Resenha – Fernão e a Epopeia da Coluna dos Pretos transforma guerra em memória e espiritualidade em resistência

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Fernão e a Epopeia da Coluna dos Pretos não é um romance que busca agradar. Ele se impõe. Ao fundir ficção e acontecimentos históricos do século XIX no Cone Sul, a obra constrói uma narrativa que confronta o leitor com um passado marcado por violência, apagamento e luta constante por dignidade. Trata-se de uma história que entende a guerra não como espetáculo, mas como consequência direta de um sistema que se sustentou pela exclusão e pelo racismo estrutural.

A trama acompanha Fernão e Abubakar, líderes do quilombo da Taperinha, que assumem o comando da chamada Coluna dos Pretos em meio aos conflitos que atravessam o Brasil imperial e seus desdobramentos regionais. A marcha rumo à guerra não nasce do desejo de conquista, mas da impossibilidade de permanecer neutro. Desde o início, o livro deixa claro que a sobrevivência, para corpos negros naquele contexto, é sempre política.

Fernão surge como uma figura moldada pela guerra. Associado a Ogum, orixá do ferro e do combate, ele carrega uma liderança que não se confunde com heroísmo romântico. Seu papel é atravessado por responsabilidade coletiva, cansaço e consciência histórica. A força que o move não é a glória, mas a necessidade de proteger aquilo que ainda resiste. Em contraste, Abubakar, ligado a Oxóssi, opera em outra frequência: estratégia, observação e precisão. Seu arco sagrado funciona tanto como arma quanto como símbolo de equilíbrio, lembrando que resistir também exige cálculo e silêncio.

A presença da espiritualidade afro-brasileira é um dos elementos centrais da narrativa. Os orixás não aparecem como abstrações mitológicas, mas como referências vivas que orientam decisões, sustentam identidades e organizam o mundo simbólico dos personagens. A fé, aqui, não é escapismo; é estrutura. Ela sustenta a travessia física e emocional dos personagens diante de um cenário que constantemente ameaça desumanizá-los.

O romance acerta ao não romantizar o conflito. As batalhas são descritas com dureza, e o custo da guerra se impõe a cada avanço. Mortes, perdas e dilemas morais atravessam a narrativa, lembrando que resistir não elimina a dor — apenas a torna necessária. Os desaparecimentos, as derrotas e as cicatrizes funcionam como marcas permanentes, e não como obstáculos passageiros a serem superados.

As personagens femininas desempenham um papel decisivo na sustentação da história. Zabelê e Justina não ocupam espaços periféricos; elas garantem a continuidade da comunidade, preservam a fé e mantêm viva a memória coletiva enquanto os homens marcham. Sua resistência se manifesta no cuidado, na palavra e na permanência. O livro reconhece, com acerto, que a guerra não se vence apenas no confronto armado, mas também na capacidade de manter laços e identidade.

A escrita é direta, densa e consciente de seu peso histórico. Não há excesso de ornamentos nem tentativas de suavizar a violência do período retratado. O ritmo é deliberado, exigindo atenção do leitor, sobretudo nos momentos em que a narrativa se volta para os dilemas internos dos personagens. Essa escolha reforça o caráter reflexivo da obra, que prefere provocar a oferecer conforto.

Fernão e a Epopeia da Coluna dos Pretos se estabelece como um romance que reivindica espaço no debate sobre memória histórica e representação. Ao centrar a narrativa na resistência negra e integrar espiritualidade, política e identidade, o livro atua como gesto literário e político. Não busca respostas fáceis nem finais redentores. Seu maior mérito está em lembrar que a história não é neutra — e que narrá-la também é um ato de resistência.

Resenha – Asterix Omnibus (Volume 2) é a prova de que o humor também pode ser um ato de resistência

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Asterix Omnibus (Vol. 2) é, ao mesmo tempo, um lembrete do enorme talento criativo de René Goscinny e Albert Uderzo e uma prova de como um clássico pode sobreviver — e ser questionado — fora do seu tempo original. A coletânea reúne três aventuras fundamentais (Asterix Gladiador, Uma Volta pela Gália com Asterix e Asterix e Cleópatra), mas o que realmente sustenta o volume não é apenas o humor, e sim a inteligência política por trás de cada piada.

Por trás do tom leve e do traço cartunesco, Asterix sempre foi um comentário ácido sobre poder, imperialismo e resistência cultural. Aqui, isso fica ainda mais evidente. Os romanos não são apenas vilões caricatos; representam sistemas burocráticos, autoritários e absurdamente confiantes na própria superioridade. A aldeia gaulesa, por sua vez, funciona como metáfora da identidade que se recusa a ser apagada — nem pela força, nem pela “civilização” imposta.

Em Asterix Gladiador, o espetáculo da violência romana é tratado com humor, mas também com crítica clara: transformar sofrimento em entretenimento é uma prática antiga — e assustadoramente atual. A forma como Asterix e Obelix subvertem o sistema dos gladiadores expõe o ridículo de uma estrutura que só funciona enquanto ninguém questiona suas regras. O riso aqui não é inocente; é corrosivo.

Uma Volta pela Gália com Asterix talvez seja a história mais politicamente afiada do volume. A tentativa romana de isolar a aldeia com uma paliçada é uma imagem poderosa de controle territorial e cerceamento cultural. A resposta dos gauleses — atravessar o país celebrando comidas, sotaques e costumes — transforma a gastronomia em ato de resistência. É uma aventura simples na forma, mas sofisticada no discurso, exaltando a diversidade como antídoto contra a homogeneização forçada.

Já Asterix e Cleópatra brinca com vaidade, poder e ego nacional, usando o Egito como palco para uma sátira sobre líderes que confundem grandeza pessoal com grandeza histórica. Apesar do tom cômico, há aqui uma crítica direta à obsessão por monumentos, fama e legado, enquanto pessoas comuns lidam com as consequências dessas ambições.

Ainda assim, vale dizer: nem tudo envelheceu perfeitamente. Algumas piadas visuais e estereótipos refletem o contexto da época e podem soar datados para leitores mais atentos hoje. Isso não invalida a obra, mas convida à leitura crítica — algo que, ironicamente, combina muito com o espírito questionador da própria série.

No fim, Asterix Omnibus (Vol. 2) funciona menos como simples entretenimento infantil e mais como uma aula disfarçada de quadrinhos. Um clássico que diverte, sim, mas que também provoca, ironiza o poder e lembra que rir pode ser um ato profundamente político.

Resenha – Fence: Posição de Ataque é onde o esporte termina e o drama começa

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Fence: Posição de Ataque parte de um terreno já conhecido pelos fãs das graphic novels criadas por C.S. Pacat e Johanna the Mad, mas faz algo inteligente: não tenta simplesmente repetir a fórmula visual dos quadrinhos. Sob a escrita de Sarah Rees Brennan, a história se expande para o formato de romance e aposta menos na estética da esgrima em si e mais no que acontece quando jovens talentosos, emocionalmente instáveis e cheios de segredos são obrigados a conviver — e confiar uns nos outros.

A Escola Kings Row não é apresentada como um celeiro de vitórias, e isso é essencial para o tom da narrativa. O time de esgrima é formado por garotos extremamente diferentes, unidos mais pela frustração do que pela glória. A treinadora Williams surge como uma figura prática e quase implacável, alguém que entende que o problema do grupo não está apenas na técnica, mas na incapacidade de se conectar. Sua decisão de impor exercícios voltados ao desenvolvimento emocional — e não apenas físico — funciona como o grande motor dramático do livro.

Nicholas, Seiji, Harvard e Aiden não são arquétipos rasos, embora em alguns momentos se aproximem disso. Cada um carrega conflitos internos que extrapolam a quadra: traumas do passado, pressões familiares, expectativas irreais e a constante necessidade de performar masculinidade em um ambiente competitivo. O livro acerta ao mostrar que o esporte, longe de ser apenas disciplina e superação, também pode ser um espaço de silenciamento emocional.

Aiden, o “pegador” da escola, é talvez o personagem mais emblemático dessa contradição. Sua imagem pública contrasta violentamente com o peso do passado trágico que carrega, e o romance faz um bom trabalho ao desmontar essa fachada aos poucos. Já o arco envolvendo o esgrimista olímpico e um esquema criminoso adiciona uma camada inesperada à narrativa, lembrando que o universo esportivo também está sujeito a corrupção, exploração e escolhas moralmente questionáveis.

Um dos pontos mais fortes de Posição de Ataque é a forma como lida com relacionamentos e identidade. O livro não trata a representatividade queer como um elemento decorativo ou “extra”, mas como parte orgânica da vida dos personagens. Os sentimentos profundos que surgem entre alguns integrantes da equipe são tratados com naturalidade, ainda que envoltos em confusão, medo e insegurança — exatamente como costuma acontecer fora da ficção. A famosa “afirmação queer”, destacada pela Kirkus, não vem em discursos grandiosos, mas em gestos, diálogos e conflitos internos.

Por outro lado, o romance nem sempre consegue equilibrar todos os seus núcleos com a mesma força. Em alguns trechos, o drama pessoal se sobrepõe tanto ao esporte que a esgrima passa quase a ser um pano de fundo simbólico, e não uma prática concreta. Para leitores que esperam uma exploração mais técnica ou estratégica do esporte, isso pode causar certa frustração. O foco está claramente nas relações humanas, não na competição em si.

A escrita de Sarah Rees Brennan é fluida, acessível e emocionalmente direta. Ela entende bem o público a quem se dirige e constrói diálogos que soam naturais, especialmente nos momentos de tensão e vulnerabilidade. O ritmo é envolvente, ainda que previsível em alguns conflitos, e o livro funciona bem como porta de entrada para novos leitores do universo Fence, ao mesmo tempo em que agrada fãs antigos.

No fim, Fence: Posição de Ataque não é uma história sobre vencer campeonatos, mas sobre aprender a existir em conjunto. É um livro sobre falhas, afetos mal resolvidos e a dificuldade de confiar quando se foi ferido antes. Pode não ser revolucionário em estrutura, mas é honesto em sua proposta e sensível em sua execução.

Resenha – Por quê? é um romance sobre trauma e a difícil reconstrução do amor

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“Por quê?” é uma pergunta que ecoa do início ao fim desta narrativa. Por que duas pessoas foram vítimas de uma armação tão cruel? Por que a violência social pesa mais sobre a mulher? Por que o casamento ainda surge como “reparação” diante de uma tragédia? E, principalmente, por que insistimos em transformar dor em silêncio? O romance parte de uma premissa intensa e desconfortável para construir uma história sobre trauma, responsabilidade e a possibilidade — nada simples — de recomeçar.

A trama acompanha uma adolescente que sofre bullying devido a uma deformidade nasal. A promessa de uma cirurgia corretiva apenas após a maioridade não é apenas um detalhe médico: é símbolo de uma juventude suspensa, de uma autoestima condicionada ao olhar alheio. A protagonista já vive em estado de fragilidade quando, em uma festa de formatura, torna-se vítima de uma trama perversa: bebida adulterada, consciência comprometida e um encontro forçado com um homem igualmente dopado e manipulado por uma ex-companheira vingativa.

O despertar dos dois, nus e com lembranças fragmentadas, é um dos momentos mais impactantes da narrativa. Não há romantização da cena — ao contrário, há desconforto. O texto toca em um ponto delicado e urgente: a zona cinzenta do consentimento sob efeito de substâncias. Ambos foram vítimas, ambos foram usados. Ainda assim, é ela quem arcará com as consequências físicas e sociais.

A gravidez transforma o drama íntimo em escândalo familiar. Pais tradicionalistas exigem casamento como forma de “reparação”, sob ameaça de denúncia por possível estupro inconsciente. Aqui, o romance assume um tom crítico contundente ao expor como estruturas sociais conservadoras frequentemente priorizam reputação em detrimento de acolhimento. O casamento civil, realizado contra a vontade dos dois, é menos união e mais imposição — um contrato firmado sob pressão.

A narrativa ganha fôlego quando os personagens seguem caminhos separados no exterior. A protagonista, especialmente, é construída com cuidado: ela estuda, cria a filha, supera inseguranças e se destaca na área de tecnologia. Sua ascensão profissional é um dos pontos mais consistentes da obra, pois desloca o foco do trauma para a potência. A cirurgia corretiva, quando finalmente acontece, não é apresentada como milagre transformador, mas como parte de um processo maior de reconstrução interna.

O reencontro anos depois, motivado por laços empresariais entre as famílias, devolve à história sua tensão original. O marido, agora mais maduro, busca conhecer a filha e reconquistar a mulher que foi obrigada a desposar. O jogo de egos, ressentimentos e silêncios é bem explorado, embora por vezes se aproxime de convenções típicas do melodrama. Ainda assim, o texto sustenta interesse ao enfatizar que o maior conflito não está no ambiente externo, mas dentro deles.

A filha surge como elemento emocionalmente inteligente, quase mediadora involuntária do casal. Sua presença suaviza o peso do passado e oferece uma perspectiva menos contaminada pela culpa. É através dela que o romance ganha calor humano e evita cair apenas na lógica do sofrimento.

Contudo, a obra também provoca questionamentos importantes. Ao transformar uma situação inicialmente traumática em história de amor, o enredo caminha em terreno sensível. Há o risco de que leitores interpretem a reconciliação como romantização de uma origem violenta. O mérito do texto está em não ignorar essa complexidade: o amor que nasce no final não é fruto do episódio inicial, mas da convivência, da maturidade e do enfrentamento consciente dos traumas.

“Por quê?” é, portanto, um romance sobre reconstrução. Não é uma história leve, nem pretende ser. É uma narrativa que incomoda ao tocar em temas como consentimento, pressão social, machismo estrutural e perdão. Seu maior acerto está em mostrar que o amor verdadeiro não surge da imposição, mas da escolha — e que perdoar não significa esquecer, e sim ressignificar.

Crítica – Pecadores surpreende com vampiros, trilha sonora marcante e Michael B. Jordan em dose dupla

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O cinema de terror está sempre à procura de algo novo — e Pecadores entrega exatamente isso. Com uma mistura ousada de drama psicológico, horror sobrenatural e uma inesperada integração da música como fio narrativo, o longa não só surpreende, como também firma sua identidade própria dentro do gênero.

A trama gira em torno de dois irmãos gêmeos, interpretados com maestria por Michael B. Jordan, que decidem retornar à sua cidade natal em busca de redenção e um recomeço. No entanto, ao invés da paz, são confrontados por forças malignas que os arrastam para um verdadeiro pesadelo. A atuação de Jordan é um espetáculo à parte — ele entrega performances tão distintas para cada irmão que, por momentos, esquecemos que se trata do mesmo ator. É uma transformação completa, nos trejeitos, na voz, nas expressões. Um trabalho digno de premiação.

O roteiro, ainda que comece em ritmo mais lento, se revela uma escolha acertada. Esse tempo inicial serve para estabelecer uma forte conexão emocional com os personagens, tornando os momentos de horror ainda mais intensos e significativos. Quando o caos se instala, o espectador já está totalmente imerso.

Outro destaque surpreendente é a forma como o filme incorpora o humor. Leve, pontual e jamais deslocado, ele serve como respiro entre as cenas mais densas, equilibrando o tom sem comprometer a tensão. Mas o verdadeiro diferencial de Pecadores está em seu uso criativo da música. As sequências musicais não apenas embalam a narrativa, mas ditam o ritmo das cenas de terror, criando uma atmosfera única que beira o hipnótico. É raro ver o terror dialogar com a trilha sonora de forma tão orgânica e inovadora.

A direção é ousada e visualmente deslumbrante. Cada cena parece cuidadosamente pensada para causar impacto — seja emocional ou visual. A escolha pelo formato IMAX é certeira: a tela gigante amplifica os momentos mais intensos, tornando a experiência ainda mais imersiva e visceral.

Embora elementos da história possam remeter a outros clássicos do gênero, o longa-metragem encontra seu próprio caminho. A abordagem diferente sobre vampiros — aqui tratados de forma simbólica e quase poética — traz frescor a um tema já bastante explorado.

Com um elenco afiado, direção marcante, roteiro sólido e um toque criativo que envolve música e horror como poucos fizeram antes, Pecadores tem tudo para entrar na lista de destaques do ano. E, quem sabe, nas premiações também.

Crítica – Lilo & Stitch ganha live-action emocionante que honra o original e emociona com novas camadas

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A versão live-action de Lilo & Stitch surpreende ao conseguir capturar — com sensibilidade e criatividade — a essência do clássico animado, sem abrir mão de inovações bem-vindas. O filme preserva aquela atmosfera acolhedora e divertida que marcou gerações, ao mesmo tempo em que oferece atualizações pontuais que enriquecem a narrativa.

O roteiro é coeso e respeita o material original, mesmo com algumas alterações de falas e cenas. Em vez de descaracterizar a história, essas mudanças ajudam a ampliar a profundidade emocional dos personagens. A trama, que já era comovente, ganha aqui novos detalhes que reforçam o vínculo entre os protagonistas e criam momentos ainda mais tocantes.

Um dos grandes acertos está na direção, que conduz a história com ritmo envolvente e olhar atento às emoções. A relação entre Lilo e Nani ganha protagonismo, tornando-se o verdadeiro coração do filme. A conexão entre as irmãs é retratada com delicadeza e realismo, o que torna a experiência ainda mais íntima e comovente.

Já Stitch — que continua carismático como sempre — assume um papel um pouco mais coadjuvante, mas ainda essencial. Ele continua sendo o agente do caos afetuoso que conhecemos, mas agora inserido em um contexto que dá mais espaço para o drama familiar das irmãs, sem perder o equilíbrio com os momentos de humor e aventura.

No geral, o live-action de Lilo & Stitch supera expectativas ao entregar um filme bonito, emocionante e fiel ao espírito da animação. É uma produção que respeita a memória afetiva do público, mas que também não tem medo de ousar com novas abordagens. Um raro caso em que a Disney acerta em cheio ao adaptar um clássico para as telas contemporâneas.

Crítica – Elio é uma aventura intergaláctica de tirar o fôlego e de tocar o coração

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Na vastidão do universo, a Pixar volta a provar que as maiores viagens são, na verdade, internas. Elio, nova animação do estúdio, estreia com ares de simplicidade, mas se revela uma obra emocionalmente poderosa, construída com a delicadeza típica de quem compreende a alma infantil — e o peso que ela pode carregar.

Um protagonista fora do eixo — e fora da Terra

A trama gira em torno de Elio, um garoto de 11 anos com imaginação borbulhante e um coração marcado pela perda. Vivendo com a tia, Olga, uma oficial militar dura e pragmática, ele encontra no espaço uma metáfora viva para o seu isolamento emocional. Enquanto ela lida com estratégias e protocolos, Elio busca abrigo nas estrelas — não apenas como fuga, mas como forma de sobreviver ao luto e à rejeição cotidiana.

Uma aventura intergaláctica com alma profundamente humana

É nessa chave sensível que o filme brilha: Elio não tem pressa em construir o vínculo com o espectador. Ele nos convida, quase em silêncio, a ocupar os sapatos do menino e ver o mundo com os olhos de quem não encontra lugar — nem na escola, nem na própria casa. Mas então, a mágica acontece: por um erro cósmico (ou talvez por destino), Elio é transportado a um conselho intergaláctico e confundido com o porta-voz da humanidade. É o início de uma jornada fantástica que parece saída de um conto, mas que guarda camadas profundas sobre identidade, empatia e escolha.

Aqui, a Pixar não aposta em vilões caricatos ou reviravoltas grandiosas. O “conflito” do filme é mais interno do que externo. Mesmo envolto em cenários interplanetários de tirar o fôlego — com um design de produção riquíssimo, repleto de criaturas únicas e arquitetura futurista —, o que move a narrativa é o coração de Elio: um menino ferido que aprende, aos poucos, que coragem não é ausência de medo, mas a capacidade de se manter aberto mesmo quando tudo convida ao fechamento.

Domee Shi (Red: Crescer é uma Fera), Adrian Molina (Viva – A Vida é uma Festa) e Madeline Sharafian (roteirista de Luca) formam uma trindade criativa que conhece profundamente os dilemas da infância e os transforma em arte sensível, sem subestimar a inteligência emocional do público. A direção conjunta aposta em um ritmo contemplativo, mas recompensador — com pausas que fazem sentido, diálogos afiados e momentos de puro encantamento visual.

Uma lição doce sobre empatia e pertencimento

A frase que atravessa o filme — “Nos conflitos, não há vencedores” — não é apenas uma lição didática, mas um grito suave diante de um mundo que insiste em dividir para controlar. Elio fala sobre pertencimento, mas também sobre reconciliação. Sobre como, às vezes, os monstros que enfrentamos não estão lá fora, mas aqui dentro — e como só o afeto pode desarmá-los.

É, no fim das contas, um filme para adultos cansados e crianças esperançosas. Uma fábula moderna que nos convida a relembrar a força da imaginação, o valor da empatia e a beleza de se sentir aceito — mesmo (e principalmente) quando nos sentimos de outro planeta.

Para quem ainda carrega uma criança dentro do peito

Elio estreia nesta quarta-feira, 19 de junho, e é daqueles filmes que te pegam de surpresa: começa como um desenho espacial e termina como um abraço. E que bom que ainda existam filmes assim.

Resenha – Feitos Um Para o Outro é um romance sobre as dores e contradições do crescer juntos

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Foto: Reprodução/ Almanaque Geek

Feitos Um Para o Outro, da autora italiana Biondi, é um romance que se apresenta inicialmente como uma delicada narrativa sobre um casal jovem tentando se encontrar na turbulência dos primeiros anos da vida adulta. A trama, situada em Bolonha, acompanha Manuel e Mia, dois jovens que dividem um pequeno quarto num alojamento estudantil, imersos em uma realidade marcada por sonhos, inseguranças e as pressões da independência.

A escrita de Biondi revela sensibilidade e sutileza ao retratar as nuances emocionais de um relacionamento em sua fase inicial — sem recorrer ao melodrama exagerado ou a clichês desgastados. O texto navega habilmente entre as esperanças e as dúvidas típicas de quem encara o futuro com certa ansiedade, traduzindo em diálogos naturais e cenas cotidianas as tensões entre afeto e conflito.

No entanto, apesar de suas qualidades narrativas, o livro carrega uma controvérsia que polariza opiniões: o tratamento dado à traição cometida por Mia.

Aqui reside o principal desafio da obra. A autora escolhe abordar a traição de forma relativamente superficial, sem aprofundar as complexas implicações emocionais e éticas do ato. A decisão unilateral de Mia — que pede demissão sem diálogo prévio, abalando a estabilidade financeira que ambos buscavam — e, sobretudo, a traição, são fatos que poderiam render uma análise profunda sobre maturidade, confiança e consequências. Contudo, Biondi opta por minimizá-los na narrativa.

Além disso, Mia é retratada com uma ambiguidade problemática: sua postura parece simbolizar uma resistência ao amadurecimento. Ela valoriza o lazer e a liberdade ao lado dos amigos e rejeita a cobrança legítima de Manuel por responsabilidade e compromisso. Por sua vez, Manuel, que sonha em ser escritor e trabalha numa pizzaria para se sustentar, é caracterizado como alguém quase obsessivo e desequilibrado, numa inversão que gera desconforto, pois coloca a vítima da traição como antagonista da história.

Essa dinâmica – que transforma Manuel em um “vilão” na percepção da própria parceira e do círculo social dela – levanta questões importantes sobre representação de gênero, responsabilidade afetiva e o que se considera “culpa” num relacionamento. A narrativa, ao promover uma reconciliação rápida e quase sem consequências reais, perde a oportunidade de explorar os dilemas e as dores que acompanham uma traição, assim como a reconstrução (ou não) da confiança.

Para leitores que valorizam a profundidade emocional e a coerência psicológica, o livro pode parecer simplista ou até ingênuo na resolução dos conflitos. O perdão, no romance, não exige tempo, nem reflexão profunda, nem crescimento genuíno — e isso pode soar como uma romantização perigosa de uma falha grave.

Contudo, é justamente essa ambivalência que torna Feitos Um Para o Outro um texto instigante. A obra não oferece respostas definitivas nem pretende julgar seus personagens com rigidez moral. Em vez disso, convida o leitor a refletir sobre as complexidades do amor jovem, as contradições do amadurecimento e os limites da tolerância nas relações afetivas.

Manuel e Mia são personagens imperfeitos, com sonhos conflituosos e inseguranças típicas da idade. Talvez eles nunca tenham sido, na realidade, “feitos um para o outro” no sentido romântico idealizado, mas são, sim, retratos verossímeis da confusão que é crescer amando.

Em síntese, Feitos Um Para o Outro é uma obra recomendada para leitores que buscam mais do que um romance açucarado, que estejam dispostos a enfrentar as sombras e os incômodos do amor real. É um convite a entender que a vida adulta, com suas responsabilidades e escolhas, nem sempre permite finais lineares ou simples — e que o amor, por mais lindo que seja, também é um terreno de complexidade e desafio.

Crítica – M3GAN 2.0 é insana, hilária e melhor do que o original — um terror que sabe rir de si mesmo

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Foto: Reprodução/ Internet

No segundo capítulo da franquia, M3GAN 2.0 mostra que não foi só a androide assassina que precisou evoluir — o próprio terror aqui passa por uma reinvenção. O filme abandona o susto fácil dos jump scares para investir em algo mais instigante: o medo moderno, existencial, profundamente humano diante do avanço descontrolado da tecnologia.

Mas que fique claro: M3GAN 2.0 não tenta ser um tratado sério sobre inteligência artificial. Pelo contrário. Ele se diverte com o próprio exagero, assume sua veia cômica e entrega uma comédia de terror deliciosamente absurda, que ri de si mesma e do mundo ao redor.

Um espetáculo de horror, risos e absurdo

Fazia tempo que o cinema de terror não se permitia rir tanto — e com tanto estilo. M3GAN 2.0 é hilário, levemente surreal, assumidamente tolo e, por isso mesmo, surpreendentemente inteligente. É raro ver uma continuação que supera seu original em praticamente todos os aspectos, mas aqui o feito é alcançado com coragem e muita personalidade.

A sequência de maior destaque talvez seja a mais improvável: um grupo de M3GANs executando uma performance sincera de “This Woman’s Work”, de Kate Bush. O choque entre a música e o contexto é tão inusitado, tão incrivelmente bem coreografado, que o momento beira o sublime. É cinema trash em sua forma mais sofisticada e autoconsciente — um delírio audiovisual que arranca risos pela ousadia, não pela paródia.

Elenco afiado, roteiro esperto e comentários sociais pontuais

O elenco brilha, com atuações precisas que equilibram bem o tom entre o nonsense e o drama. Alison Williams, em especial, entrega uma performance fria, quase robótica, que encaixa perfeitamente com o clima do filme. Sua personagem é o eixo de tensão e equilíbrio entre o absurdo e a crítica — e ela domina a tela com segurança do começo ao fim.

Apesar de o roteiro apoiar-se em clichês previsíveis, isso não compromete a experiência. Pelo contrário: os lugares-comuns são usados com ironia e timing cômico impecável. E os comentários sobre regulamentação de inteligência artificial surgem aqui e ali de forma inesperadamente pertinente — quase como provocações sutis em meio ao caos cênico. É um filme que ri, mas também pensa.

Crítica | Meu Bolo Favorito apresenta delicadeza e coragem no retrato do amor maduro em pleno Teerã

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Foto: Reprodução/ Internet

Há filmes que não gritam, mas sussurram verdades tão íntimas que permanecem com a gente muito depois da última cena. Meu Bolo Favorito, dirigido com sutileza por Maryam Moghadam e Behtash Sanaeeha, é um desses encontros raros entre delicadeza e profundidade. Mais do que uma história de amor, é um retrato generoso de uma mulher que redescobre a própria vida quando já parecia não haver mais tempo para surpresas.

Mahin, interpretada com alma pela extraordinária Lili Farhadpour, tem 70 anos e mora sozinha em Teerã. A filha mora longe, na Europa. O marido já não está mais. O cotidiano é silencioso, previsível, quase invisível — como tantas mulheres maduras que passam despercebidas no turbilhão da vida urbana. Mas, num chá da tarde com amigas, algo muda. Um gesto simples, uma conversa banal, e Mahin, quase sem perceber, permite que uma nova possibilidade se aproxime.

E assim, sem grandes arcos ou viradas espetaculosas, o filme nos envolve com a poesia da intimidade. Um novo romance entra em cena — ou talvez seja apenas um encontro, um instante de conexão humana — e Mahin se vê diante do impensável: o direito de sentir desejo de novo, de abrir a porta não apenas da casa, mas do corpo, da memória, da alma.

O que começa como um evento rotineiro logo se transforma numa noite de descobertas — nem sempre suaves, nem sempre fáceis, mas incrivelmente humanas. Porque o amor, quando chega tarde, não chega com ingenuidade: chega carregado de passado, de medo, de delicadezas que só a maturidade entende.

Meu Bolo Favorito se passa em um Irã real, onde as mulheres vivem entre limites e brechas, onde os silêncios dizem mais que mil palavras. Mas o que torna o filme universal é justamente sua capacidade de tocar o que é comum a todas as mulheres: a solidão, o desejo, o medo de envelhecer invisível, a esperança que insiste em resistir mesmo quando tudo parece já definido.

A câmera é íntima, respeitosa, quase cúmplice. Os diretores sabem que o tempo de Mahin é outro — e o ritmo do filme acompanha esse compasso interior. Não há pressa. Há respiro. Há espaço para hesitar diante do espelho, para sorrir sozinha, para lembrar do toque de um amor antigo e se permitir desejar um novo.

E que beleza é ver uma atriz como Farhadpour em um papel tão inteiro, tão digno, tão vivo. Mahin não é uma caricatura de avó fofa, nem uma heroína em luta. É apenas uma mulher — com medo, com desejo, com dignidade — em busca de algo que talvez ela mesma tenha esquecido como é: se sentir viva.

O bolo favorito do título vai além da metáfora óbvia. Não se trata só de sabor, mas de memória afetiva, de pequenos prazeres, de escolhas que fazem sentido para nós e ninguém mais. É sobre retomar o controle da própria narrativa — mesmo quando o mundo já parece ter escrito o final da história.

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