Crítica – Casamento Sangrento: A Viúva tenta inovar, mas tropeça nas próprias regras

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Casamento Sangrento: A Viúva, sequência do sucesso cult de terror Casamento Sangrento, chega aos cinemas com grandes expectativas. Reunir Samara Weaving, Kathryn Newton e Sarah Michelle Gellar em uma narrativa repleta de ação, humor negro e mortes criativas parecia uma aposta segura. O resultado, no entanto, é um filme que oscila entre momentos de brilhantismo e falhas narrativas que comprometem sua coesão.

O maior desafio do longa está no próprio roteiro. Casamento Sangrento 2 se perde tentando detalhar as regras que regem as famílias assassinas, apresentando códigos que se contradizem ou desaparecem conforme a conveniência da cena. Em diversos momentos, o espectador se pergunta: “eles não deveriam simplesmente ter agido de outra forma?” ou “essa ação não deveria acontecer agora?”. A insistência em explicar normas que se modificam constantemente acaba prejudicando a tensão e a imersão. Em vez de enriquecer a narrativa, o excesso de regras se torna um fardo.

Outro ponto que gera estranheza é o conflito central entre Grace (Weaving) e Faith (Newton). O motivo para o afastamento das irmãs, tratado como grande revelação, soa trivial e pouco convincente para qualquer público adulto. Apesar disso, a atuação de Weaving continua impecável, mantendo carisma e presença de cena, enquanto a química com Newton transforma os confrontos entre as personagens em momentos eletrizantes. A relação problemática é divertida de acompanhar, mas carece de profundidade narrativa.

O elenco de apoio se destaca e equilibra as falhas do roteiro. Sarah Michelle Gellar surpreende ao assumir quase uma terceira protagonista no lado antagonista, com presença constante e cenas memoráveis. Elijah Wood entrega uma performance excêntrica e divertida, adicionando leveza em meio à violência, e complementa o tom de humor negro que permeia o longa. Essas performances compensam algumas escolhas narrativas questionáveis e mantêm o público entretido.

Ação intensa e mortes memoráveis

O filme não economiza em violência estilizada. As cenas de ação são coreografadas com precisão, e as mortes brutais mantêm a tensão e o ritmo da narrativa. O equilíbrio entre sangue, humor e suspense funciona bem, e o timing das piadas proporciona alívio cômico sem quebrar a tensão. A direção consegue capturar a energia dos confrontos e o impacto das mortes, oferecendo momentos de entretenimento puro para o público fã de terror moderno.

A ambientação visual é outro destaque. As locações e a fotografia combinam cores vibrantes com violência estilizada, criando uma estética que dialoga com o público jovem. A direção mantém ritmo adequado mesmo quando o roteiro tropeça em suas próprias regras, e a energia das cenas de ação ajuda a compensar lacunas na narrativa. O filme demonstra cuidado estético e ritmo consistente, reforçando seu apelo visual.

Entre diversão e frustração

Apesar das críticas, Casamento Sangrento: A Viúva diverte e cumpre seu papel de entretenimento. O problema central não está na execução técnica ou nas atuações, mas no excesso de regras e explicações que se contradizem. Em alguns momentos, parece que o próprio filme não acredita em suas normas, abrindo espaço para decisões narrativas confusas. Ainda assim, a energia do elenco, as cenas de ação e o humor garantem uma experiência satisfatória.

Em resumo, o longa alterna entre momentos de empolgação e escolhas narrativas frustrantes. Para fãs de terror moderno, a reunião de Samara Weaving, Kathryn Newton e Sarah Michelle Gellar é, por si só, motivo suficiente para conferir o filme. As performances, a violência estilizada e o humor negro compensam as falhas do roteiro, criando uma experiência divertida e envolvente, ainda que imperfeita.

Crítica – Segredo Obscuro transforma o horror corporal em uma reflexão perturbadora sobre fama e envelhecimento

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A premissa de Segredo Obscuro parte de uma questão simples: até onde alguém estaria disposto a ir para recuperar a relevância profissional? A partir desse ponto, o filme acompanha uma atriz que vê sua carreira ganhar uma nova chance após aderir a um tratamento experimental promovido pela enigmática empresa SHELL. O que inicialmente parece uma oportunidade de recomeço logo se transforma em uma experiência marcada por acontecimentos cada vez mais perturbadores.

A narrativa dedica boa parte de seu primeiro ato à protagonista e às consequências de viver em um ambiente que associa valor profissional à aparência. Essa construção mais gradual permite que o público compreenda as motivações da personagem antes que a trama avance para territórios mais sombrios. Quando os elementos de suspense passam a ocupar o centro da história, a sensação de inquietação surge de forma natural, sem a necessidade de recorrer constantemente a sustos ou explicações excessivas.

Boa parte desse resultado passa pela atuação de Elisabeth Moss. A atriz conduz a jornada emocional da personagem com precisão, tornando crível sua transformação ao longo da trama. Kate Hudson também entrega uma participação consistente, contribuindo para os momentos mais importantes do desenvolvimento dramático.

O longa encontra seus melhores momentos quando explora as consequências psicológicas das escolhas de sua protagonista. O roteiro levanta discussões sobre envelhecimento, aparência e validação profissional sem interromper o andamento da narrativa para transformar esses temas em discurso. As reflexões surgem a partir das situações vividas pelos personagens e não apenas por meio de diálogos explicativos.

O principal obstáculo aparece na segunda metade. Conforme os mistérios começam a ser revelados, a história passa a ampliar seu escopo e a apostar em acontecimentos cada vez mais extremos. Nesse processo, parte da tensão construída anteriormente perde espaço para reviravoltas que nem sempre possuem o mesmo impacto dramático.

As comparações com The Substance são inevitáveis por causa dos temas abordados e da utilização do horror corporal como ferramenta narrativa. No entanto, enquanto aquele filme mantinha uma progressão mais controlada até seu clímax, aqui algumas decisões parecem menos orgânicas, especialmente nos momentos finais.

O terceiro ato concentra as maiores qualidades e fragilidades da produção. Ao mesmo tempo em que apresenta imagens fortes e sequências visualmente marcantes, também abandona parte da contenção que fazia a narrativa funcionar tão bem no início. O resultado é um desfecho que chama atenção pelo impacto visual, mas que não alcança a mesma força emocional construída ao longo do percurso.

Mesmo com essas oscilações, Segredo Obscuro encontra qualidades suficientes para se destacar dentro do gênero. Sustentado por uma protagonista bem desenvolvida e por atuações sólidas, o filme constrói uma experiência envolvente durante grande parte de sua duração. Seu maior problema não está nas ideias que apresenta, mas na forma como tenta ampliá-las quando a história se aproxima da reta final.

Crítica – Lobisomem apresenta uma visão minimalista ambiciosa

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Foto: Reprodução/ Internet

O filme Lobisomem busca se destacar ao adotar uma abordagem minimalista semelhante à de O Homem Invisível, trazendo reflexões sobre violência herdada e raiva masculina. Apesar da ambição, o longa enfrenta dificuldades em desenvolver plenamente suas temáticas centrais, o que limita seu impacto emocional e narrativo.

A história apresenta uma introdução interessante ao explorar a dinâmica familiar do protagonista, mas os diálogos e situações soam um pouco artificiais, prejudicando a imersão do público. Há momentos em que o roteiro poderia aprofundar mais os conflitos e conexões entre os personagens, mas sua execução apressada acaba comprometendo esse potencial.

O elenco conta com o talento de Julia Garner, que tenta imprimir autenticidade à sua personagem, embora esta não receba a profundidade esperada. O filme oferece alguns vislumbres de tensão e mistério, mas o ritmo acelerado, especialmente nos primeiros 30 minutos, prejudica a construção de um vínculo mais forte com a narrativa.

Visualmente, a iluminação escura é usada para criar uma atmosfera sombria, mas, em certos momentos, dificulta a experiência do espectador. No entanto, o esforço para evocar um clima minimalista e intimista é notável. Já no campo do terror, as cenas de gore poderiam ter sido mais ousadas e criativas, mas ainda conseguem entregar alguns momentos intrigantes.

Apesar de suas falhas, Lobisomem é uma obra com ideias interessantes e uma tentativa válida de explorar o gênero de forma diferente. Com ajustes no roteiro e maior cuidado na execução visual, poderia se tornar uma experiência mais impactante e memorável. Para os fãs do gênero, vale a pena conferir, especialmente para apreciar a proposta de um terror mais reflexivo e intimista.

Crítica – Nascido para Vencer é uma jornada de redenção com coração, lutas e clichês

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Nascido para Vencer apresenta uma trama que, embora siga o caminho familiar de filmes sobre luta e superação, se destaca por um toque humano capaz de manter o espectador envolvido do começo ao fim. A história gira em torno de Mickey Kelley (interpretado por Sean Patrick Flanery), um homem que busca redenção após se afastar do mundo das artes marciais, tentando reconstruir sua vida e encontrar equilíbrio com sua família. O enredo, com sua abordagem sobre a luta interna contra as adversidades da vida, é um clássico exemplo de superação, um tema sempre emocionante e profundo. A transição de Mickey de um campeão de jiu-jitsu para um homem em busca de uma vida mais pacífica é retratada de forma eficaz, equilibrando cenas de ação intensas com momentos de introspecção, que revelam suas vulnerabilidades e dilemas pessoais.

Porém, como é comum no gênero, a narrativa peca ao cair em alguns clichês e padrões previsíveis, o que tira um pouco da originalidade da trama. Mesmo assim, o filme consegue manter o interesse do público com seu ritmo envolvente e as atuações sólidas do elenco. Sean Patrick Flanery faz um trabalho convincente ao interpretar Mickey, conseguindo transmitir tanto a vulnerabilidade quanto a força interior de seu personagem, o que faz com que o público se conecte emocionalmente com sua jornada. Dennis Quaid, como o mentor de Mickey, traz uma performance emocionalmente rica, com uma sensibilidade que complementa bem o papel de guia do protagonista. No entanto, o filme não se aprofunda tanto nos personagens secundários, que, embora bem interpretados, acabam sendo bastante superficiais, não deixando um impacto duradouro.

A química entre Flanery e Katrina Bowden, que interpreta a esposa de Mickey, é um dos pontos positivos, e embora o roteiro ofereça uma boa dinâmica entre o casal, há uma sensação de que esse relacionamento poderia ter sido mais explorado, revelando mais sobre as complexidades dessa parceria e os desafios que ela enfrenta. A relação deles, que é uma parte central da jornada de Mickey, se sente um pouco negligenciada, o que impede o filme de atingir seu potencial máximo de profundidade emocional.

No que diz respeito à ação, o filme não decepciona. As cenas de luta são bem executadas, intensas e realistas, com coreografias de MMA e jiu-jitsu que agradam os fãs do esporte. A energia das lutas é bem capturada, e isso mantém a tensão alta, mesmo nas cenas mais calmas. No entanto, a ausência de um grande conflito ou de uma reviravolta impactante no enredo faz com que o filme não se destaque tanto entre outros do mesmo gênero. Apesar disso, Nascido para Vencer ainda oferece uma história inspiradora de superação, honra e redenção pessoal, tocando em temas universais de luta, perda e recomeço.

Em resumo, embora o filme tenha seus méritos, como uma execução técnica eficiente, atuações consistentes e uma mensagem positiva, ele peca pela previsibilidade e pela falta de um elemento surpreendente que o faça se destacar no gênero. Para quem busca uma trama simples, porém emocionante, pode ser uma boa escolha de entretenimento, mas aqueles que esperam algo mais inovador e imprevisível podem achar a experiência um pouco aquém das expectativas.

Crítica – Os Radley apresenta humor leve e diversão com vampiros nada convencionais

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Foto: Reprodução/ Internet

À primeira vista, os Radley parecem uma família absolutamente comum. Eles levam uma vida regrada no subúrbio, participam de clubes do livro, trabalham em carreiras bem estabelecidas e criam dois filhos adolescentes que seguem a rotina escolar sem grandes sobressaltos. São vizinhos respeitáveis, discretos e aparentemente perfeitos em sua normalidade. Mas essa imagem impecável é apenas um disfarce: por trás das cortinas fechadas e das refeições aparentemente inofensivas, eles escondem um segredo sombrio—são vampiros que decidiram reprimir sua verdadeira natureza para viver em sociedade sem despertar suspeitas.

Esse autocontrole, no entanto, é colocado à prova quando a jovem Clara se vê envolvida em uma situação inesperada e violenta, despertando um instinto adormecido que ela sequer sabia que existia. A partir desse momento, a família é arrastada para um turbilhão de caos e confusão, tentando desesperadamente restaurar a aparência de normalidade. Mas, como qualquer segredo bem guardado, a verdade não demora a se espalhar, trazendo à tona segredos do passado, paixões proibidas e um jogo de aparências que se torna cada vez mais difícil de sustentar.

Apesar da premissa sobrenatural, Os Radley não se propõe a ser um terror denso ou assustador. Em vez disso, aposta em um tom leve, flertando com a comédia britânica e equilibrando momentos cômicos com uma crítica sutil às convenções sociais. O enredo, embora simples e sem grandes reviravoltas, funciona dentro do que se propõe: entreter sem exigir muito do espectador. Os diálogos podem não ser marcantes, mas o roteiro entrega situações absurdas e engraçadas que garantem boas risadas.

Com a direção segura de Euros Lyn e um elenco carismático que se encaixa bem nos papéis, o filme adapta o livro homônimo de Matt Haig para o cinema sem grandes pretensões, mas com um charme que torna a experiência agradável. Estreando nos cinemas brasileiros em 27 de fevereiro pela Paris Filmes, Os Radley pode não ser um marco no gênero, mas é uma escolha certeira para quem busca um entretenimento descomplicado, divertido e repleto de vampiros pouco convencionais.

Crítica – A Mulher no Jardim é uma beleza visual desperdiçada por um roteiro sem alma

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Ainda que A Mulher no Jardim não possa ser rotulado como um desastre completo, há uma sensação persistente de déjà vu ao longo de toda a experiência. A trama parece seguir caminhos já trilhados inúmeras vezes, e o roteiro — frágil em sua construção — não oferece novidades nem profundidade emocional suficientes para sustentar as ambições temáticas do longa.

A direção de Jaume Collet-Serra, por outro lado, é a grande força motriz da produção. Com domínio técnico e um olhar apurado para atmosferas densas, o cineasta constrói sequências visualmente impactantes, reforçadas por uma cinematografia elegante e por sustos eficazes, que remetem ao melhor do terror psicológico contemporâneo. Infelizmente, esse brilho técnico contrasta com o vazio narrativo que se impõe cada vez mais à medida que o filme avança.

Há uma tentativa clara de abordar o luto e a insatisfação com os papéis familiares — especialmente o da maternidade — como formas sutis, porém poderosas, de opressão emocional. Contudo, o resultado é confuso e até desconfortável. Ao transformar a doença mental em uma entidade antagonista, ligada diretamente à frustração de uma mulher que quer mais da vida do que apenas cuidar dos filhos, o filme cai em armadilhas narrativas perigosas. Em vez de explorar com empatia os conflitos internos da protagonista Ramona, a obra opta por uma personificação cruel e distorcida do sofrimento psíquico.

Os filhos da personagem principal pouco contribuem para a narrativa além de servirem como catalisadores de sua decadência emocional, sem jamais se desenvolverem como figuras com vida própria. Isso empobrece a dimensão dramática da história e compromete o peso emocional que o roteiro tenta, sem muito sucesso, sustentar.

No fim das contas, A Mulher no Jardim é um filme que impressiona pela forma, mas decepciona pelo conteúdo. Suas intenções são nobres, mas mal executadas; sua estética é refinada, mas aplicada a uma estrutura narrativa previsível, arrastada e emocionalmente desorientada. Não chega a ser uma total perda de tempo, mas tampouco é uma experiência que se recomende com entusiasmo.

Crítica – A Lenda de Ochi é um conto mágico com mistério, emoção e um toque dos anos 80

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“A Lenda de Ochi” é, antes de tudo, uma obra que desafia os moldes contemporâneos do cinema fantástico. Dirigido com precisão sensível, o filme constrói uma atmosfera densa e etérea, enraizada em uma Romênia nebulosa que parece suspensa no tempo — um lugar onde os personagens falam como se tivessem saído diretamente do século XVIII, com sotaques carregados e gestos cerimoniosos. É nesse cenário que o longa ergue sua narrativa: um conto de fadas do Velho Mundo, sombrio e repleto de camadas emocionais.

No centro da história está Yuri, uma jovem que habita um universo masculino onde suas emoções e desconfianças são invisíveis aos demais. Sua relação com Petro, o irmão adotivo que ostenta uma falsa bondade, revela-se apenas nas entrelinhas — nos olhares desconfiados e nos silêncios que dizem mais do que qualquer diálogo. O papel de Maxim, líder dos jovens locais, funciona quase como um narrador vivo, guiando o público por meio de suas falas autoritárias e tradicionalistas. Mas é na introspecção de Yuri que o filme encontra sua alma.

A chegada do enigmático Ochi — criatura silenciosa, ferida e evocativa — é o ponto de virada que liberta Yuri da apatia. A conexão entre os dois é silenciosa e simbólica, representando o despertar de sua própria identidade e desejo de fuga. Ao decidir escapar com Ochi, Yuri arrasta o espectador para um mundo onde o surreal se torna tangível, e a fantasia, uma poderosa ferramenta de resistência.

Visualmente, “A Lenda de Ochi” é um espetáculo artesanal. A escolha por fantoches e criaturas físicas — em vez de efeitos digitais — remete diretamente aos clássicos dos anos 1980, como E.T. – O Extraterrestre e Gremlins, e dá ao filme um charme retrô encantador. O universo criado tem textura, tem peso, tem presença. É palpável e, por isso mesmo, mágico. A trilha sonora minimalista acentua o clima de fábula, sem nunca se sobrepor à narrativa.

Embora muitos espectadores possam estranhar o ritmo contemplativo e o uso limitado de diálogos — principalmente no arco de Yuri —, o silêncio aqui é deliberado. É através da ausência de palavras que o filme revela suas intenções mais profundas: questionar a autoridade, explorar o isolamento feminino e celebrar a liberdade de imaginar.

“A Lenda de Ochi” é um sopro de originalidade que ousa não seguir fórmulas. Não entrega explicações fáceis, não se apressa em agradar. É cinema para sentir, não apenas assistir. E, nesse processo, conquista pela sensibilidade, pela forma e, sobretudo, pela coragem de evocar a magia das histórias de outrora com frescor e alma. Uma pequena joia para quem ainda acredita que os contos de fadas podem, sim, ser sombrios — e libertadores.

Resenha – A Sombra do Torturador é um clássico intrigante com luzes e sombras

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Foto: Reprodução/ Almanaque Geek

Gene Wolfe é um autor frequentemente reverenciado dentro da ficção científica e da fantasia especulativa, e A Sombra do Torturador — primeiro volume da série O Livro do Sol Novo — é tido por muitos como seu trabalho mais emblemático. A obra narra as memórias de Severian, um aprendiz da guilda dos torturadores, que vive em um mundo chamado Urth, uma Terra futura e decadente, onde tecnologia e misticismo coexistem sob um véu de ignorância e tradição feudal.

A premissa é instigante. Wolfe nos introduz a um universo que, à primeira vista, remete à fantasia medieval, mas que aos poucos revela pistas de um passado tecnológico avançado — naves espaciais, alienígenas e ruínas de eras esquecidas aparecem apenas como sombras, memórias distorcidas por milênios. O autor escolhe construir sua narrativa por meio de um narrador pouco confiável, o próprio Severian, que tenta reconstruir sua trajetória com um tom confessional e quase mítico. Isso funciona… até certo ponto.

Um começo promissor que perde o fôlego

A jornada de Severian começa de forma sólida. Ele é curioso, inteligente e visivelmente dividido entre o que aprendeu com sua guilda e o que começa a sentir por conta própria. Quando se apaixona por Thecla, uma prisioneira nobre condenada à tortura, vemos surgir a primeira grande rachadura em sua lealdade — e, teoricamente, o ponto de virada do personagem.

Só que essa complexidade inicial dá lugar a um roteiro repetitivo: Severian segue viagem após ser expulso da guilda, vivendo aventuras episódicas, conhecendo personagens (geralmente mulheres que se encantam por ele sem muito esforço narrativo), dominando habilidades com espadas quase do nada e avançando rumo a um tal “destino grandioso” que nunca se justifica de forma convincente. É como se o personagem passasse de promissor a uma caricatura de herói trágico num piscar de olhos.

Narrativa densa ou apenas dispersa?

Muito se diz que Wolfe é um autor “difícil”. Mas A Sombra do Torturador não é, em si, um livro complicado. Ele apenas exige atenção e, talvez, um dicionário por perto — principalmente porque o autor adota uma linguagem arcaica e evita qualquer glossário ou explicação direta. Isso não é um problema por si só. O que realmente pesa é o ritmo quebrado, o excesso de digressões e o enredo que mais parece um mosaico de cenas do que uma trama que progride.

A escrita, muitas vezes louvada como brilhante, soa ornamental demais após certo ponto, perdendo impacto à medida que Wolfe se afasta da construção dramática inicial e se entrega a um desfile de personagens misteriosos e situações mal resolvidas.

Sexualidade e representação: o velho problema de sempre

Um dos pontos mais desconfortáveis da leitura é o tratamento dado às personagens femininas. Não é apenas o fato de Severian se apaixonar por praticamente toda mulher que encontra — o que, convenhamos, já seria cansativo. É a forma como o autor insiste em descrever constantemente seios, quadris e outras partes do corpo feminino com um olhar quase obsessivo. As mulheres são, em sua maioria, coadjuvantes sexuais, moldadas para se entregar ao protagonista com pouca ou nenhuma construção.

Esse olhar masculino antiquado é algo comum em parte da ficção científica clássica, mas não deveria ser normalizado. Em pleno século XXI, o status de “clássico” precisa ser questionado quando o que se vê é uma sucessão de mulheres bidimensionais e erotizadas ao redor de um protagonista egocêntrico e mal desenvolvido.

E afinal, por que ele está contando essa história?

Outro ponto que enfraquece a experiência é a própria estrutura da narrativa. Sabemos que Severian é um narrador não confiável. Sabemos também que Wolfe, dentro da lógica do livro, se coloca como o “editor” do manuscrito original. Mas… qual o propósito da história que nos é contada? Qual o contexto? Por que deveríamos confiar em qualquer coisa dita? A ausência de pistas ou direção sobre as intenções do protagonista (ou do próprio autor) acaba tornando a leitura frustrante, especialmente para quem não pretende seguir com os outros volumes.

Crítica – Com Unhas e Dentes é pancadaria contra zumbis em ritmo de ação frenética — e nada além disso

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Foto: Reprodução/ Internet

Imagine que o apocalipse zumbi começou… e quem está no centro do caos não é um soldado, nem um cientista genial, muito menos um sobrevivente comum. Quem pega a linha de frente aqui é um ex-lutador de Muay Thai, pronto para meter o cotovelo na fuça de morto-vivo. Assim é “Com Unhas e Dentes”, o novo longa tailandês que chega à Netflix com a missão de entreter sem prometer mais do que pode — e cumpre isso com sangue, suor e muitos chutes na cabeça.

💥 Pancadaria sincera, do jeito que a gente gosta

Dirigido por Kulp Kaljareuk, o filme não tenta reinventar o apocalipse. Ele sabe exatamente o que está fazendo: mistura dois gêneros adorados — zumbis frenéticos e artes marciais coreografadas — e entrega tudo isso num ritmo acelerado e sem frescura. A história é simples, direta e eficaz: Singh, vivido por Prin Suparat, só quer resgatar sua esposa, Rin, presa no hospital onde o surto começou. No caminho, encontra um menino perdido, algumas centenas de infectados famintos e muitas desculpas para descer a porrada.

🧠 Profundidade? Aqui não, irmão.

Com Unhas e Dentes não está interessado em metáforas, críticas sociais ou construção filosófica do apocalipse. Ele deixa isso pros filmes cabeça. Aqui, a narrativa é um videogame em carne e osso: missão, inimigos, lutas e o bom e velho “salvar quem se ama”. O roteiro de Nut Nualpang e Vathanyu Ingkawiwat aposta no clichê com convicção — e isso é parte do charme.

🤜 Zumbi não tem vez contra chute giratório

O que realmente diferencia o longa é a ação. Nada de armas mirabolantes ou explosões genéricas. O protagonista resolve tudo com o próprio corpo como arma. As lutas são coreografadas com precisão, ritmo e impacto. Singh transforma cada corredor do hospital em ringue, com zumbis servindo de saco de pancadas. É brutal, estiloso e, em alguns momentos, até engraçado — do jeito bom.

Se você é fã de filmes como Ong-Bak, Invasão Zumbi ou até aqueles clássicos de ação dos anos 90, vai se sentir em casa. E a fotografia não decepciona: câmera nervosa, muita sombra, closes em olhos arregalados e sangue espirrando como se fosse tinta de aquarela dark.

🧒 Um trio que segura a missão

Singh, Rin e o pequeno Buddy formam o trio que conduz a trama. Não espere profundidade psicológica — mas há carisma. Singh é um herói raiz, movido pela coragem bruta. Rin cumpre bem o papel de resistência emocional. E Buddy… bom, ele é a criança em perigo que serve de motor emocional (e faz a gente lembrar que zumbi e afeto nem sempre combinam).

Crítica | A Mulher que Nunca Existiu: quando desaparecer é a única maneira de existir

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Foto: Reprodução/ Internet

Com estreia celebrada na seleção oficial do Festival de Veneza, o longa A Mulher que Nunca Existiu (Aïcha, no original), do cineasta tunisiano Mehdi Barsaoui, parte de uma premissa potente: e se a única chance de viver for desaparecer? A proposta é provocadora — uma jovem que sobrevive a um acidente fatal e decide abandonar sua vida, seu nome, sua história —, mas o desenvolvimento da trama, embora envolvente em muitos momentos, oscila entre o drama íntimo e a denúncia social sem encontrar o equilíbrio ideal.

Aya, interpretada com intensidade contida por Lili Farhadpour, é uma mulher nos seus vinte e poucos anos, presa a uma existência sufocante no sul da Tunísia: mora com os pais, vive sob regras conservadoras, e seu trabalho em um hotel turístico é sua única conexão com o mundo exterior. Quando a van que a transporta diariamente sofre um grave acidente, e ela se vê como única sobrevivente, surge a primeira reviravolta: a chance de recomeçar do zero. Aya foge, muda de cidade, assume outra identidade e se torna Aïcha. É aí que o filme começa — e também onde ele se divide.

A nova vida, feita de silêncios, receios e pequenos rituais de adaptação, é apresentada com sensibilidade. Há uma riqueza nos detalhes, no modo como a personagem aprende a caminhar em um novo ritmo, como se ajusta ao anonimato, como testa a liberdade que nunca teve. No entanto, a narrativa parece hesitar quando se trata de expandir essa experiência para além do seu drama pessoal.

A segunda grande virada da trama — quando Aïcha testemunha um caso de violência policial — traz de volta a tensão social e política que o filme ensaia explorar. Mas essa subtrama, que poderia alavancar o longa para um outro patamar de contundência, é tratada com um certo distanciamento, quase como se Barsaoui temesse deixar o terreno seguro do drama existencial e mergulhar mais fundo na crítica sistêmica.

O resultado é um filme visualmente refinado, com direção segura e atuações intensas, mas que parece podar o próprio impacto. Os dilemas morais da protagonista — entre manter sua liberdade ou se tornar testemunha de uma injustiça — são relevantes e dolorosos, mas faltam camadas ao conflito. O roteiro não se compromete totalmente nem com a transformação individual, nem com o embate político. Fica entre os dois, e acaba enfraquecendo ambos.

Outro ponto que merece atenção é o ritmo. A primeira metade do filme, focada na fuga e reinvenção de Aya, é envolvente e bem conduzida. Mas ao chegar ao segundo ato, o enredo perde um pouco de fôlego, como se não soubesse exatamente para onde conduzir sua protagonista. Faltam tensão dramática real, escolhas difíceis visíveis em cena, e consequências mais agudas.

Ainda assim, A Mulher que Nunca Existiu é um filme importante. Porque fala, mesmo que com moderação, de uma geração de mulheres árabes que tentam escapar de narrativas impostas, de vidas pré-determinadas, de ausências que doem mais do que a presença. É um filme que merece ser visto, debatido, reconhecido — mesmo que, no fim, deixe a sensação de que poderia ter ido mais longe, gritado mais alto, e feito da sua protagonista muito mais do que apenas uma metáfora da invisibilidade.

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