Crítica | Apocalipse nos Trópicos é um retrato do Brasil atual

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Petra Costa nunca foi uma diretora que se escondeu atrás da neutralidade. Com Democracia em Vertigem (2019), ela já havia exposto seu olhar sensível e politicamente engajado sobre o colapso da democracia brasileira. Em Apocalipse nos Trópicos, sua nova investida documental que estreou nesta segunda (14) na Netflix, a cineasta vai ainda mais fundo — e mais fundo aqui também significa mais escuro, mais perturbador, mais corajoso.

Desta vez, Petra não foca apenas nos bastidores da política institucional. O que está em jogo agora é o casamento entre fé e poder, mais especificamente a ascensão das igrejas neopentecostais como uma força política organizada e decisiva no Brasil contemporâneo. O epicentro desse terremoto ideológico é Silas Malafaia, figura central no documentário — e símbolo vivo da mistura explosiva entre autoritarismo religioso, populismo e um projeto de dominação cultural.

Um protagonista sem máscara

Petra não precisa desmascarar Malafaia — ele faz isso sozinho, com uma desenvoltura perturbadora. Dentro do próprio jato particular, pilotando uma BMW, vociferando ofensas contra um motociclista, ou discursando ao lado de Jair Bolsonaro, o pastor é filmado com acesso surpreendente, quase íntimo. E talvez seja isso o mais assustador: sua tranquilidade diante da câmera, sua certeza absoluta, a crença inabalável de que está certo — mesmo quando seu discurso transborda intolerância, arrogância e desprezo pela diversidade humana.

Há algo de perverso no carisma de Malafaia, e Petra registra isso sem histeria, mas com um incômodo crescente. Ele grita, zomba, ataca minorias, debocha da imprensa, e ainda assim se apresenta como “homem de Deus”. O que Apocalipse nos Trópicos revela, com precisão dolorosa, é o quanto essa retórica violenta encontrou eco num país onde milhões de pessoas sentem-se abandonadas, desorientadas, e carentes de líderes com respostas prontas — mesmo que essas respostas venham cheias de ódio.

Uma nação em transe

Petra conecta, com lucidez e indignação contida, o crescimento da bancada evangélica, a campanha de desinformação nas redes sociais, a figura de Bolsonaro como “ungido”, e o desfecho trágico do 8 de janeiro de 2023 — quando extremistas invadiram as sedes dos Três Poderes, sob a bênção simbólica de um discurso antidemocrático alimentado há anos.

É impossível assistir ao documentário e sair ileso. A sensação que fica é de um Brasil à deriva, tomado por um messianismo fabricado, onde o nome de Deus serve de escudo para práticas que nada têm de espirituais. A câmera de Petra, mesmo sem grandes recursos visuais, constrói um mosaico de ruínas emocionais e morais. E não há vilões caricatos — há seres humanos que escolheram, conscientemente, o caminho do autoritarismo.

A ousadia de continuar

Apocalipse nos Trópicos é um filme incômodo, provocador e profundamente humano. Petra não se coloca como juíza — ela se posiciona como cidadã, como filha, como artista que não aceita calar diante do retrocesso. Sua narração continua melancólica, mas agora com um tom de exaustão. Como se dissesse: “nós avisamos”. A esperança existe, mas está fraturada. E talvez seja esse o sentimento mais honesto que o filme nos deixa.

Em tempos de normalização do absurdo, Petra Costa tem a ousadia de continuar documentando a barbárie. E faz isso com a serenidade de quem entende que o cinema é mais do que entretenimento — é também memória, denúncia e resistência.

Crítica | “Quarteto Fantástico – Primeiros Passos” é um recomeço corajoso, imperfeito e estranhamente poético para a Primeira Família da Marvel

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Foto: Reprodução/ Internet

“Ele não é como a gente. Ele é mais.” Essa frase, dita em um momento chave de Quarteto Fantástico – Primeiros Passos, sintetiza a ambição do filme: tentar reimaginar heróis exaustos por adaptações falhas com um olhar que seja, finalmente, mais. Mais maduro. Mais humano. Mais à altura do que o público sempre quis ver nessas figuras que, embora cósmicas, nasceram da intimidade disfuncional de uma família.

Dirigido com competência e senso de estrutura por Matt Shakman, o novo Quarteto Fantástico entrega, acima de tudo, funcionalidade. E isso, vindo de um histórico cinematográfico que inclui um desastre de 2015 e uma tentativa esquecível em 2005, já é motivo de celebração. Mas o filme vai além do básico. Ele entrega um frescor emocional inesperado, uma sobriedade elegante e até um toque poético que confere ao longa sua própria identidade dentro do saturado Universo Marvel.

Um drama quase existencial por trás das malhas e poderes

Diferente de outras produções do MCU, que se apoiam demais em piadas ou explosões, Primeiros Passos tem um ritmo que beira o contemplativo em certos trechos. A formação da equipe não é tratada como um grande evento, mas como uma consequência melancólica de decisões tomadas por amor à ciência — e, muitas vezes, por medo de envelhecer no anonimato.

Reed Richards (interpretado com precisão nerd, mas emocionalmente acessível por Pedro Pascal é o centro gravitacional do grupo — o cérebro que sonha alto demais. Sue Storm (vivida por Vanessa Kirby é mais do que a esposa do cientista: ela é um ventre metafórico e literal para o futuro. A comparação que o filme faz entre um buraco negro em expansão e a dilatação uterina durante o parto pode soar absurda no papel, mas em cena, curiosamente, funciona. É o tipo de imagem que nos lembra que super-heróis não são apenas armas — são espelhos de nossas esperanças mais primitivas.

Johnny Storm, por sua vez, é um personagem que o filme trata com certa hesitação. Há tentativas de construí-lo como um jovem gênio com instabilidade mental, numa espécie de cruzamento entre Tocha Humana e John Nash (Uma Mente Brilhante), mas essa proposta nunca deslancha por completo. Seu arco parece colado, como se estivesse em busca de um filme próprio. Ben Grimm, o Coisa, sofre ainda mais: sua tragédia pessoal — um homem transformado num monstro de pedra — merecia mais tempo de tela e mais coragem narrativa. O filme insinua seu sofrimento, mas logo recua, como se temesse deixar a sessão de cinema pesar demais.

O tempo, o vácuo e a luta contra o fim

Se há um inimigo real em Primeiros Passos, ele não usa capa nem armadura. É o tempo. Ou melhor: o vácuo. A inevitabilidade do nada. O filme é obcecado por buracos — negros, emocionais, temporais. E nessa obsessão, encontra uma beleza rara. A narrativa é pontuada por imagens que representam o ciclo da existência: bebês em incubadoras, foguetes em lançamento, anéis de acoplamento, cordões umbilicais rompidos pela ciência, pelo destino, pela ambição. Tudo começa e termina em algum tipo de vazio — e o Quarteto é convocado a preenchê-lo com o que há de mais frágil: a esperança.

Não é uma proposta exatamente divertida. Mas é honesta.

O cansaço do gênero… e o sopro de uma resistência

Há quem diga que o cansaço dos filmes de super-herói é inevitável. E talvez seja. Thunderbolts, lançado recentemente, parecia mais um sinal de exaustão do que de reinvenção. Mas Primeiros Passos desafia esse destino com dignidade. Mesmo dentro de um universo já sobrecarregado, o filme encontra espaço para perguntar: o que deixamos para os nossos filhos? Que legado nasce da destruição? Como proteger uma família que nasceu da exposição ao desconhecido?

Nessa perspectiva, o longa se aproxima mais de Os Incríveis do que dos próprios filmes da Marvel. E faz isso sem vergonha. Ao contrário: homenageia, implicitamente, aquela que continua sendo a melhor narrativa cinematográfica sobre super-famílias até hoje. E essa autoconsciência — essa humildade criativa — é um dos grandes trunfos da produção.

Limitações, sim — mas também uma nova promessa

É verdade que o filme peca em momentos importantes. O segundo ato é acelerado, sem o aprofundamento emocional que o primeiro promete. Há uma certa pressa em resolver conflitos, como se o roteiro ainda estivesse tentando atender a checklists impostos pelo estúdio. A química entre os quatro protagonistas funciona mais pela ideia do que pela execução. E, claro, a ausência de um vilão realmente memorável (o retorno de Victor Von Doom, embora estilizado, é tímido) impede que o clímax atinja sua potência máxima.

Mas talvez isso seja parte do projeto. Primeiros Passos parece menos interessado em criar um épico definitivo e mais em assentar bases sólidas para um futuro — algo que as adaptações anteriores jamais conseguiram.

Um recomeço com alma

Quarteto Fantástico – Primeiros Passos não é perfeito, nem revolucionário. Mas é humano. E, neste ponto da história do gênero, isso já é quase um milagre. Ao optar por um tom mais contemplativo, por metáforas inesperadas e por perguntas incômodas, o filme se aproxima de uma nova linguagem dentro do cinema de super-heróis — uma linguagem que não despreza o espetáculo, mas que coloca o afeto e o significado no centro da cena.

Crítica | Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda traz de volta o charme do clássico em sequência divertida e nostálgica

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Foto: Reprodução/ Internet

Duas décadas após conquistarem o público com a comédia adolescente Sexta-Feira Muito Louca (2003), Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan estão de volta em Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda, a sequência que resgata não apenas os personagens icônicos Tess e Anna, mas também a magia da fórmula corpo-trocado com uma nova roupagem emocional, atualizada e surpreendentemente madura. Dirigido por Nisha Ganatra e escrito por Jordan Weiss, o filme entrega uma comédia sensível e espirituosa, que respeita o legado do original sem deixar de se reinventar.

Na nova trama, reencontramos Anna Coleman (Lohan), agora adulta, mãe de uma pré-adolescente e prestes a se tornar madrasta. Tess (Curtis), por sua vez, vive uma fase consagrada: avó dedicada, vencedora do Oscar e com a mesma energia controladora de sempre. Quando as engrenagens da vida — e uma nova onda sobrenatural — as colocam de volta no corpo uma da outra, mãe e filha precisam, mais uma vez, se reconectar e repensar suas trajetórias. Só que agora há mais em jogo: duas famílias, gerações diferentes, responsabilidades complexas e um mundo que também mudou.

Ganatra, que tem experiência em projetos sensíveis com apelo cômico (The High Note, Late Night), acerta ao equilibrar o humor característico do primeiro filme com o peso emocional de duas mulheres que se amam profundamente, mas vivem em tempos e papéis distintos. A nova troca de corpos não é apenas um recurso narrativo repetido, mas um espelho para refletir sobre envelhecer, maternar, amar de novo e (re)aprender com o outro.

O carisma que atravessa o tempo

O maior trunfo do filme é, sem dúvida, a química intacta entre Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan. Se, em 2003, ambas entregaram performances hilárias e inesperadamente comoventes, em 2025 elas exibem um entrosamento ainda mais afiado, agora temperado com a bagagem da maturidade — delas enquanto atrizes e das personagens enquanto mulheres.

Curtis continua dominando com facilidade cada nuance cômica, e se diverte ao interpretar uma avó no corpo da filha adulta, enquanto Lohan, em um de seus retornos mais celebrados ao cinema, exibe uma delicadeza que não anula sua veia cômica. Seu timing permanece afiado, e há um brilho nostálgico em vê-la retornar ao papel que ajudou a eternizá-la como uma estrela da geração millennial.

Julia Butters, a jovem atriz revelada em “Era Uma Vez em… Hollywood”, também brilha como a filha de Anna. Ela oferece o contraponto de uma nova geração que assiste ao caos intergeracional com perplexidade, sarcasmo e, claro, uma dose de sabedoria precoce.

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Humor com coração

O roteiro de Jordan Weiss — criadora da série Dollface — opta por não reinventar completamente a roda. A estrutura segue familiar: as protagonistas trocam de corpos, enfrentam situações inusitadas no cotidiano da outra, criam embaraços públicos e finalmente descobrem, através dessa experiência, algo profundo sobre si mesmas. No entanto, o charme do filme está em como essa estrutura é revestida por novos temas.

Questões como envelhecimento, maternidade, luto, reconstrução familiar e até menopausa ganham espaço em meio ao riso fácil. Ao tratar dessas pautas sem perder o humor leve, o filme respeita sua audiência mais velha — aquela que cresceu com o original — ao mesmo tempo que oferece uma porta de entrada acolhedora para o público jovem.

Há cenas memoráveis: um jantar de noivado que descamba em caos corporal e emocional; um momento constrangedor (e hilário) de Tess, no corpo de Anna, tentando usar redes sociais; e uma tocante conversa entre as duas personagens num quarto de hotel, que remete diretamente ao clímax emocional do primeiro filme.

Nostalgia sem ser refém

A nostalgia é um ingrediente inevitável, mas felizmente Uma Sexta-Feira Mais Louca Ainda não se rende ao fan service fácil. As referências ao primeiro longa existem — uma menção ao show de rock adolescente, um flashback discreto, uma piadinha interna sobre a banda Pink Slip — mas funcionam como camadas adicionais e não como muletas narrativas.

Há, inclusive, um mérito na maneira como o filme se posiciona no universo da Disney sem precisar se tornar uma sequência “infantilizada”. Ele é mais maduro, mais introspectivo em certos momentos, e mais emocionalmente ambicioso do que se esperaria de uma comédia familiar padrão. Ainda assim, continua acessível, engraçado e encantador.

O peso da continuidade

Ganatra também acerta ao construir um universo visual que espelha o crescimento das personagens. A casa de Tess é agora mais elegante, mas ainda tem resquícios de sua personalidade controladora. Anna vive em um espaço mais orgânico e desorganizado, refletindo sua nova identidade como mãe e profissional. As escolhas estéticas — desde o figurino até a direção de arte — ajudam a contar a história com riqueza de detalhes, mesmo nos momentos mais caricatos.

A trilha sonora mistura canções atuais com músicas que evocam os anos 2000, criando uma ponte afetiva com o passado, mas sem parecer datada. A montagem tem ritmo ágil e preciso, fazendo com que mesmo os momentos mais absurdos pareçam verossímeis dentro da lógica do filme.

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Uma comédia com identidade própria

Ao final, o longa-metragem entrega exatamente o que promete — e mais um pouco. É um filme sobre família, sobre crescer e reaprender, sobre ceder espaço e retomar a escuta. Faz rir com sinceridade, emociona com suavidade e, principalmente, reafirma o poder do cinema de ser um reencontro: entre mãe e filha, entre gerações, entre atores e suas plateias.

Jamie Lee Curtis e Lindsay Lohan provam, mais uma vez, que carisma não tem prazo de validade. E que, sim, às vezes o raio cai duas vezes no mesmo lugar — e quando isso acontece com talento, empatia e propósito, só nos resta agradecer.

Crítica | Springsteen: Salve-me do Desconhecido é uma cinebiografia visceral que revela o homem por trás da música

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Sob a direção precisa e sensível de Scott Cooper, Springsteen: Salve-me do Desconhecido apresenta um olhar profundamente íntimo e humanizado sobre Bruce Springsteen, afastando-se do formato tradicional das cinebiografias musicais. O filme concentra-se no processo de criação de Nebraska (1982) — um dos álbuns mais sombrios e introspectivos do artista — e nas batalhas emocionais e psicológicas que o acompanharam durante aquele período decisivo.

Em vez de reproduzir a ascensão de um ídolo ou o glamour da fama, Cooper constrói uma narrativa sobre o homem por trás do mito, revelando suas fragilidades, dilemas e a luta constante por autenticidade em meio às pressões da indústria musical. O resultado é uma obra contemplativa e honesta, que transforma a vulnerabilidade em força narrativa.

A estrutura do roteiro — marcada por idas sutis ao passado e momentos de profunda introspecção — reflete a turbulência interior do protagonista. Cooper conduz a câmera com paciência e empatia, permitindo que cada silêncio e cada gesto revelem mais do que as palavras poderiam expressar. A alternância entre flashbacks da infância e cenas de solidão adulta cria um retrato coeso de um artista dividido entre o amor pela música e o peso de suas próprias sombras.

O filme se destaca também por sua abordagem madura da saúde mental. A depressão, o isolamento e a dificuldade de se abrir ao outro são tratados com delicadeza e sem excessos melodramáticos. Springsteen: Salve-me do Desconhecido não procura romantizar o sofrimento, mas compreender suas origens e consequências. Nesse sentido, a relação entre Bruce e Faye Romano (vivida por Odessa Young) é um dos pontos mais sensíveis da narrativa. As cenas entre ambos os personagens alternam ternura e frustração, revelando como a instabilidade emocional pode corroer até os vínculos mais profundos.

Jeremy Allen White entrega aqui uma das performances mais complexas e contidas de sua carreira. Ele desaparece por completo no papel de Springsteen, equilibrando vulnerabilidade e força com precisão. Cada olhar e cada pausa carregam uma densidade que traduz a solidão de um homem dividido entre a necessidade de criar e o medo de se perder no processo. Jeremy Strong, no papel do empresário e confidente Jon Landau, atua como contraponto emocional — uma âncora de humanidade em meio à tormenta. O elenco de apoio, com destaque para Paul Walter Hauser, Stephen Graham e Odessa Young, contribui de maneira significativa para a veracidade do retrato humano construído por Cooper.

A direção de fotografia reforça o caráter introspectivo do filme. Tons frios e paisagens desoladas evocam a atmosfera melancólica do álbum Nebraska, enquanto a iluminação suave e os enquadramentos contemplativos transformam a solidão em poesia visual. A trilha sonora — marcada por composições minimalistas e momentos de silêncio absoluto — dialoga com o estado emocional do protagonista, funcionando como uma extensão de sua consciência. Cooper adota um ritmo deliberadamente lento, permitindo que o espectador sinta a passagem do tempo e o peso das emoções, em vez de apenas observá-los.

Mais do que uma cinebiografia, Springsteen: Salve-me do Desconhecido é um estudo sobre autenticidade, dor e redenção. Cooper não se interessa apenas pela figura pública, mas pelo processo de reconstrução de um homem que, diante da própria escuridão, encontra na arte uma forma de sobrevivência. O filme propõe uma reflexão universal sobre a tensão entre liberdade criativa e pressão comercial — um conflito atemporal que ressoa com força na era dos algoritmos e da cultura imediatista.

O desfecho, longe de buscar soluções fáceis, aponta para uma esperança silenciosa: mesmo nas fases mais sombrias, há espaço para cura, reconciliação e reconexão consigo mesmo. A jornada de Springsteen é, afinal, a de qualquer artista — e, em última instância, a de qualquer ser humano que luta para se manter verdadeiro em meio ao caos.

Com direção refinada, atuações impecáveis e uma abordagem emocionalmente honesta, Springsteen: Salve-me do Desconhecido se consolida como uma das cinebiografias mais impactantes dos últimos anos. É uma obra densa e poética, que transcende o retrato do ícone para revelar o homem — e nos recorda que, por trás de cada canção, há sempre alguém tentando compreender o próprio silêncio e se salvar do desconhecido interior.

Resenha – Esqueça o Meu Nome é um quadrinho que transforma lembrança em ferida

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Foto: Reprodução/ Almanaque Geek

Zerocalcare nunca foi um autor de histórias leves — e ainda bem. Em Esqueça o Meu Nome, sua nova graphic novel, o quadrinista italiano mais vendido da atualidade entrega algo ao mesmo tempo confessional e desconcertante: um mergulho em suas próprias memórias, onde realidade e fantasia se confundem a ponto de o leitor não saber mais onde termina o trauma e começa a invenção.

O ponto de partida é simples — a morte da avó —, mas nada em Zerocalcare é simples de verdade. A perda desencadeia uma avalanche de lembranças, culpas e perguntas que ele nunca quis fazer. O resultado é um retrato honesto e melancólico de um homem tentando entender o que sobrou de si depois que a infância foi embora.

Quando o luto vira labirinto

O autor transforma o luto em um labirinto visual e emocional. Cada quadro parece desenhado com a mão trêmula de quem ainda está tentando processar o que viveu. As linhas são imperfeitas — propositalmente —, e nelas há algo de cru, quase desconfortável. É o tipo de arte que não quer agradar, quer atingir.

A HQ alterna momentos de lembrança real com delírios fantásticos, monstros simbólicos e cenas que beiram o pesadelo. E isso funciona porque o leitor entende: a dor não é linear. O que Zerocalcare faz é materializar o caos interno, transformar a memória em algo palpável — mesmo que isso doa.

A infância como campo de batalha

Há uma ideia forte que atravessa todo o livro: a de que crescer é uma espécie de traição. Ao revisitar o passado, o autor percebe que a inocência não desaparece de repente — ela é arrancada aos poucos, junto com a fé em quem éramos. A avó, nesse contexto, é mais do que uma figura familiar: é o último elo com o que foi puro, antes que o peso da sociedade e da culpa tomasse conta.

E é nessa camada que Zerocalcare mostra maturidade narrativa. Ele não idealiza o passado — expõe suas rachaduras. A casa da avó, os objetos esquecidos, as fotos antigas, tudo serve como espelho de um protagonista que tenta entender de onde veio e, principalmente, por que ainda não sabe para onde vai.

Arte que sangra

Visualmente, o quadrinho é de um vigor impressionante. Zerocalcare domina o contraste entre cores fortes e sombras densas, criando uma atmosfera entre o sonho e o pesadelo. As criaturas que habitam suas páginas não são monstros externos — são os medos, as lembranças e as culpas que ele carrega.

Ainda assim, há beleza na dor. As cores gritam, os traços tremem, mas há uma sensibilidade quase poética em cada quadro. É arte feita de cicatrizes — e, curiosamente, é aí que ela se torna universal.

Um livro que exige entrega

“Entre o que fica e o que vai”, Zerocalcare entrega uma história corajosa, mas que também pode afastar quem espera algo mais “linear”. O ritmo é fragmentado, as transições são abruptas e a mistura entre realidade e delírio exige do leitor mais atenção do que costumeiramente se pede em uma HQ.

Mas talvez seja esse o ponto: a vida também não tem roteiro. E o autor não tenta organizar o caos — apenas desenhá-lo. O resultado é uma obra que incomoda, emociona e, acima de tudo, fica com você depois que termina.

Crítica – Amor Vingado é um drama provocante que expõe as contradições entre orgulho, poder e amor

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Existem séries que começam com raiva e terminam com ternura — e Amor Vingado é exatamente uma dessas. Adaptado do web novel de Chai Ji Dan, o drama chinês parte de uma premissa aparentemente simples — um homem traído que decide se vingar — mas rapidamente revela camadas de ironia, culpa e contradição emocional que transformam o enredo em algo muito mais humano. É uma história sobre o que acontece quando a vingança deixa de ser um plano e se torna um espelho — um reflexo do que o protagonista mais teme em si mesmo.

Wu Suo Wei (Zi Yu) é o tipo de personagem que nasce do ressentimento. Criado em uma família humilde, ele é o homem que a sociedade não espera ver vencer — e quando sua namorada rica o abandona e o humilha, o golpe atinge mais do que o coração: fere o orgulho, a masculinidade e a sensação de pertencimento. Suo Wei, então, decide mudar de vida, abrir seu próprio negócio e provar que pode alcançar o topo sem ajuda de ninguém.

Até aí, tudo parece um drama sobre superação. Mas a série não demora a mostrar que Suo Wei quer algo mais do que sucesso — ele quer revanche. E quando descobre que sua ex agora está com Chi Cheng (Tian Xu Ning), um herdeiro arrogante e mimado, a raiva se transforma em estratégia: ele vai seduzir o novo namorado dela e fazê-lo pagar com o coração.

A vingança como armadilha emocional

O plano de Suo Wei começa como um jogo: ele observa, calcula e manipula. E, por um tempo, o público quase torce por ele — há um certo prazer em ver o rapaz simples virar o jogo contra o mundo dos ricos. Mas a série tem uma carta na manga: ela transforma o manipulador em prisioneiro do próprio plano.

Conforme o relacionamento entre os dois se intensifica, Suo Wei descobre que não se pode brincar com o coração sem se ferir também. A suposta sedução vira um labirinto de sentimentos reais, e o público sente junto com ele o desconforto de perceber que o amor pode nascer do engano.

É aqui que o roteiro se destaca: ele não idealiza o romance, nem tenta limpá-lo. Ao contrário, a série se alimenta da ambiguidade — da culpa, do desejo, do medo de admitir que algo genuíno está florescendo no terreno da mentira.

Chi Cheng: o herdeiro que surpreende

Se Suo Wei é o cérebro do jogo, Chi Cheng é o seu ponto cego. O herdeiro, interpretado por Tian Xu Ning, começa como um clichê ambulante: bonito, arrogante, superficial. Mas a série o trata com empatia, mostrando que sua arrogância é, na verdade, uma forma de defesa.

O que poderia ser apenas uma caricatura de “rico mimado” se transforma em um personagem complexo — alguém que aprendeu a se proteger do mundo com cinismo, mas que, ao conhecer Suo Wei, começa a desmontar as próprias armaduras. A química entre os dois é intensa, mas nunca gratuita: há afeto, tensão, provocação e uma vulnerabilidade palpável que atravessa o olhar dos dois atores.

Entre o amor e o ego

O que faz Amor Vingado se destacar entre tantos dramas românticos é o fato de que ele não tem medo de ser desconfortável. A série fala sobre amor, sim — mas também fala sobre ego, poder e identidade. O romance entre Suo Wei e Chi Cheng não é construído para agradar; é um campo de batalha emocional onde cada um tenta dominar o outro, e acaba se perdendo no processo.

O público é convidado a assistir à desconstrução dos dois: o homem que queria se vingar descobre o amor; o herdeiro que se achava intocável aprende a ser vulnerável. Nenhum dos dois sai ileso — e é exatamente isso que torna a série tão humana.

Um romance que questiona mais do que responde

Amor Vingado é, no fundo, uma história sobre autodescoberta em meio ao caos emocional. A série se recusa a dar respostas fáceis. Ela não romantiza a vingança, nem idealiza o amor; mostra que ambos podem coexistir, se confundir e até se destruir.

E esse talvez seja o maior mérito da produção: ela trata o amor entre dois homens com naturalidade, sem rótulos, sem discurso — apenas como algo que acontece, mesmo quando não deveria. Em um cenário audiovisual ainda conservador, isso já é revolucionário por si só.

Crítica – O Sobrevivente é uma distopia explosiva e incrivelmente relevante

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Foto: Reprodução/ Internet

Adaptando o romance homônimo de Stephen King, Edgar Wright reconstrói O Sobrevivente com a seriedade que a história pede, sem jamais abandonar seu estilo autoral inconfundível. O humor afiado, o dinamismo narrativo e a pitada de excentricidade continuam presentes, mas agora combinados a uma ambição dramática mais madura. Desde os primeiros minutos, Wright nos conduz com precisão a um futuro distópico em que os Estados Unidos se tornaram um estado autoritário guiado por conglomerados midiáticos, enquanto uma população empobrecida e desassistida é mantida sob controle através de reality shows brutais transformados em espetáculo nacional.

É nesse cenário sufocante que surge Ben Richards, um homem comum obrigado a participar de um desses programas mortais para conseguir dinheiro e tentar salvar a filha gravemente doente. Embora o enredo pudesse facilmente se limitar à jornada de um herói injustiçado, Wright transforma Richards em um reflexo das falhas estruturais daquele mundo — e, inevitavelmente, do nosso.

Mais do que ação: Uma crítica contundente ao entretenimento manipulador

O Sobrevivente não se contenta em ser um filme de ação estiloso. Wright constrói uma obra inquieta e provocativa, que utiliza o espetáculo para falar justamente sobre o próprio espetáculo. A crítica à desigualdade, ao controle político e à espetacularização da violência é ácida e precisa. O show business é apresentado como um mecanismo fraudulento, inteiramente premeditado, feito para distrair, manipular e anestesiar.

O público dentro do filme exige mais sangue e violência sem perceber que nada é espontâneo: cada movimento é roteirizado, cada morte é planejada e cada emoção é cuidadosamente orquestrada pelos produtores. Uma das decisões mais inteligentes da direção é deslocar parte da ação para ambientes abertos, onde qualquer pessoa pode se tornar “caçador” em troca de uma recompensa ilusória. Esse elemento transforma cidadãos comuns em participantes voluntários de um jogo brutal, gerando um clamor coletivo perturbador: “Caçem-no!”.

Edgar Wright em seu auge: ritmo, estilo e substância

É verdade que o longa leva um pouco de tempo para engrenar — característica frequente em filmes do diretor, que prefere construir terreno, aprofundar personagens e preparar emocionalmente o espectador. No entanto, quando a narrativa dispara, ela simplesmente não desacelera. O ritmo se torna eletrizante, com cenas de ação coreografadas com precisão, humor pontual e momentos de quietude reflexiva que enriquecem a trajetória do protagonista.

A direção é um espetáculo à parte. Wright imprime energia, inventividade e fluidez a cada sequência. A fotografia explora com intensidade o contraste entre o brilho artificial da TV e a decadência real das ruas. A montagem, veloz e calculada, dita o pulso emocional da narrativa. E a trilha sonora — sempre um ponto alto na filmografia do diretor — surge novamente como elemento essencial, com canções escolhidas a dedo que ampliam tensões, ironias e significados.

Um elenco em perfeita sintonia

Glenn Powell entrega uma das melhores atuações de sua carreira, equilibrando força física e vulnerabilidade emocional para construir um Ben Richards sólido, carismático e profundamente humano. Ele se transforma em um herói improvável que conquista o público pela sinceridade e pela resistência moral.

Josh Brolin se destaca como o produtor cruel e estrategista do programa, exibindo uma combinação assustadora de charme e frieza corporativa. Colman Domingo, sempre magnético, brilha como o apresentador manipulador, elevando ainda mais o impacto das cenas televisivas. Já Michael Cera e Emilia Jones formam uma dupla improvável, sensível e carismática, trazendo humanidade para dentro de um mundo dominado pelo absurdo.

Uma reinvenção audaciosa e necessária

Ao final, o longa-metragem se revela mais do que uma simples reinterpretação do romance de Stephen King. É uma atualização ousada, inteligente e profundamente conectada ao nosso tempo. Wright entrega um filme que satiriza o consumo de violência como entretenimento, denuncia a manipulação midiática e expõe o vazio moral de uma sociedade condicionada a transformar sofrimento em espetáculo.

Ao mesmo tempo, oferece uma aventura vibrante, tecnicamente impecável e conduzida por personagens que lutam contra um sistema esmagador. O Sobrevivente é um filme que reafirma Edgar Wright como um dos cineastas mais inventivos da atualidade — e confirma que, quando distopia, crítica social e estética autoral se encontram, o resultado pode ser explosivo, envolvente e surpreendentemente revelador.

Crítica – Hamnet: A Vida Antes de Hamlet é um retrato delicado e profundo do luto como permanência

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Foto: Agata Grzybowska/ FOCUS FEATURES LLC

Hamnet: A Vida Antes de Hamlet chega aos cinemas em 2025 como uma das adaptações literárias mais sensíveis dos últimos anos. Baseado no romance homônimo de Maggie O’Farrell, o longa dirigido por Chloé Zhao se distancia conscientemente do biográfico tradicional para construir um estudo íntimo sobre perda, amor e memória. Em vez de narrar feitos históricos ou glorificar o mito em torno de William Shakespeare, o filme escolhe observar o que permanece quando a tragédia já aconteceu e quando a ausência passa a reorganizar silenciosamente a vida dos que ficam.

A abordagem de Zhao é contida e profundamente humana. O luto, aqui, não se manifesta por grandes explosões emocionais ou discursos explicativos. Ele se instala nos gestos cotidianos, nos silêncios prolongados, na maneira como o tempo parece desacelerar após a perda de um filho. A morte de Hamnet não é tratada como um evento isolado, mas como uma força invisível que atravessa cada relação, cada espaço e cada escolha dos personagens.

No centro da narrativa estão Agnes e William Shakespeare, interpretados com notável sensibilidade por Jessie Buckley e Paul Mescal. O casal não representa apenas duas figuras históricas, mas duas formas radicalmente distintas de atravessar a dor. Agnes estabelece com a natureza uma relação de profunda intimidade. Seu vínculo com a terra, as plantas e os ciclos naturais carrega um misticismo orgânico que nunca soa artificial ou exótico. Trata se de uma espiritualidade silenciosa, construída a partir da escuta e da observação, que transforma o ambiente ao redor em extensão de seu mundo interior.

Jessie Buckley entrega uma das atuações mais marcantes de sua carreira. Sua Agnes carrega o luto no corpo, no olhar e até na respiração. Cada movimento parece atravessado por uma dor contida, nunca verbalizada em excesso. Buckley constrói uma personagem que comunica mais pelo silêncio do que pela palavra, transformando gestos mínimos em expressões de um sofrimento profundo e persistente. Sua presença em cena sustenta emocionalmente o filme e dá densidade a cada momento de recolhimento e resistência.

Paul Mescal, por sua vez, interpreta um William Shakespeare menos mítico e mais humano. Distante da imagem do gênio inspirado, seu personagem encontra na escrita uma tentativa de sobreviver à perda. A arte surge não como fuga, mas como um espaço de permanência. Ao escrever, William não busca apagar a ausência do filho, mas dar forma a ela. A criação artística se apresenta como um gesto de amor, um meio de manter viva uma presença que já não existe fisicamente.

Jacobi Jupe, no papel de Hamnet, oferece uma atuação delicada e luminosa. Sua presença em cena é breve, mas profundamente marcante. O jovem ator constrói um personagem que ocupa o filme com uma naturalidade comovente, como se desde o início anunciasse a falta que deixaria. Mesmo após sua saída da narrativa, Hamnet continua presente, não como lembrança explícita, mas como ausência constante que molda o comportamento e as emoções dos demais personagens.

A direção de fotografia desempenha um papel fundamental na construção da atmosfera do filme. A luz natural, os enquadramentos contemplativos e o ritmo paciente da câmera acompanham os estados emocionais dos personagens com precisão. Cada plano parece carregado de memória e de tempo, criando imagens que não explicam o sentimento, mas o experimentam junto ao espectador. A natureza não funciona apenas como cenário, mas como espelho emocional do que não pode ser dito.

Narrativamente, Hamnet: A Vida Antes de Hamlet opta por uma estrutura que privilegia a experiência sensorial em detrimento da linearidade clássica. O filme confia na capacidade do público de sentir e interpretar, sem recorrer a explicações excessivas. Essa escolha pode desafiar espectadores acostumados a narrativas mais diretas, mas é justamente nela que reside a força da obra. Zhao constrói um cinema que convida à contemplação e à escuta atenta.

Ao transformar a ausência em matéria artística, Chloé Zhao reafirma uma ideia essencial e poderosa. A arte não elimina a dor, mas pode torná la habitável. Em Hamnet: A Vida Antes de Hamlet, o cinema se apresenta como espaço de escuta, memória e permanência. Um filme que não busca consolar, mas compreender. E que, ao fazê lo, permite que o amor não desapareça, apenas encontre uma nova forma de existir.

Resenha – Os Quadros de Elisa usa o suspense para expor o que a sociedade ainda prefere não enxergar

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Os Quadros de Elisa é um daqueles livros que começam com a promessa de entretenimento, mas rapidamente deixam claro que não estão interessados apenas em distrair. Embora se apresente como um suspense investigativo, a obra aposta em algo mais incômodo: usar o mistério como espelho de um problema estrutural que segue sendo relativizado, ignorado ou mal interpretado — a violência contra a mulher.

O crime que atravessa a vida das irmãs Alice e Elisa funciona menos como um quebra-cabeça policial e mais como um ponto de ruptura. A partir dele, o livro constrói uma narrativa que questiona diretamente a forma como julgamos vítimas, suspeitos e histórias mal contadas. Não há conforto aqui. O leitor é constantemente empurrado para fora da posição passiva, sendo convidado a rever suas próprias certezas e desconfianças.

Elisa, como protagonista, carrega uma complexidade que fortalece a proposta do livro. Ela não é uma investigadora infalível nem uma vítima idealizada. Sua busca por respostas é atravessada por confusão emocional, culpa, medo e contradições — elementos que muitas narrativas insistem em apagar quando falam sobre violência. Essa escolha é acertada e politicamente relevante: o livro entende que a experiência feminina raramente é linear ou facilmente explicável.

Os personagens masculinos que orbitam a trama não existem apenas para preencher a lista de suspeitos. Um ex-namorado abusivo, um relacionamento recente, um homem em situação de rua e um assediador formam um conjunto de figuras que expõem diferentes faces de uma mesma estrutura de poder. O mérito do livro está em não transformar nenhum deles em vilão óbvio demais, mas também em não relativizar comportamentos abusivos. Essa ambiguidade gera desconforto — e esse desconforto é necessário.

Narrativamente, Os Quadros de Elisa provoca ao brincar com estereótipos. O leitor é levado a desconfiar de quem parece perigoso e a minimizar atitudes que socialmente costumam ser normalizadas. Quando essas expectativas são quebradas, o impacto não está apenas na surpresa do enredo, mas na constatação de como somos treinados a enxergar determinadas situações de forma enviesada. O suspense, aqui, funciona como armadilha ética.

O cenário turístico do Sudeste brasileiro é uma escolha particularmente eficaz. Ao deslocar a violência para espaços associados ao lazer, à beleza e à segurança, o livro desmonta a ideia de que esse tipo de crime está restrito a lugares marginalizados. A mensagem é clara: a violência não escolhe paisagem, classe social ou contexto idealizado. Ela acontece onde preferimos não olhar.

Do ponto de vista literário, a escrita é direta e funcional, sem excessos estilísticos. Em alguns momentos, a narrativa poderia arriscar mais formalmente, aprofundando certas passagens emocionais, mas essa contenção também contribui para a fluidez e para o alcance do livro. A prioridade está menos na sofisticação da linguagem e mais na clareza da mensagem — uma escolha que faz sentido dentro da proposta.

O maior mérito de Os Quadros de Elisa está em sua recusa em ser apenas um suspense de consumo rápido. O livro incomoda porque não oferece respostas fáceis nem vilões confortáveis. Ele questiona, provoca e aponta para uma realidade que ainda encontra resistência em ser debatida com a seriedade necessária. Ao final, o mistério se resolve, mas o incômodo permanece — e essa é, sem dúvida, a sua maior vitória.

Resenha – Meninos Morrem de Medo expõe o fracasso social em lidar com a diferença

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Meninos Morrem de Medo: Contos de Flamígera é um livro que se constrói a partir da delicadeza, mas não se esconde atrás dela. Ao reunir histórias centradas em personagens que a sociedade insiste em marginalizar — pessoas autistas, indivíduos com síndrome de Down e sujeitos profundamente sensíveis — a obra assume uma postura crítica clara: a exclusão não é exceção, é regra. E o medo, longe de ser apenas sentimento individual, é produto de um sistema que pune quem foge da norma.

O tom aparentemente nostálgico que atravessa os contos — cartas perfumadas, códigos de cortesia, encontros mais lentos — funciona menos como saudade de um tempo idealizado e mais como recurso de contraste. Ao evocar um passado em que os gestos carregavam significado, o livro evidencia o empobrecimento das relações contemporâneas, marcadas por pressa, superficialidade e intolerância. Essa escolha narrativa revela um olhar crítico sobre o presente, ainda que sem recorrer ao discurso explícito.

O verdadeiro centro da obra está em seus personagens. Eles não aparecem para cumprir funções simbólicas nem para despertar piedade. Ao contrário, são construídos com complexidade e humanidade, expondo desejos, frustrações e contradições. O livro acerta ao recusar tanto a romantização da diferença quanto a sua exploração como instrumento moralizante. Aqui, o desconforto nasce justamente da normalidade dessas vidas — e da forma como são constantemente violentadas por olhares e expectativas alheias.

A violência retratada nos contos raramente é física. Ela se manifesta de maneira mais sutil e persistente: no silenciamento, no constrangimento, na tentativa constante de corrigir comportamentos considerados inadequados. Meninos Morrem de Medo é incisivo ao mostrar como a violência psicológica é naturalizada e, muitas vezes, invisível. O livro não oferece redenção fácil nem soluções narrativas confortáveis; ele expõe feridas e as deixa abertas.

O título da obra é revelador. O medo que atravessa os personagens não é covardia, mas resultado de um aprendizado social cruel. Aprender a temer o afeto, a exposição e o julgamento é uma forma de sobrevivência em um mundo que exige desempenho e normalização constantes. Nesse sentido, o livro também faz uma crítica direta às construções de masculinidade e à repressão emocional imposta desde a infância.

Do ponto de vista literário, a escrita é contida e consciente. Não há excessos nem ornamentalização do sofrimento. A escolha por uma linguagem limpa e econômica reforça a força do que é dito, evitando qualquer tentativa de espetacularizar a dor. Em alguns momentos, essa contenção pode soar fria, mas é justamente ela que impede o livro de escorregar para o sentimentalismo fácil.

Meninos Morrem de Medo: Contos de Flamígera não é uma leitura confortável, ainda que seja delicada. Sua crítica é silenciosa, mas persistente. Ao colocar no centro da narrativa personagens que costumam ser empurrados para as margens, o livro obriga o leitor a confrontar seus próprios preconceitos e limites de empatia.

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