Felix Para Sempre é um daqueles livros que parecem simples na superfície, mas vão se abrindo em camadas bem mais complicadas conforme a leitura avança. A gente começa achando que vai acompanhar só mais uma história de adolescente em busca do primeiro amor, mas logo percebe que o foco aqui é outro. É sobre identidade, pertencimento e, principalmente, sobre o medo de não caber em lugar nenhum, nem mesmo no amor.

Felix Love é um protagonista que foge do padrão confortável de “personagem inspirador”. Ele é negro, trans, queer e, apesar de ter orgulho de quem é, vive com uma insegurança constante que aparece em pequenos gestos e pensamentos. O livro acerta muito ao não tentar suavizar isso. Félix não está totalmente resolvido, não tem todas as respostas e nem sempre toma as melhores decisões. Isso deixa tudo mais real, ainda que às vezes seja desconfortável acompanhar.

A grande virada da história acontece quando fotos antigas de Félix, antes da transição, são expostas na escola junto com seu nome morto. Esse momento muda completamente o tom da narrativa. Não é apenas um conflito escolar, é uma violência direta, cruel e muito íntima. A forma como isso afeta Félix é intensa, porque não mexe só com sua autoestima, mas com a forma como ele se enxerga no mundo. A partir daí, ele começa a alimentar um desejo de vingança que parece ser a única forma de recuperar algum controle.

Só que o livro não se resume a essa busca. Pelo contrário, ele usa essa situação como ponto de partida para explorar algo mais interessante, que é a confusão emocional que vem depois. Félix começa a investigar quem pode ter sido o responsável e acaba se aproximando de pessoas que ele nem imaginava. Entre elas, Declan, que entra na história como suspeito, mas aos poucos vai ganhando outras camadas. Essa relação é um dos pontos mais instigantes do livro justamente porque não é clara nem confortável. Existe tensão, dúvida e uma mistura de sentimentos que o próprio Félix não consegue nomear direito.

A escola de artes onde tudo acontece também tem um papel importante. Ela não é só cenário, mas um reflexo de um ambiente competitivo, cheio de elitismo e microagressões que parecem pequenas isoladamente, mas vão se acumulando e pesando. O livro faz um bom trabalho ao mostrar como esse tipo de ambiente pode ser sufocante, principalmente para alguém como Félix, que já está lidando com tantas questões internas.

O melhor amigo dele, Ezra, funciona como um ponto de equilíbrio na história. Ele não é colocado como solução mágica para os problemas de Félix, mas como uma presença constante que oferece apoio sem exigir nada em troca. Essa amizade é um dos elementos mais humanos do livro, porque não tenta ser perfeita. Ela só existe, com seus limites e sua força.

Se tem algo que impede Felix Para Sempre de ser ainda mais impactante, é que em alguns momentos a narrativa parece acelerar certas resoluções emocionais. Algumas reviravoltas surgem de forma um pouco conveniente, como se o livro quisesse organizar sentimentos que, na vida real, demorariam bem mais para se encaixar. Isso não estraga a leitura, mas tira um pouco da força de algumas cenas que poderiam ter mais espaço para respirar.

Ainda assim, o saldo é muito positivo. O livro não tenta romantizar a dor de Félix nem transformá-lo em símbolo de nada. Ele é só um jovem tentando entender como amar e ser amado sem precisar esconder partes de si mesmo. E isso já é mais do que suficiente para sustentar toda a narrativa.

No fim, Felix Para Sempre não entrega respostas prontas. Ele entrega dúvidas, desconfortos e pequenas descobertas. E talvez seja exatamente isso que torna a leitura tão honesta. Porque crescer, aqui, não é um caminho linear. É confuso, contraditório e cheio de tentativas que nem sempre dão certo. E o livro entende isso muito bem.

Avaliação geral
Nota do crítico
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Esdras Barbosa
Além de fundador e editor-chefe do Almanaque Geek, Esdras também atua como administrador da agência de marketing digital Almanaque SEO. É graduado em Publicidade pela Estácio e possui formação técnica em Design Gráfico e Webdesign, reunindo experiência nas áreas de comunicação, criação visual e estratégias digitais.
resenha-felix-para-sempre-acerta-ao-transformar-dor-e-desejo-em-uma-narrativa-emocionalmente-intensa“Felix para sempre” acompanha um adolescente trans, negro e queer lidando com identidade, rejeição e o desejo de ser amado. Após ter fotos antigas expostas na escola, Félix passa a buscar vingança e acaba envolvido em uma teia de sentimentos confusos, especialmente ao se aproximar de um possível suspeito. A resenha destaca que o livro é forte ao retratar a vulnerabilidade emocional e os impactos da transfobia cotidiana, além de construir bem o ambiente escolar elitista e hostil. Também valoriza a amizade com Ezra e a complexidade do protagonista, que não é idealizado. Por outro lado, aponta que algumas resoluções narrativas acontecem de forma apressada, enfraquecendo parte do impacto emocional. No geral, a obra se destaca pela honestidade ao tratar identidade e pertencimento, mesmo com irregularidades no desenvolvimento da trama.

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