Crítica – Dolly une trauma psicológico e horror bruto em uma experiência desconfortável

Dolly: A Boneca Maldita, dirigido por Rod Blackhurst e coescrito por Brandon Weavil, tenta equilibrar duas forças que raramente caminham em harmonia no horror contemporâneo: o terror psicológico baseado em trauma e o horror físico de estética suja e exploitation. O resultado é um filme irregular, mas com personalidade suficiente para causar impacto, ainda que nem sempre da forma mais refinada.

O mal nasce do trauma ou o filme explica demais?

A narrativa parte de uma ideia clássica do gênero: a origem do mal ligada a um passado de dor, abusos e perdas. Dolly surge como uma figura moldada por esse histórico, o que transforma sua violência em algo quase inevitável. O filme claramente tenta humanizar o monstro, sugerindo que há uma criança ferida por trás da criatura.

Essa escolha adiciona uma camada emocional interessante, mas também tira parte do mistério que costuma sustentar o horror mais eficaz. Ao tentar explicar demais, o roteiro reduz o espaço do desconhecido e transforma o medo em algo mais previsível do que deveria ser. Em alguns momentos, o filme funciona melhor quando apenas sugere em vez de explicar.

Macy e o horror que também é interno

No outro eixo da história está Macy, interpretada por Fabienne Therese, vivendo um relacionamento com Chase, papel de Seann William Scott. A relação entre os dois aponta para uma possível vida familiar, mas Macy demonstra insegurança diante desse futuro.

Essa hesitação não é apenas romântica ou existencial. O filme usa essa dúvida como espelho do terror principal, criando uma leitura simbólica interessante: o medo de assumir um novo papel na vida adulta se mistura ao medo literal da entidade. O horror aqui não é apenas externo, mas também psicológico.

Mesmo que essa conexão nem sempre seja aprofundada com consistência, ela é um dos pontos mais humanos da narrativa, especialmente quando o filme desacelera e permite que esses conflitos respirem.

Dolly é mais assustadora quando não precisa ser explicada

A própria Dolly é o elemento mais marcante da produção. Mesmo sem grande repertório verbal, a personagem se impõe pela presença física. Seus movimentos, ruídos e comportamento irregular criam uma figura desconfortável, quase animalesca, que mistura traços de cuidado maternal com brutalidade extrema.

É nesse contraste que o filme encontra seus melhores momentos. Quando Dolly simplesmente existe em cena, sem precisar ser racionalizada, ela se torna mais ameaçadora do que qualquer tentativa de explicação sobre sua origem.

O problema de explicar demais o horror

O filme oscila entre duas abordagens: o mistério e a causalidade. Quando tenta justificar cada aspecto da violência de Dolly, perde parte do impacto. Quando aceita o silêncio e o inexplicável, se aproxima de um terror mais interessante.

Essa tensão interna entre explicar e sugerir acaba definindo a experiência como um todo. O longa claramente acredita que o público precisa entender a origem do mal, mas o gênero muitas vezes funciona melhor quando não entrega todas as respostas.

Violência gráfica: impacto ou repetição?

Visualmente, o filme aposta em uma estética de horror cru, com cenas de violência explícita e forte uso de efeitos práticos. Há momentos em que isso funciona muito bem, criando impacto imediato e reforçando o clima de perigo constante.

Por outro lado, quando a violência aparece sem construção de tensão, ela perde força e se torna repetitiva. O choque visual existe, mas nem sempre é sustentado por narrativa ou atmosfera.

Um dos maiores méritos do filme está na sua estética. A escolha pelo visual em 16mm cria uma sensação de decadência constante, como se estivéssemos assistindo a algo perdido no tempo. A textura da imagem reforça o desconforto, com uma atmosfera de sujeira, isolamento e insanidade.

Esse aspecto visual aproxima o filme do horror exploitation mais clássico, aquele que não busca elegância, mas sim impacto sensorial. É uma decisão estética que combina com a proposta do longa.

Quando o roteiro enfraquece a tensão

Se a estética é um ponto forte, o roteiro nem sempre acompanha. Algumas decisões dos personagens são difíceis de justificar e acabam quebrando a imersão. Em certos momentos, o comportamento parece mais guiado pela necessidade da trama do que por lógica interna.

Esse tipo de problema enfraquece o suspense, porque diminui a credibilidade da ameaça. Em um terror que depende tanto da tensão, isso pesa bastante.

Ritmo irregular e excesso de repetição

O filme também sofre com um ritmo desigual. A construção inicial é lenta, o desenvolvimento psicológico é interessante, mas a transição para o caos não mantém a mesma energia. Em alguns momentos, a narrativa entra em repetição, dependendo demais de violência e choque para sustentar o interesse.

O subgênero dos bonecos ainda tem espaço?

Dentro do território dos brinquedos assassinos, já explorado por franquias como Annabelle, Chucky e até produções recentes como M3GAN, é difícil se destacar. Dolly não reinventa o subgênero, mas tenta deslocá-lo para um campo mais psicológico.

Essa tentativa é válida, mesmo que nem sempre bem desenvolvida. O filme ao menos busca uma identidade própria em meio a fórmulas já conhecidas.

Experiência desconfortável acima de tudo

No fim, Dolly: A Boneca Maldita funciona mais como experiência sensorial do que como narrativa bem amarrada. Ele não é consistente, nem totalmente refinado, mas tem momentos de força estética e ideias interessantes sobre trauma, violência e identidade.

Crítica – 100 Noites de Desejo é uma fantasia feminista visualmente rica que se perde no próprio excesso de ideias

100 Noites de Desejo chega com uma proposta ambiciosa e, em muitos momentos, realmente chama atenção pelo cuidado visual e pela trama que constrói. Há um trabalho de direção de arte bastante elaborado, uma fotografia que ajuda a criar um universo de conto de fadas sombrio e uma tentativa clara de transformar ideias complexas em fantasia simbólica. No início, isso funciona bem e desperta curiosidade sobre o que está por vir.

O filme também parte de temas importantes e muito atuais. Ele fala sobre patriarcado, controle dos corpos femininos, violência estrutural e silenciamento histórico das mulheres. São assuntos fortes e que têm bastante potencial dentro de uma narrativa fantástica, especialmente quando trabalhados de forma simbólica e visual.

O problema é que, com o passar do tempo, o filme parece confiar menos na força das imagens e mais na necessidade de explicar tudo o que está dizendo. Em vez de deixar que o espectador interprete e sinta, a narrativa acaba reforçando suas ideias de forma constante. Isso tira parte da sutileza e faz com que a crítica social soe repetitiva em alguns momentos. Personagens também ficam presos em funções muito claras dentro da história, sem muita ambiguidade ou profundidade.

Na segunda metade, essa sensação se intensifica de forma evidente.

O que antes parecia uma fantasia sombria promissora começa a se transformar em uma sequência de escolhas narrativas que nem sempre se sustentam. A cena em que a lua desce para conduzir o casal ao paraíso e depois os transforma em estrelas é um exemplo disso. A ideia é poética, mas a execução não acompanha a grandiosidade que a cena parece querer alcançar. Em vez de emoção ou transcendência, o resultado acaba gerando estranhamento. O mesmo acontece no desfecho romântico nesse paraíso, que soa mais como uma colagem estética do que como um encerramento realmente construído.

Outro ponto que pesa é a dificuldade do filme em equilibrar suas próprias intenções. Ele tenta ser fantasia, romance, alegoria feminista e drama ao mesmo tempo, mas nem sempre consegue unir essas camadas de forma orgânica. O tom varia bastante, o humor aparece em momentos que nem sempre conversam com o resto da obra e a mitologia desse universo surge de forma apressada, sem o desenvolvimento necessário para criar envolvimento real.

Existe um mundo interessante ali, mas ele chega mais como algo explicado do que como algo descoberto aos poucos. Isso afeta a experiência, porque tira a sensação de imersão. A estética continua sendo um dos pontos fortes, mas em alguns momentos também passa uma impressão de artificialidade, como se estivéssemos vendo uma versão reduzida de uma história que poderia ser mais rica.

Um dos aspectos mais frustrantes é como a contagem regressiva dos cem dias vai perdendo força ao longo da narrativa. Um elemento que poderia sustentar a tensão dramática acaba ficando em segundo plano justamente quando mais deveria importar, e o filme acaba enfraquecendo suas próprias regras internas.

Ainda assim, há méritos claros. O elenco entrega boas atuações dentro da proposta e a construção visual do universo é consistente em vários momentos. Quem conhece a graphic novel original pode inclusive encontrar mais camadas de significado, já que parte importante dessa riqueza vem do material de origem.

No fim, 100 Noites de Desejo é uma obra que impressiona pelo que sugere, mas se perde no caminho entre a ideia e a execução. É bonito de ver, interessante de acompanhar em alguns momentos, mas deixa a sensação de que poderia ter sido muito mais impactante se confiasse um pouco mais no próprio universo e um pouco menos na necessidade de explicar tudo o tempo todo.

Crítica – O Afinador transforma a música em uma ferramenta de suspense elegante e envolvente

O Afinador chama atenção por encontrar uma forma diferente de construir suspense. Em vez de recorrer a perseguições constantes ou a uma sequência interminável de reviravoltas, o filme coloca a audição de seu protagonista no centro da história. O som deixa de ser apenas um complemento das cenas e passa a influenciar diretamente cada decisão, cada risco e cada momento de tensão.

A história acompanha um jovem afinador de pianos que enfrenta dificuldades financeiras e acaba sendo envolvido por um grupo especializado em roubos a cofres. Sua capacidade de identificar sons e frequências com precisão transforma uma habilidade ligada à música em uma ferramenta valiosa para o crime. O roteiro trabalha bem essa transformação, mostrando como o personagem se vê cada vez mais distante da vida que imaginava para si.

Leo Woodall sustenta grande parte do filme com uma interpretação que combina vulnerabilidade e confiança na medida certa. O ator convence tanto nos momentos ligados à música quanto nas cenas em que o personagem precisa lidar com as consequências de suas escolhas. A química com Havana Rose Liu acrescenta humanidade à narrativa e faz com que os relacionamentos tenham peso real dentro da trama.

Entre os coadjuvantes, Dustin Hoffman aproveita bem cada aparição. Mesmo com pouco tempo em cena, sua presença ajuda a dar mais densidade à história. Já Herbie Hancock surge como um reforço natural para um filme que mantém uma relação tão próxima com o universo musical.

O trabalho de som é, sem dúvida, um dos aspectos mais interessantes da produção. Há cenas em que o espectador percebe que ouvir atentamente é tão importante quanto observar o que está acontecendo na tela. Pequenos ruídos, pausas e variações sonoras ajudam a criar desconforto e antecipação, tornando algumas sequências mais envolventes do que seriam apenas com imagens.

Nem tudo funciona com a mesma força. Conforme a narrativa avança, as cenas envolvendo a abertura dos cofres começam a seguir uma estrutura muito parecida, reduzindo parte do impacto que tinham no início. Ao mesmo tempo, os conflitos pessoais dos personagens despertam mais interesse e poderiam ter recebido maior atenção do roteiro.

Ainda assim, O Afinador encontra um bom equilíbrio entre suspense e drama. É um filme que confia mais nos personagens do que nos excessos visuais, valoriza os detalhes e encontra maneiras criativas de usar a música dentro da narrativa. Mesmo sem reinventar o gênero, entrega uma história envolvente, bem interpretada e capaz de permanecer na memória após os créditos finais.

Crítica – Shadow Force decepciona com narrativa previsível e produção sem brilho

Foto: Reprodução/ Internet

Quando um filme de ação chega às telas, as expectativas naturalmente envolvem adrenalina, sequências eletrizantes e personagens que cativam o público. Infelizmente, Shadow Force não consegue cumprir essa promessa e acaba se tornando uma experiência decepcionante, mesmo contando com um elenco talentoso.

Logo no início, o filme já apresenta um problema básico que dificulta a imersão do espectador: um erro de continuidade que passa despercebido apenas por quem não está atento. Uma assassina de aluguel executa um tiro perfeito a longa distância, e o homem cai morto. Porém, segundos depois, a mesma cena é contraditada por um enquadramento que não faz sentido dentro da lógica apresentada. Pequenos detalhes como esse parecem simples, mas refletem uma falta de cuidado que se repete ao longo do filme.

Omar Sy, que carrega no nome o peso de seu talento e carisma, interpreta mais uma vez um personagem americano de origem senegalesa — uma escolha que, apesar de trazer representatividade, não se aprofunda em camadas ou singularidades. O roteiro, infelizmente, não oferece a complexidade necessária para que o ator explore seu potencial, deixando-o preso a um papel que se encaixa no molde padrão de heróis de ação contemporâneos.

A trama parte de uma premissa com potencial: um casal de agentes secretos, traídos por sua própria agência, foge com o filho para sobreviver. No entanto, a narrativa rapidamente se perde em clichês batidos — o “último trabalho antes da aposentadoria”, o “mentor corrompido”, a “fuga em família” — fórmulas já vistas inúmeras vezes e que pouco acrescentam ao gênero. O roteiro não surpreende, tampouco emociona, entregando reviravoltas previsíveis e diálogos genéricos.

Visualmente, Shadow Force também decepciona. A direção, que deveria conduzir o ritmo frenético típico do gênero, tropeça em cenas confusas e mal iluminadas, onde o espectador acaba por perder a noção dos movimentos e da ação. Um exemplo é a tentativa de coreografar uma luta entre o casal protagonista — a sequência é tão escura e desordenada que se torna praticamente ilegível. A fotografia opaca e os cenários genéricos — galpões, florestas e motéis — colaboram para a sensação de que o filme poderia se passar em qualquer lugar do mundo, sem deixar qualquer marca.

Outro ponto que chama a atenção — e gera desconforto — é uma sequência de violência em uma igreja. O ataque, brutal e gratuito, parece deslocado da trama e levanta questões importantes sobre representatividade e as escolhas narrativas feitas pelo filme. A violência ali parece mais uma decisão calculada do que uma necessidade para o desenvolvimento da história.

No elenco de apoio, os personagens secundários funcionam mais como elementos utilitários para movimentar a trama do que figuras com personalidade ou complexidade. O vilão principal, por sua vez, se apresenta como uma caricatura, o que diminui o peso do conflito e a tensão que deveria carregar.

Apesar das limitações do filme, Omar Sy mostra comprometimento e entrega uma atuação sólida — especialmente em uma cena de confronto verbal, onde seu talento brilha com mais intensidade e autenticidade, oferecendo um raro momento de verdade em meio à produção.

No balanço geral, Shadow Force acaba se tornando um filme que não consegue se afirmar nem como entretenimento eficiente nem como uma obra original dentro do gênero. É uma produção que soa desgastada e pouco inspirada, que poderia ter sido melhor com um roteiro mais ousado e uma direção mais atenta.

Para o público que acompanha a carreira de Omar Sy, o filme é um lembrete de que até mesmo grandes atores podem enfrentar projetos que não fazem jus ao seu potencial. Para os fãs do cinema de ação, resta a frustração de assistir a um produto que parece mais um trabalho automático do que uma obra pensada para envolver e emocionar.

Shadow Force pode até preencher algumas horas de tela, mas dificilmente deixará uma marca significativa na memória do público.

Crítica | Tron: Ares é visualmente atraente, mas narrativamente vazio

Tron: Ares chega aos cinemas com a responsabilidade de carregar o legado de uma das franquias mais icônicas da ficção científica digital. O filme, no entanto, rapidamente demonstra que seu maior problema não é a ambição, mas a execução. Tentando equilibrar duas frentes — reviver a estética digital que marcou o universo Tron e dialogar com questões contemporâneas sobre tecnologia e sociedade —, a produção acaba sendo um híbrido confuso, incapaz de cumprir plenamente qualquer uma dessas propostas. O resultado é um filme que impressiona visualmente, mas carece de substância narrativa, oferecendo nostalgia sem propósito.

O primeiro Tron se destacou por sua ousadia estética e pela criação de um universo digital coerente, quase surreal, que se sustentava por ideias originais e um design inovador. Tron: Ares parece ter esquecido essa lição. A decisão de transpor a ação digital para o mundo real, que poderia gerar sequências memoráveis e eletrizantes, é tratada de forma segura e previsível. As perseguições de motos digitais pelo trânsito urbano, por exemplo, parecem coreografadas mais para impressionar visualmente do que para criar tensão ou emoção. Há momentos em que a tecnologia é exibida como fim em si mesma, em vez de instrumento para narrativa ou desenvolvimento de personagens.

Mesmo os poucos pontos positivos, como a trilha sonora, não conseguem sustentar a experiência. A música, de fato grandiosa e energética, tenta preencher lacunas narrativas e emocionais, mas funciona mais como um colchão sonoro para o vazio da história do que como elemento integrador. Algumas sequências parecem mais clipes estilizados do que partes de uma narrativa coerente, evidenciando a fragilidade estrutural do roteiro.

Narrativamente, Tron: Ares é superficial. Os personagens se movem sem motivações claras, e os diálogos pouco inspirados não ajudam na construção de empatia. O filme insinua reflexões sobre a obsessão tecnológica, o consumismo e o hype midiático, mas não se aprofunda. Os temas permanecem na superfície, sem impacto dramático, sem consequências para a trama e, sobretudo, sem criar sentido para a audiência.

O apego à nostalgia é evidente e paradoxalmente prejudicial. Referências ao passado lembram o público do quão ousado o original foi, mas não acrescentam nada de novo. Em vez de expandir o universo, o filme repete fórmulas seguras, evitando riscos criativos e desperdiçando o potencial de um mundo que poderia ter sido explorado de maneiras mais inventivas e corajosas. Cada piscadela ao passado funciona mais como comparação do que como homenagem.

O maior déficit de Tron: Ares é emocional. Sem personagens memoráveis ou tensão real, o filme falha em criar qualquer conexão duradoura com o espectador. Efeitos visuais e conceitos futuristas não substituem a narrativa ou a capacidade de envolver emocionalmente. Um Tron memorável sempre foi sobre imersão: um mundo digital fascinante em que estética, enredo e ideias se entrelaçam. Aqui, cada elemento parece isolado, incapaz de formar um todo coeso.

Em última análise, Tron: Ares se apresenta como um espetáculo visual, mas padece de substância. Poderia ter sido um renascimento ousado de um universo icônico, mas se transforma em uma experiência superficial, dominada por nostalgia e efeitos sem propósito. Visualmente competente e, em certos momentos, esteticamente prazeroso, o filme fracassa em construir história, tensão e personagens. É uma oportunidade perdida que evidencia a dificuldade de inovar em franquias consagradas: é mais fácil repetir fórmulas do que ousar.

Crítica – O Beijo da Mulher-Aranha é um musical visualmente elegante, mas emocionalmente vazio

A nova adaptação de O Beijo da Mulher-Aranha (2025) dialoga com o imaginário dos grandes musicais hollywoodianos da década de 1950, mas tropeça justamente naquilo que deveria sustentar sua potência: a densidade emocional e a complexidade dramática. Embora elegante em sua forma, o filme se perde em explicações excessivas e escolhas narrativas contraditórias que diluem sua força política e afetiva.

Há divergências quanto à principal matriz dessa releitura. Enquanto alguns a veem como uma atualização direta do filme homônimo de 1985, dirigido por Héctor Babenco, outros identificam maior proximidade com o musical da Broadway. Independentemente dessa origem, é evidente que ambas as versões convergem nesta nova encenação comandada por Bill Condon. Conhecido por musicais de forte apelo visual, como Dreamgirls, o diretor demonstra domínio técnico e senso estético refinado, entregando uma fotografia sofisticada e um desenho de produção impecável. No entanto, esse rigor formal não encontra respaldo em um roteiro que opta pela literalidade, pelo didatismo e por uma recusa sistemática à ambiguidade.

Ambientada nos anos 1970, a narrativa se desenrola em meio a um contexto de repressão política e autoritarismo estatal na América Latina, marcado pela perseguição a opositores do regime, pela censura e pela criminalização de corpos dissidentes. É nesse cenário que se encontram Molina, interpretado por Tonatiuh Elizarraraz, um homem gay sensível, afetuoso e profundamente ligado ao cinema, e Valentín, vivido por Diego Luna, um militante político encarcerado por sua atuação revolucionária. Ao dividirem a mesma cela, os dois constroem uma relação atravessada por convivência forçada, escuta mútua e tensões ideológicas, que poderia suscitar reflexões contundentes sobre poder, afeto, preconceito e instrumentalização.

A relação de Molina com o cinema não emerge da fantasia gratuita, mas da memória afetiva. Filho de uma mulher que trabalhava em uma sala de exibição, ele cresceu imerso em filmes e narrativas que moldaram sua forma de sentir e compreender o mundo. É dessa herança emocional que nascem os momentos musicais que atravessam o longa. O vínculo entre Molina e sua mãe, embora pouco explorado, figura entre os elementos mais orgânicos do filme, apontando o cinema como espaço de afeto, refúgio emocional e continuidade simbólica.

É nesse universo de lembranças que surge Aurora, personagem retirada de um dos filmes assistidos por Molina e interpretada por Jennifer Lopez. Longe de ser uma figura abstrata, Aurora habita a memória cinematográfica do protagonista e, ao longo da narrativa, também assume a dimensão simbólica da Mulher-Aranha. Essa sobreposição de sentidos, que envolve personagem fictícia, memória afetiva e alegoria do desejo e da sobrevivência emocional, constitui uma das ideias mais instigantes do filme, ainda que permaneça subdesenvolvida e pouco integrada ao arco dramático.

Uma das decisões mais problemáticas da adaptação está na tentativa de romantizar a relação entre Molina e Valentín. Ao suavizar essa dinâmica, o filme esvazia a ambiguidade ética que sustentava o conflito original. A relação, antes marcada por assimetrias, interesses cruzados e tensões morais, é reconfigurada sob uma chave mais conciliadora, o que enfraquece sua dimensão política e evidencia as hipocrisias sociais que o filme parece querer denunciar.

Na versão de 1985, havia uma honestidade desconfortável na maneira como esse vínculo se estabelecia. O encontro era breve, atravessado por desejo, afeto e também por instrumentalização mútua. Ao abdicar dessa complexidade, o filme de 2025 perde parte de seu caráter provocador e de sua capacidade de inquietar o espectador.

As sequências musicais associadas a Aurora evocam o glamour dos musicais clássicos dos anos 1950 e dialogam com um contexto histórico de silenciamento e repressão das dissidências sexuais e políticas. Ainda assim, o filme demonstra excessiva preocupação em explicar seus símbolos e intenções, subestimando a inteligência do público e comprometendo a fluidez narrativa.

Em comparação com o longa de Babenco, protagonizado por William Hurt, Raúl Juliá e Sônia Braga, esta nova versão carece da mesma força poética e do engajamento político que emergiam com maior naturalidade, sem necessidade de constantes sublinhados narrativos.

Entre as atuações, Jennifer Lopez revela empenho e entrega às personagens que interpreta, mas sua presença em cena carece de impacto emocional duradouro. Assim como o filme em si, suas aparições impressionam visualmente, mas não conseguem gerar envolvimento afetivo. O resultado é uma obra esteticamente bela, porém emocionalmente distante.

Apesar das referências explícitas ao musical clássico e da experiência de Bill Condon com o gênero, O Beijo da Mulher-Aranha se mostra uma obra desequilibrada. Investe na superfície, na estilização e na explicação excessiva, mas falha justamente onde deveria ser mais incisiva: na construção dramática, na ambiguidade moral e na força política que historicamente definiram essa história.

Crítica – “Pânico 7” tropeça no próprio legado e entrega o desfecho mais fraco da franquia

Depois de décadas transformando a máscara de Ghostface em símbolo máximo do terror metalinguístico, a franquia chega ao seu capítulo mais problemático com Pânico 7. O retorno de Sidney Prescott, novamente interpretada por Neve Campbell, tinha tudo para ser um reencontro poderoso com as origens da saga. Em vez disso, o que se vê é um filme que oscila entre a nostalgia fácil e decisões criativas que enfraquecem perigosamente o próprio mito que tenta sustentar.

A premissa é promissora. Um novo Ghostface surge para atormentar Sidney, agora vivendo em uma cidade pacata e dedicada à criação da filha. A ameaça deixa de ser apenas pessoal e passa a atingir diretamente sua família, elevando o conflito emocional. O roteiro sugere que este será o confronto definitivo com os traumas do passado. Porém, a execução raramente alcança a profundidade que a ideia promete.

A tentativa de atualizar o terror com elementos contemporâneos, como deepfakes, sistemas de segurança e vigilância digital, parece mais um recurso superficial do que uma real reinvenção narrativa. A tecnologia é usada como enfeite temático, mas não é explorada com inteligência suficiente para gerar tensão consistente. Em vários momentos, ela surge como solução conveniente ou como desculpa para reviravoltas pouco orgânicas.

O longa também aposta na nostalgia como muleta. Personagens antigos retornam, referências se acumulam e o discurso sobre legado é repetido à exaustão. O problema é que essa reverência ao passado não vem acompanhada de novas ideias à altura. A franquia sempre foi conhecida por brincar com as regras do slasher e subverter expectativas. Aqui, a sensação é de repetição. Dois assassinos sob a máscara, motivações mirabolantes e um jogo de suspeitas que parece reciclado de capítulos anteriores.

Durante boa parte da projeção, o filme até consegue prender a atenção. A condução é ágil e há sequências violentas bem coreografadas, mantendo a tradição sangrenta da série. No entanto, o ritmo é irregular. Personagens se deslocam de um ponto a outro com conveniência quase sobrenatural quando a trama precisa acelerar, mas tornam-se inexplicavelmente lentos quando o suspense exige tensão gradual. Essas falhas de continuidade quebram a imersão e evidenciam descuidos estruturais.

A direção de Kevin Williamson demonstra domínio do universo que ajudou a criar, mas encontra dificuldade em fechar a própria proposta. A constante tentativa de enganar o público, multiplicando pistas falsas e suspeitos descartáveis, acaba diluindo o impacto da revelação. Em vez de surpreender, o filme cansa.

E é no desfecho que “Pânico 7” realmente desmorona. Depois de preparar o terreno para um confronto grandioso com o legado de Ghostface, a revelação dos vilões soa desproporcional ao que foi sugerido. As motivações beiram o absurdo e não sustentam o peso dramático que a narrativa tenta impor. O clímax, que deveria ser catártico, torna-se anticlimático e frustrante. A sensação é de que todas as possibilidades já foram exploradas, reutilizadas e esgotadas.

O resultado é o final mais frágil da franquia. Não por falta de sangue ou de reviravoltas, mas pela ausência de impacto real. O terror sempre foi eficaz quando conseguia equilibrar crítica ao gênero, suspense genuíno e personagens carismáticos. Aqui, sobra autoconsciência e falta frescor.

“Pânico 7” ainda oferece entretenimento momentâneo e algumas sequências intensas, mas evidencia que a saga pode ter entrado em um ciclo de desgaste criativo. Quando a maior surpresa de um filme é perceber que ele já não consegue surpreender, talvez seja hora de questionar se o legado está sendo honrado ou apenas prolongado por insistência.

Crítica – Ataque Brutal tenta ser realista, mas se afoga no próprio absurdo com tubarões

Tem filmes que abraçam o absurdo e funcionam justamente por isso. Outros tentam ser sérios, realistas, quase documentais… e acabam tropeçando quando exageram na dose. Ataque Brutal, novo título da Netflix, fica preso exatamente nesse limbo desconfortável. Ele quer parecer um retrato cru de uma tragédia climática, mas ao mesmo tempo joga tubarões gigantes no meio da história como se isso fosse a coisa mais natural do mundo.

A premissa até chama atenção. Uma cidade litorânea é atingida por um furacão de categoria máxima, daqueles que deixam um rastro de destruição difícil de ignorar. Casas alagadas, ruas virando rios, pessoas isoladas, energia cortada. O início funciona. Existe uma sensação de caos real, de perigo iminente, de que algo sério está acontecendo. Por alguns minutos, o filme parece que vai seguir um caminho mais tenso, quase angustiante.

Só que essa expectativa dura pouco.

Quando o realismo afunda e o absurdo assume o controle

Quando os tubarões começam a aparecer nas águas da cidade, Ataque Brutal muda completamente de tom e parece não perceber isso. O problema não é nem a ideia em si. O cinema já mostrou várias vezes que conceitos absurdos podem render ótimos filmes quando existe consciência do próprio exagero. Aqui, no entanto, falta essa noção.

O longa continua tentando se levar a sério, mesmo quando a situação já passou do ponto do plausível. E isso quebra a experiência. Em vez de gerar tensão, muitos momentos acabam soando involuntariamente cômicos. Não porque sejam engraçados de propósito, mas porque é difícil comprar a lógica do que está acontecendo.

O espetáculo do exagero que prende, mas também cansa

Ao mesmo tempo, existe algo curioso. Mesmo com todos os problemas, o filme consegue prender a atenção. E isso acontece por um motivo bem simples: o espetáculo do absurdo. Cada novo ataque de tubarão vira quase um evento. Você sabe que vai exagerar, sabe que provavelmente não faz muito sentido, mas ainda assim quer ver até onde o filme vai.

E ele vai longe.

As cenas de ataque apostam em um nível de violência que, em vários momentos, beira o desnecessário. Não é aquele tipo de brutalidade que serve à história ou aos personagens. É mais um recurso para chocar, para causar impacto imediato. Funciona em partes, mas também cansa. Chega uma hora em que parece repetitivo, como se o filme dependesse disso para se manter interessante.

Efeitos visuais irregulares que revelam mais do que escondem

Tecnicamente, o filme também oscila bastante. O uso de efeitos visuais é inconsistente. Em algumas cenas, os tubarões até convencem, especialmente quando aparecem de forma mais sugerida, escondidos na água turva. Nessas horas, o suspense cresce e o filme mostra que poderia ter seguido um caminho mais eficiente.

Mas quando resolve mostrar demais, tudo perde força. O CGI entrega o jogo, e o perigo deixa de ser assustador para virar apenas barulho visual.

Personagens esquecíveis em meio ao caos

Outro ponto que pesa é a falta de conexão com os personagens. Em um cenário tão extremo, seria natural se importar com quem está tentando sobreviver. Só que o filme não dedica tempo suficiente para desenvolver essas pessoas. Elas estão ali mais para reagir ao caos do que para viver de fato a história.

Isso faz diferença. Sem envolvimento emocional, as cenas de perigo perdem impacto. Não importa tanto quem vai escapar ou quem não vai, porque o filme não constrói esse vínculo com o público.

Comparações inevitáveis que escancaram as falhas

Inevitavelmente, surgem comparações com produções como Águas Rasas e Predadores Assassinos, que conseguem equilibrar tensão, entretenimento e uma certa lógica interna. “Ataque Brutal” tenta seguir essa linha, mas não alcança o mesmo resultado. Falta controle, falta identidade e, principalmente, falta decidir que tipo de filme quer ser.

No fim, o problema não são os tubarões

No fim das contas, a sensação é de uma oportunidade mal aproveitada. Havia espaço para um thriller de sobrevivência intenso, talvez até angustiante, usando o desastre natural como base. Também havia espaço para um filme assumidamente exagerado, quase divertido no seu absurdo.

Mas ao tentar ser os dois ao mesmo tempo, o longa-metragem acaba não sendo nenhum deles por completo.

Ainda assim, não dá para dizer que é uma experiência totalmente descartável. Existe um certo entretenimento ali, principalmente para quem gosta de filmes caóticos, exagerados e sem muito compromisso com a lógica. É aquele tipo de produção que você assiste mais pela curiosidade do que pela qualidade.

Só não espere coerência.

Porque, no fim, o maior problema de Ataque Brutal não são os tubarões. É a falta de direção clara.

Crítica – O Homem do Saco aposta no terror, mas não convence totalmente

Às vezes, um filme nos faz questionar os critérios usados para chegar aos cinemas. “O Homem do Saco”, dirigido por Colm McCarthy, não só nos deixa com essa pergunta, mas nos faz refletir se o próprio diretor sabia o que estava tentando criar. Vendido como uma “história de fantasmas antiquada”, o longa acaba sendo uma colcha de clichês mal costurados, sem tensão, emoção ou personalidade.

A premissa tem certo potencial: Patrick (Sam Claflin), um inventor em crise, volta para a casa de infância com sua família e começa a ser atormentado por pesadelos e uma entidade misteriosa. Até aí, parece uma fórmula conhecida, mas aceitável. No entanto, a execução é desastrosa. Os sustos previsíveis e os diálogos sem vida tornam difícil qualquer envolvimento emocional com a história.

Nos primeiros quinze minutos, já se percebe que o filme tem apenas dois truques: barulhos ensurdecedores e luzes piscantes. Cada cena que tenta criar tensão se transforma em uma piada involuntária, deixando o espectador mais entediado do que assustado.

O grande antagonista, o temido Homem do Saco, é apresentado como uma figura mística que sequestra apenas crianças boas. Uma ideia intrigante, mas que rapidamente se desfaz com um visual risível. Em vez de provocar calafrios, o monstro parece uma fantasia de Halloween retirada da lixeira de uma loja de descontos.

A construção da mitologia em torno do vilão também é rasa e sem criatividade. O roteiro não explora o suficiente para tornar essa figura verdadeiramente assustadora ou simbólica.

Colm McCarthy, que já mostrou competência em projetos anteriores, parece perdido aqui. O ritmo arrastado, combinado com uma direção apática, faz com que até os momentos de tensão pareçam forçados. O resultado é um filme que se leva a sério demais, sem oferecer nada que justifique essa pretensão.

“O Homem do Saco não é apenas um filme esquecível — é um exemplo de como não se fazer terror. Sem sustos, sem tensão e sem originalidade, o longa deixa uma lição: às vezes, é melhor que certas histórias nunca saiam do papel.

Crítica | O Mundo Depois de Nós é um suspense apocalíptico que aposta na ansiedade e frustra pela falta de respostas

Foto: Reprodução/ Internet

Dirigido e roteirizado por Sam Esmail (Mr. Robot), O Mundo Depois de Nós parte de uma premissa intrigante: o colapso silencioso e súbito do mundo como o conhecemos. Com um elenco de peso — Julia Roberts, Mahershala Ali, Ethan Hawke e Myha’la Herrold — o longa entrega um suspense psicológico que começa promissor, mas termina em frustração e confusão para muitos espectadores.

A trama se inicia de maneira direta: Amanda (Roberts) e Clay (Hawke) levam seus filhos para passar um final de semana em uma luxuosa casa de campo. Mas o clima de tranquilidade se rompe com a chegada inesperada de G.H. (Ali) e sua filha Ruth (Herrold), que afirmam ser os verdadeiros donos do imóvel e alertam sobre um misterioso ataque cibernético. A partir daí, o filme se desenrola em um crescendo de tensão, com indícios de que algo muito maior — talvez alienígena, talvez militar, talvez natural — está se desenvolvendo lá fora.

E é justamente aí que reside o grande atrativo, mas também a principal falha do filme: ele instiga a curiosidade, apresenta hipóteses e teorias apocalípticas pelas vozes dos próprios personagens, mas se recusa a dar respostas concretas. A narrativa é conduzida pela perspectiva de quem está isolado e desinformado, o que funciona bem por um tempo, mas cansa quando percebemos que esse véu de mistério jamais será levantado.

O final, com Ruth assistindo sozinha ao último episódio de Friends em um abrigo subterrâneo, é simbólico — nostálgico, melancólico, mas anticlimático. Em vez de um desfecho, recebemos um gesto quase irônico sobre o conforto ilusório da cultura pop enquanto o mundo desmorona.

Visualmente, o filme tem momentos intensos e perturbadores. Algumas cenas são genuinamente inquietantes, como a debandada de cervos, os aviões caindo e os estranhos ruídos no céu, o que cria um clima quase Lovecraftiano. Esmail domina a construção do suspense atmosférico, mas peca ao não conduzi-lo a um destino claro. O espectador fica preso em um ciclo de ansiedade e especulação, sem catarse.

Baseado no livro de Rumaan Alam, O Mundo Depois de Nós é uma experiência provocativa, mas não para todos. Quem espera uma explicação — ou ao menos um encerramento mais assertivo — pode sair decepcionado. No fim, o filme entrega mais sobre o medo humano do desconhecido do que sobre o próprio fim do mundo.

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