunca quis escapar instantaneamente, mudar de lugar, recomeçar em outro cenário? A magia aqui não é apenas visual; ela conversa diretamente com desejos muito humanos.

O grande mérito do livro está na construção do seu universo. Em vez de explicar tudo de uma vez, a história revela seus segredos aos poucos, como se o leitor também estivesse sendo testado. Descobrir que existem outros livros mágicos — cada um com uma função específica — amplia o horizonte da narrativa e adiciona camadas de mistério. A Biblioteca Fox, guardiã desses volumes raríssimos, funciona quase como uma entidade moral, levantando a pergunta central da obra: quem deveria ter acesso ao poder?

Os personagens secundários ajudam a sustentar essa complexidade. Izzy não é apenas a “melhor amiga da protagonista”; ela representa o vínculo com a realidade, o afeto e a normalidade que Cassie corre o risco de perder. Já os antagonistas são um dos pontos mais fortes da trama. “A mulher” é uma presença perturbadora, construída muito mais pela tensão psicológica do que por ações explícitas. Sua frieza e obsessão pelos livros criam um desconforto constante. O Caçador de Livros, por sua vez, é quase um símbolo da inevitabilidade: uma força que sempre encontra aquilo que procura.

Outro aspecto que chama atenção é o ritmo da narrativa. O Livro dos Portais sabe quando acelerar e quando parar. Há cenas de suspense que prendem a respiração, mas também momentos de introspecção que permitem ao leitor refletir junto com Cassie. O livro não tem pressa em ser apenas um espetáculo; ele quer ser sentido. Isso pode não agradar quem busca ação ininterrupta, mas certamente recompensa quem aprecia histórias que respiram.

Em termos de escrita, o tom é acessível, envolvente e visual. É fácil imaginar os cenários, sentir a tensão ao atravessar uma porta desconhecida ou o peso emocional de cada escolha. A fantasia nunca se sobrepõe totalmente à humanidade dos personagens, e esse equilíbrio é o que torna a leitura tão cativante.

No fundo, O Livro dos Portais fala sobre limites. Sobre o que estamos dispostos a fazer para alcançar nossos desejos. Sobre como o poder, quando parece simples demais, costuma cobrar um preço alto. A magia não é apresentada como um presente gratuito, mas como uma responsabilidade que exige maturidade e sacrifício.

Ao terminar a leitura, fica aquela sensação incômoda e deliciosa de que algo permaneceu com você. O tipo de livro que faz o leitor olhar para uma porta comum e imaginar possibilidades, mas também refletir se realmente teria coragem de atravessá-la. O Livro dos Portais não promete respostas fáceis — e talvez seja exatamente isso que o torna tão memorável.

Universal Studios Hollywood confirma nova montanha-russa de Velozes e Furiosos e promete uma das experiências mais radicais do parque

O Universal Studios Hollywood acaba de oficializar uma novidade que já vinha sendo aguardada com ansiedade por fãs de parques temáticos e da cultura pop. A montanha-russa “Fast & Furious: Hollywood Drift” será inaugurada no verão norte-americano e promete elevar o nível de adrenalina do parque com uma experiência inédita, ao ar livre e em alta velocidade. Trata-se da primeira montanha-russa externa desse tipo no complexo e também de um dos projetos mais ambiciosos já anunciados pela Universal na Califórnia.

O anúncio veio acompanhado de uma grande campanha de mídia, pensada para alcançar públicos de diferentes perfis. Um vídeo promocional de 30 segundos, narrado por Vin Diesel, produtor e principal estrela da franquia Velozes e Furiosos, marca o tom da atração. A escolha do ator reforça a ligação direta entre o parque e o universo cinematográfico da saga, além de ativar o lado emocional dos fãs que acompanham a série há mais de duas décadas. O comercial está programado para ir ao ar durante transmissões de eventos esportivos de grande audiência, como as Olimpíadas de Inverno, o Super Bowl LX e o NBA All-Star Game, todos exibidos pela NBC e pela plataforma Peacock.

O material promocional já dá uma amostra do que o público pode esperar. A proposta da nova montanha-russa é transportar os visitantes para dentro da ação típica de Velozes e Furiosos, explorando velocidade, derrapagens e movimentos inspirados em corridas ilegais e perseguições cinematográficas. O objetivo é criar uma sensação de imersão total, como se o visitante estivesse dentro de um dos carros da franquia, vivendo uma sequência de ação em tempo real.

“Fast & Furious: Hollywood Drift” será instalada no lote superior do Universal Studios Hollywood, dentro de uma grande estrutura de tijolos vermelhos que remete visualmente a uma garagem. A ambientação faz parte da experiência e dialoga diretamente com o universo urbano da saga. O grande diferencial da atração está na tecnologia de rotação de 360 graus, desenvolvida para simular a sensação de carros deslizando e fazendo curvas extremas. Durante o percurso, os visitantes atingirão velocidades de até 116 km/h, enquanto percorrem aproximadamente 1.250 metros de trilhos aéreos, o equivalente a quase 12 campos de futebol.

O trajeto da montanha-russa foi projetado para atravessar áreas estratégicas do parque, criando um espetáculo visual tanto para quem está a bordo quanto para quem observa do chão. Um dos momentos mais marcantes será a passagem pela famosa escada rolante Starway, que conecta os lotes superior e inferior do parque, reforçando a escala grandiosa da atração e integrando a nova montanha-russa à paisagem já conhecida do Universal Studios Hollywood.

O lançamento da atração acontece em um momento simbólico para a franquia Velozes e Furiosos. A inauguração coincide com as comemorações de 25 anos da saga nos cinemas e antecede o lançamento de “Velozes e Furiosos: Para Sempre”, previsto para chegar às telas em março de 2028. Dessa forma, a montanha-russa funciona não apenas como uma nova opção de entretenimento, mas também como uma celebração do legado da franquia e de sua importância para a Universal Pictures.

A Universal Destinations & Experiences aposta na experiência acumulada ao longo de décadas para entregar uma atração que vá além do impacto visual. A empresa tem histórico de inovação no desenvolvimento de montanhas-russas e atrações imersivas em seus parques ao redor do mundo, e “Hollywood Drift” surge como mais um passo nessa trajetória de reinvenção. A promessa é unir tecnologia de ponta, narrativa cinematográfica e engenharia de alta performance em uma experiência única.

Com a chegada da nova montanha-russa, o Universal Studios Hollywood reforça seu portfólio de atrações de peso. O parque já abriga áreas altamente imersivas e populares, como a SUPER NINTENDO WORLD, que conta com a premiada atração Mario Kart: Bowser’s Challenge; The Wizarding World of Harry Potter, com a vila de Hogsmeade e atrações consagradas; Jurassic World The Ride; atrações da Illumination como The Secret Life of Pets: Off the Leash e Despicable Me Minion Mayhem; além de Springfield, U.S.A., Transformers: The Ride 3D, Revenge of the Mummy e o clássico Studio Tour, um dos ícones do parque.

A escolha de Velozes e Furiosos como tema para essa nova atração reforça a força da franquia dentro do portfólio da Universal. Ao longo de onze filmes, a saga arrecadou mais de 7 bilhões de dólares nas bilheterias mundiais e se consolidou como a franquia mais lucrativa e duradoura do estúdio. Além do sucesso nos cinemas, Velozes e Furiosos expandiu seu alcance para brinquedos, videogames, séries animadas e produções derivadas, como o spin-off Hobbs & Shaw. O impacto nas redes sociais também é expressivo, com uma base de fãs engajada que acompanha de perto cada novo anúncio.

“O Agente Secreto” ultrapassa 2 milhões de espectadores e se transforma em um acontecimento cultural no Brasil

Chegar a 2 milhões de espectadores nos cinemas brasileiros já é, por si só, um feito raro para qualquer produção nacional. Fazer isso na 14ª semana em cartaz torna a conquista ainda mais impressionante. Com 2.011.329 ingressos vendidos, O Agente Secreto confirma que sua trajetória nas salas de cinema foge completamente do padrão. Em vez de perder força com o passar das semanas, o filme de Kleber Mendonça Filho ganhou novo fôlego, ampliou seu público e se consolidou como um dos maiores sucessos recentes do cinema brasileiro.

Esse crescimento gradual diz muito sobre a relação que o público estabeleceu com o longa. Desde a estreia, o filme foi sendo descoberto aos poucos, impulsionado pelo boca a boca, pela repercussão nas redes sociais e, principalmente, pelo reconhecimento internacional. As conquistas no Globo de Ouro, onde venceu como Melhor Filme Internacional e garantiu o prêmio de Melhor Ator em Filme de Drama para Wagner Moura, marcaram um momento decisivo. A partir dali, O Agente Secreto passou a ser visto não apenas como um filme elogiado pela crítica, mas como uma obra que representava o Brasil em um dos palcos mais importantes do audiovisual mundial.

As indicações ao Oscar reforçaram ainda mais esse sentimento coletivo. Com quatro nomeações, incluindo Melhor Filme, Melhor Elenco, Melhor Ator e Melhor Filme Internacional, o longa despertou no público brasileiro algo que vai além da curiosidade. Houve uma clara sensação de torcida. Assistir ao filme virou também uma forma de participar dessa caminhada, de apoiar uma história brasileira que dialoga com o mundo sem abrir mão de suas raízes. Para muitos espectadores, ir ao cinema ver O Agente Secreto foi um gesto de identificação e orgulho.

Silvia Cruz, diretora da Vitrine Filmes, distribuidora responsável pelo lançamento no Brasil, resume bem o impacto desse resultado. Segundo ela, alcançar 2 milhões de espectadores reafirma a força do cinema nacional e mostra que o público continua interessado em histórias autorais, densas e potentes. A fala ecoa um desejo antigo do setor audiovisual, o de provar que filmes brasileiros podem, sim, conquistar grandes plateias quando encontram espaço, visibilidade e diálogo com o público.

E a jornada de O Agente Secreto nas bilheterias brasileiras ainda pode ganhar um novo impulso. Entre os dias 5 e 11 de fevereiro, a Semana do Cinema oferece ingressos a R$ 10 em todo o país, criando uma oportunidade para que novos públicos descubram o filme na tela grande. A campanha tem contado com o apoio de artistas e personalidades brasileiras, que vêm usando suas redes sociais para incentivar o público a aproveitar o período promocional. Esse movimento coletivo reforça a ideia de que o filme ultrapassou a condição de simples lançamento e se transformou em um verdadeiro evento cultural.

No exterior, o reconhecimento segue firme. Recentemente, o longa-metragem garantiu uma indicação ao César 2026, principal premiação do cinema francês, na categoria de Melhor Filme Estrangeiro. A presença da MK2 Films entre as coprodutoras ajudou a abrir portas importantes no mercado europeu. Na França, o longa já levou mais de 400 mil espectadores aos cinemas desde sua estreia, em dezembro de 2025, um número expressivo para uma produção falada em português. Os vencedores do César serão anunciados no dia 26 de fevereiro, data aguardada com expectativa por toda a equipe do filme.

Somadas às indicações ao César, às quatro nomeações ao Oscar e às duas indicações ao BAFTA, nas categorias Melhor Filme em Língua Não Inglesa e Melhor Roteiro Original, o longa reafirma o potencial do audiovisual brasileiro em escala global. Esse reconhecimento internacional caminha lado a lado com a consagração no Brasil. O filme venceu três prêmios da Associação Paulista de Críticos de Arte, incluindo Melhor Filme de Ficção e Melhor Ator para Wagner Moura, além de receber um Prêmio Especial do Júri para Tânia Maria. Mais recentemente, foi eleito Melhor Longa-Metragem Brasileiro pela Abraccine. Ao todo, a produção já acumula 56 prêmios ao redor do mundo.

Ambientado em 1977, durante a ditadura militar brasileira, o filme acompanha Armando Solimões, um ex-professor viúvo que chega a Recife durante o Carnaval para visitar o filho Fernando, que vive com os avós maternos. A cidade, vibrante e contraditória, serve de cenário para uma trama marcada por tensão política, corrupção institucional e violência silenciosa. Ao assumir uma identidade falsa e se infiltrar em uma rede ligada à Polícia Civil, Armando se vê cercado por interesses perigosos, enquanto tenta lidar com perdas pessoais e com fragmentos de sua própria história.

Kleber Mendonça Filho opta por não transformar o filme em uma reconstituição histórica tradicional. Seu interesse está na sensação, no clima e na atmosfera daquele período. O diretor buscou recriar memórias afetivas do Recife de 1977, apostando em detalhes minuciosos como objetos de cena, carros, figurinos, jornais e telegramas. O resultado é um retrato do passado que não soa distante, mas inquietantemente próximo, dialogando com questões que ainda ecoam no presente brasileiro.

Recife ocupa um lugar central na narrativa. A cidade não aparece apenas como pano de fundo, mas como parte viva da história. Espaços emblemáticos, como o Cinema São Luiz, ganham destaque e reforçam o olhar afetivo do diretor sobre os cinemas como locais de encontro, memória e resistência cultural. Essa relação já havia sido explorada em Retratos Fantasmas e reaparece aqui com força renovada, conectando o espaço físico à experiência emocional dos personagens.

A estética do filme é outro ponto amplamente celebrado. A direção de fotografia de Evgenia Alexandrova, aliada à direção de arte de Thales Junqueira e ao figurino de Rita Azevedo, constrói uma identidade visual que transporta o espectador para os anos 1970 sem recorrer a exageros. O uso de lentes anamórficas e recursos ópticos específicos contribui para uma linguagem visual sofisticada, que reforça o clima de tensão e instabilidade constante vivido pelos personagens.

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