Crítica – Marsupilami: Confusão a Bordo é uma montanha-russa que abraça o absurdo e surpreende

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Se você olhar de longe, Marsupilami: Confusão a Bordo pode parecer apenas mais uma comédia infantil boba e inofensiva. E, de certa forma, o filme realmente abraça essa proposta. A diferença é que ele não trata o público como se fosse incapaz de entender uma piada mais elaborada. Enquanto as crianças podem se divertir com o visual colorido e as situações absurdas, os adultos encontram um humor mais ácido, com algumas piadas que provavelmente vão passar despercebidas pelos mais novos.

O filme sabe exatamente o que quer ser e não tenta esconder sua própria tosquice. A premissa é simples e coloca a história em movimento rapidamente. David, personagem de Philippe Lacheau, recebe a missão de transportar uma carga misteriosa em um cruzeiro rumo à América do Sul. O conteúdo da encomenda, porém, está longe de ser comum: trata-se do Marsupilami, uma criatura amarela extremamente fofa que foi separada de sua família.

A partir daí, diferentes interesses entram em conflito. Enquanto alguns querem capturar o animal para fins científicos, outros fazem de tudo para devolvê-lo à natureza. É nesse cenário que a aventura se desenvolve, misturando perseguições, confusões e uma sucessão de situações cada vez mais absurdas.

A relação entre David e Tess, vivida por Élodie Fontan, é um dos melhores elementos da produção. Os dois atores têm uma boa sintonia em cena, e essa química ajuda a sustentar boa parte da comédia. A dinâmica do casal funciona especialmente bem nos momentos em que o filme deixa a aventura de lado para explorar os conflitos entre os personagens.

Grande parte da história acontece dentro do cruzeiro, e a direção consegue aproveitar bem esse espaço. Em produções desse tipo, é comum que o uso excessivo de tela verde prejudique a sensação de escala, mas isso não acontece aqui. Nas tomadas mais abertas, especialmente nas imagens aéreas, o navio transmite uma dimensão convincente e ajuda a manter a imersão.

O grande acerto visual, porém, está no próprio Marsupilami. Em vez de apostar em uma criatura inteiramente digital, o longa recorre a efeitos práticos e utiliza a computação gráfica de maneira mais pontual. A escolha faz diferença. O personagem ganha presença física, textura e uma aparência muito mais palpável. Sempre que aparece em cena, existe uma sensação de proximidade que seria difícil alcançar com um personagem criado exclusivamente por CGI.

Essa decisão também acaba favorecendo um dos pontos mais frágeis do filme: a atuação infantil. Corentin Guillot interpreta o filho do casal, personagem que tem uma função importante no lado emocional da história, mas cuja atuação é bastante limitada. A falta de expressão do ator mirim chama atenção em alguns momentos, principalmente durante as sequências de perigo, quando a reação do personagem deveria carregar mais peso.

A situação seria ainda mais complicada se o Marsupilami fosse completamente digital. A interação entre os dois poderia perder boa parte de sua força. A presença física da criatura, por outro lado, ajuda a sustentar a relação e torna essas cenas mais convincentes.

Quem está à frente de toda essa confusão é o próprio Philippe Lacheau, responsável pela direção, pelo roteiro e também pelo papel principal. Como diretor, ele não acerta em tudo. Há situações constrangedoras e algumas piadas que parecem ter sido incluídas apenas para prolongar a sequência. Ainda assim, o resultado geral é bastante eficiente.

Lacheau demonstra um bom domínio da linguagem da comédia e sabe trabalhar o espaço dentro do quadro. Os posicionamentos de câmera não parecem aleatórios, e algumas escolhas visuais funcionam muito bem. Logo nos primeiros minutos, por exemplo, há uma cena em que David e Tess discutem enquanto, ao fundo, completamente desfocado, o caos começa a tomar conta do ambiente. Quando os personagens finalmente percebem o que aconteceu, o estrago já está feito. É um momento simples, mas que mostra o cuidado da direção com a construção da gag.

Outro ponto positivo está na maneira como o roteiro planta informações ao longo da narrativa. Elementos apresentados no começo retornam durante o ato final, criando uma sensação de continuidade e ajudando a preparar o terreno para um desfecho cada vez mais caótico.

E quando o assunto é caos, Marsupilami não economiza. As cenas de ação passam por perseguições dentro do cruzeiro e envolvem motos, carros e até helicópteros. Uma sequência em plano-sequência se destaca pelo nível de execução e mostra uma ambição técnica que vai além do que normalmente se espera de uma comédia desse porte. Há espaço até para uma referência divertida a Dragon Ball, uma daquelas piscadelas para a cultura pop que podem arrancar um sorriso de quem reconhece.

Por trás de toda a correria, das piadas recorrentes e das situações absurdas, existe também uma história sobre família. O desejo da criança de ver os pais separados novamente juntos funciona como o principal motor emocional da trama. Aos poucos, o sequestro do Marsupilami e a crítica, um tanto superficial, à busca por viralização nas redes sociais acabam ficando em segundo plano diante dessa tentativa de reconstrução familiar.

Não sou particularmente um grande admirador de comédias, mas Marsupilami conseguiu me prender do início ao fim. O filme é exagerado, frenético e, principalmente, não tem medo de abraçar o próprio absurdo. Algumas escolhas funcionam melhor do que outras, e nem todas as piadas acertam o alvo, mas existe uma energia constante que mantém a história em movimento.

No fim, Marsupilami é uma montanha-russa. Uma experiência barulhenta, desajeitada em alguns momentos e completamente fora do eixo em outros, mas que sabe transformar essa falta de controle em parte da diversão. É uma aventura que pode funcionar para diferentes idades, com humor suficiente para arrancar risadas de quem está disposto a embarcar na brincadeira.

Crítica | Drácula – Uma História de Amor Eterno mostra um monstro sem alma e uma redenção forçada

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Foto: Reprodução/ Internet

Antes de mergulhar na análise do novo Drácula (2025), é impossível ignorar a figura por trás da câmera: Luc Besson. O cineasta francês, que já foi celebrado por títulos como O Quinto Elemento e Nikita, hoje carrega uma sombra pesada. Envolvido em acusações sérias, incluindo agressão sexual, Besson tornou-se uma presença incômoda no cenário cinematográfico internacional. Essa bagagem ética não apenas contamina a percepção de suas obras, mas também lança um holofote desconfortável sobre os significados e intenções por trás de seus novos projetos — especialmente quando se tenta reescrever a trajetória de um monstro.

Deixando essa questão ética como pano de fundo — por mais incômoda que seja — resta analisar o filme em si. E a verdade é que o filme é, sob praticamente todos os aspectos, um desastre cinematográfico. Um equívoco de concepção, execução e propósito, que beira o desrespeito tanto ao legado de Bram Stoker quanto ao público que ainda se interessa por boas histórias de horror gótico.

Desde os primeiros minutos, percebe-se que há algo profundamente desalinhado. A trama, que bem poderia receber o subtítulo “A Redenção”, entrega de imediato sua proposta problemática: transformar o vampiro mais icônico da literatura em uma figura romântica, trágica, quase heróica. Ao tentar humanizar o Príncipe das Trevas, o roteiro esvazia não apenas a mitologia do personagem, mas todo o simbolismo que fez de Drácula um ícone imortal do medo.

Os personagens clássicos — Mina, Jonathan Harker e Van Helsing — são reduzidos a caricaturas desprovidas de alma, motivação ou impacto dramático. Suas presenças em cena não passam de adereços narrativos. Não há vínculos, não há desenvolvimento, não há empatia. São figuras tão descoladas da trama que, em dado momento, torcemos para que desapareçam, tamanha a irrelevância de suas existências.

A ausência de tensão, elemento vital em qualquer adaptação da obra de Stoker, é gritante. O filme se arrasta por um enredo superficial, onde acompanhamos um Drácula melancólico em jornada existencial ao lado de um padre caçador de vampiros — uma premissa que até poderia render algo, se houvesse densidade emocional, camadas simbólicas ou qualquer vestígio de ambiguidade moral. Mas o que se vê é uma sucessão de cenas previsíveis, frias, destituídas de qualquer pulsação narrativa. Não há sedução, não há mistério, não há horror.

A ambientação, que deveria ser um dos trunfos do longa, é outro desastre. Em vez de mergulhar o espectador em um universo opressor e gótico, o filme opta por cenários genéricos e iluminação genérica. Não há identidade visual, não há atmosferas memoráveis. Em alguns momentos, o longa até tenta introduzir elementos de humor, mas o faz de maneira tão fora de tom que o resultado é constrangedor. Rimos, sim — mas nunca pelas razões certas.

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O roteiro também comete o pecado de violar, sem justificativa, as próprias regras do universo vampírico. Elementos fundamentais da mitologia de Stoker são descartados ou modificados conforme a conveniência da cena. A luz do sol, por exemplo, é mortal em um momento, mas inofensiva no seguinte. Essa inconsistência não apenas destrói a suspensão de descrença, como também escancara uma preguiça narrativa que mina qualquer chance de imersão.

Os diálogos são outro ponto fraco. Soam artificiais, sem lirismo, sem a densidade filosófica ou melancólica que se espera de um bom Drácula. Falas genéricas, superficiais, que poderiam estar em qualquer outro filme — e que não revelam nada sobre os personagens ou seus dilemas. Falta peso, falta ritmo, falta alma.

Mas talvez o aspecto mais perturbador do filme seja sua subtexto. É difícil não enxergar na jornada de redenção de Drácula uma tentativa de reescrever, ainda que metaforicamente, a própria imagem do diretor. Ao transformar o monstro em alguém digno de amor, compreensão e perdão, Besson parece buscar para si mesmo uma catarse artística. A obra se torna, assim, um espelho torto onde o monstro e o criador se confundem. E o desconforto vem não da ficção, mas da intenção por trás dela.

Claro, personagens clássicos podem — e devem — ser revisitados sob novas perspectivas. Reinvenções são bem-vindas quando feitas com propósito, inteligência e respeito. Mas o que Besson entrega aqui não é uma releitura. É uma tentativa rasa de suavizar as arestas do horror, de transformar a escuridão em romance barato, de apagar o subtexto gótico em favor de uma fábula emocionalmente manipulativa.

No fim das contas, o longa-metragem falha como adaptação, falha como filme de horror, falha como romance e falha, sobretudo, como cinema. É uma obra sem alma, sem ritmo, sem poesia. Um produto que parece existir apenas como plataforma para intenções questionáveis, e que trata sua audiência com desdém — como se qualquer história fosse suficiente, desde que envolta em figurino de época e discursos sobre amor e redenção.

Ao sair da sessão, a sensação não é apenas de tempo perdido, mas de frustração diante de uma oportunidade desperdiçada. Drácula, mesmo após mais de um século, segue sendo uma das figuras mais complexas da literatura. Reduzir essa complexidade a um melodrama artificial, conduzido por um diretor com pendores narcisistas, é mais do que um erro artístico — é um desserviço ao mito.

Crítica – Eles Vão Te Matar é um terror que impressiona nas atuações, mas falha no roteiro

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Eles Vão te Matar acompanha Asia Reaves (Zazie Beetz), uma ex-presidiária que tenta reconstruir sua vida trabalhando como empregada doméstica no luxuoso edifício The Virgil, em Nova York. O que parecia ser uma oportunidade de recomeço rapidamente se transforma em um pesadelo: logo em sua primeira noite, Asia descobre que os moradores fazem parte de um culto satânico e que ela não é apenas uma testemunha indesejada, mas também uma peça central em um ritual macabro. Enquanto luta desesperadamente para sobreviver, precisa ainda salvar sua irmã, Maria, marcada como sacrifício.

Zazie Beetz entrega, sem dúvida, o ponto mais sólido do filme. Sua performance carrega uma intensidade física e emocional que sustenta a narrativa mesmo quando o roteiro vacila. Beetz constrói com firmeza a chamada “final girl”, traduzindo sua força tanto nas cenas de ação quanto nos momentos mais íntimos. Medo, desespero e resiliência são transmitidos de maneira convincente, mantendo o espectador engajado mesmo diante das limitações do material. É uma atuação que claramente supera os limites do próprio filme.

Tecnicamente, o longa encontra seus melhores momentos na direção de ação e na cinematografia. As sequências são dinâmicas, bem ritmadas e, em vários momentos, imersivas. A cena envolvendo fogo se destaca, não apenas pelo impacto visual, mas também pela coreografia que mistura tensão e explosão de forma eficaz. A fotografia merece destaque: o uso de iluminação baixa, enquadramentos fechados e movimentos de câmera mais agressivos, como zooms rápidos, cria uma sensação constante de claustrofobia e urgência. Visualmente, o filme consegue colocar o espectador dentro do caos.

No entanto, é justamente fora do campo técnico que Eles Vão Te Matar começa a desmoronar. O roteiro carece de profundidade e ousadia. Embora sugira camadas temáticas como poder, exploração e desumanização, nenhuma é explorada com a complexidade necessária. O resultado é uma narrativa superficial diante do potencial existente. Ao evitar riscos, o filme se torna genérico, deixando de desenvolver adequadamente não apenas Asia, mas também sua relação com Maria, que poderia carregar um peso emocional muito maior.

Os personagens secundários são outro ponto fraco. Figuras como Lily, Sharon e Kevin são mal desenvolvidas e não possuem motivações claras ou interessantes. Patricia Arquette, no papel de Lily, é a única que oferece algum valor narrativo, ainda que limitado. No geral, os antagonistas falham em causar impacto, sendo previsíveis e reduzidos a falas clichês que enfraquecem ainda mais o tom do filme.

Um dos elementos mais problemáticos é a inclusão abrupta do “porco satânico”, que surge sem qualquer construção narrativa. Em vez de provocar medo, o elemento soa quase como uma paródia involuntária, quebrando a imersão. Esse tipo de escolha evidencia um problema maior: o filme não consegue equilibrar seu próprio tom, oscilando entre o terror e algo quase caricatural.

Outro fator que prejudica a tensão é a ideia de imortalidade dos personagens. Ao eliminar o senso de risco real, o filme compromete o suspense, pilar fundamental do gênero. A repetição desse recurso torna os confrontos previsíveis e diminui o impacto emocional das cenas. Curiosamente, o filme sugere, ao final, que a escala do culto é uma ameaça muito maior, levantando a questão: por que não explorar esse conflito de forma mais intensa, em vez de recorrer a soluções narrativas que enfraquecem o clímax?

O diálogo também deixa a desejar. Repleto de clichês e frases previsíveis, contribui para uma sensação constante de déjà vu. A inspiração em Casamento Sangrento é evidente, mas o filme falha em trazer algo novo. Há ainda uma estética de ação que remete ao estilo de Quentin Tarantino, mas sem a mesma identidade ou refinamento; tudo soa familiar, mas não de maneira positiva.

Os efeitos visuais apresentam inconsistências. Enquanto sequências como a do fogo funcionam bem, outras, como as envolvendo o “porco” e a explosão final, são visivelmente artificiais, quebrando a imersão e reforçando a sensação de que o filme não se leva totalmente a sério.

No fim, Eles Vão Te Matar é um thriller de altos e baixos marcantes. Há competência técnica, boas ideias e uma performance central sólida, mas tudo isso é prejudicado por um roteiro fraco, escolhas criativas questionáveis e falta de identidade própria. O resultado é um filme que entretém em seus melhores momentos, mas que não sustenta seu impacto a longo prazo e dificilmente justificaria uma revisita.

Crítica – Com Unhas e Dentes é pancadaria contra zumbis em ritmo de ação frenética — e nada além disso

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Foto: Reprodução/ Internet

Imagine que o apocalipse zumbi começou… e quem está no centro do caos não é um soldado, nem um cientista genial, muito menos um sobrevivente comum. Quem pega a linha de frente aqui é um ex-lutador de Muay Thai, pronto para meter o cotovelo na fuça de morto-vivo. Assim é “Com Unhas e Dentes”, o novo longa tailandês que chega à Netflix com a missão de entreter sem prometer mais do que pode — e cumpre isso com sangue, suor e muitos chutes na cabeça.

💥 Pancadaria sincera, do jeito que a gente gosta

Dirigido por Kulp Kaljareuk, o filme não tenta reinventar o apocalipse. Ele sabe exatamente o que está fazendo: mistura dois gêneros adorados — zumbis frenéticos e artes marciais coreografadas — e entrega tudo isso num ritmo acelerado e sem frescura. A história é simples, direta e eficaz: Singh, vivido por Prin Suparat, só quer resgatar sua esposa, Rin, presa no hospital onde o surto começou. No caminho, encontra um menino perdido, algumas centenas de infectados famintos e muitas desculpas para descer a porrada.

🧠 Profundidade? Aqui não, irmão.

Com Unhas e Dentes não está interessado em metáforas, críticas sociais ou construção filosófica do apocalipse. Ele deixa isso pros filmes cabeça. Aqui, a narrativa é um videogame em carne e osso: missão, inimigos, lutas e o bom e velho “salvar quem se ama”. O roteiro de Nut Nualpang e Vathanyu Ingkawiwat aposta no clichê com convicção — e isso é parte do charme.

🤜 Zumbi não tem vez contra chute giratório

O que realmente diferencia o longa é a ação. Nada de armas mirabolantes ou explosões genéricas. O protagonista resolve tudo com o próprio corpo como arma. As lutas são coreografadas com precisão, ritmo e impacto. Singh transforma cada corredor do hospital em ringue, com zumbis servindo de saco de pancadas. É brutal, estiloso e, em alguns momentos, até engraçado — do jeito bom.

Se você é fã de filmes como Ong-Bak, Invasão Zumbi ou até aqueles clássicos de ação dos anos 90, vai se sentir em casa. E a fotografia não decepciona: câmera nervosa, muita sombra, closes em olhos arregalados e sangue espirrando como se fosse tinta de aquarela dark.

🧒 Um trio que segura a missão

Singh, Rin e o pequeno Buddy formam o trio que conduz a trama. Não espere profundidade psicológica — mas há carisma. Singh é um herói raiz, movido pela coragem bruta. Rin cumpre bem o papel de resistência emocional. E Buddy… bom, ele é a criança em perigo que serve de motor emocional (e faz a gente lembrar que zumbi e afeto nem sempre combinam).

Crítica – Como Mágica usa troca de corpos e mensagem sobre empatia sem encontrar equilíbrio narrativo

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Como Mágica, nova animação da Netflix dirigida por Nathan Greno (Enrolados), apresenta um universo visualmente rico e cheio de ideias criativas. O Vale, ambiente onde a trama se desenvolve, é construído como um ecossistema fantástico habitado por criaturas originais, com designs que misturam natureza e fantasia de forma inventiva.

Nesse cenário vivem Ollie, um pequeno Pookoo, e Ivy, uma Javan imponente. A relação entre os dois nasce da oposição direta de forças: fragilidade contra domínio, instinto de sobrevivência contra superioridade natural. Essa base já carrega um potencial dramático interessante, que o filme nem sempre aproveita.

Troca de corpos como motor narrativo que não ganha peso emocional

O ponto de virada da história acontece quando os protagonistas trocam de corpo após um evento misterioso. A partir daí, a narrativa tenta explorar a ideia clássica de “viver na pele do outro” como caminho para a empatia.

Na prática, porém, essa transformação funciona mais como um recurso estrutural do que como um elemento realmente explorado. As situações geradas pela troca rendem momentos pontuais de humor e estranhamento, mas raramente evoluem para conflitos mais profundos ou consequências emocionais duradouras.

O filme parece interessado na premissa, mas menos disposto a tensioná-la até o limite.

Empatia como discurso constante, mas pouco vivida na tela

A ideia central de Como Mágica é clara: compreender o outro a partir da experiência direta. O problema é que essa mensagem é frequentemente reforçada em diálogos e situações explicativas, em vez de ser construída de forma orgânica ao longo da jornada.

Ollie e Ivy passam por aprendizados previsíveis, com mudanças de comportamento que acontecem de maneira rápida e pouco tensionada. A sensação é de que o roteiro prefere explicar a transformação emocional em vez de permitir que ela seja percebida nas escolhas e consequências dos personagens.

Visual criativo que sustenta o interesse mesmo quando a narrativa oscila

Se a história nem sempre alcança seu potencial, a parte visual cumpre um papel importante em manter o filme envolvente. A animação é detalhada e caprichada, especialmente na forma como representa a troca de corpos e suas implicações físicas.

Há também um cuidado evidente na construção do mundo, com criaturas e elementos naturais que reforçam a identidade do Vale como um ambiente vivo e imaginativo. Em vários momentos, é esse aspecto visual que carrega a experiência.

Entre boas ideias e execução contida

“Como Mágica” tem uma base conceitual forte e um universo criativo que poderia sustentar uma narrativa mais ousada. No entanto, o filme opta por um caminho mais seguro, evitando explorar totalmente os conflitos que sua própria premissa sugere.

O resultado é uma obra competente, visualmente atraente e com uma mensagem positiva, mas que raramente ultrapassa a superfície de suas próprias ideias.

Vale a pena assistir?

O longa-metragem funciona como uma animação leve e acessível, especialmente dentro da proposta familiar da Netflix. Ainda assim, deixa a impressão de que havia espaço para uma história mais intensa, mais desconfortável e, principalmente, mais emocionalmente verdadeira dentro do conceito que escolheu.

Crítica – O Sorveteiro aposta no gore e no humor para reinventar o terror de Eli Roth

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O Sorveteiro é daqueles filmes que deixam claro, logo nos primeiros minutos, que não estão interessados em seguir exatamente o caminho tradicional do terror. Dirigido por Eli Roth, o longa mistura violência gráfica, humor ácido e uma boa dose de absurdo para construir uma experiência que está muito mais interessada em divertir e chocar do que em provocar medo de maneira convencional.

A premissa, por si só, já entrega uma proposta bastante diferente. E o filme parece saber disso. Em vez de tentar transformar sua ideia inusitada em algo excessivamente sério, O Sorveteiro abraça o absurdo e faz dele uma das principais características da produção.

Por isso, talvez seja importante não assistir ao filme esperando encontrar um novo O Albergue.

Embora os dois sejam dirigidos por Eli Roth e compartilhem o gosto pela violência gráfica, as propostas são bem diferentes. O Albergue trabalha o horror de uma maneira mais pesada, apostando no desconforto, na tensão e em uma atmosfera que consegue incomodar o espectador. O Sorveteiro segue por outro caminho.

Aqui, o diretor parece muito mais interessado em brincar com o gênero. O medo divide espaço com o humor, enquanto as cenas violentas são apresentadas de maneira tão exagerada que, em alguns momentos, fica difícil saber se a intenção é provocar horror ou arrancar uma risada.

E é justamente aí que o filme encontra sua identidade.

Para quem gosta de gore, há bastante coisa para aproveitar. O Sorveteiro não demonstra muita preocupação em poupar o espectador das imagens mais gráficas e utiliza a violência como um dos principais elementos da narrativa. Algumas sequências são bastante explícitas e mostram que o filme não pretende suavizar sua proposta.

Ao mesmo tempo, o exagero impede que a experiência se torne pesada o tempo inteiro. Em determinados momentos, a violência chega a um nível tão absurdo que acaba funcionando quase como uma piada. A sequência do lado de fora da escola, por exemplo, representa bem essa mistura entre choque e humor que o longa busca durante boa parte da história.

Particularmente, achei o resultado divertido dentro da proposta apresentada. Não é um filme que considero tão impactante quanto O Albergue, mas também não vejo isso como um problema. Comparar os dois apenas pela presença de Eli Roth e pelo excesso de violência seria ignorar justamente o que O Sorveteiro tenta fazer de diferente.

O longa funciona melhor quando deixa de lado qualquer tentativa de ser um terror tradicional e assume completamente sua mistura de gore, humor e absurdo. É nesse momento que a produção consegue encontrar personalidade e entregar algumas das situações mais interessantes da experiência.

No fim, o longa-metragem não é necessariamente um filme para quem procura um terror capaz de tirar o sono ou construir uma atmosfera realmente perturbadora. Sua força está em outra direção: oferecer uma experiência violenta, exagerada e, em vários momentos, divertida.

Vale a pena?

Se você gosta de gore, humor ácido e filmes que não têm medo de exagerar, O Sorveteiro tem boas chances de funcionar. Agora, se a expectativa é encontrar um terror mais sério, atmosférico e perturbador, talvez seja melhor ajustar as expectativas antes de dar o play.

Não é O Albergue. E, no fim das contas, talvez seja justamente essa a melhor coisa que o filme poderia ser.

Crítica | GOAT é um retrato cru e perspicaz da pressão no esporte de elite

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O título original do filme, Him, carrega uma ambiguidade instigante ao estabelecer uma conexão direta com Deus, funcionando como uma metáfora inteligente para uma narrativa que explora o culto à excelência e a idolatria no esporte contemporâneo. No Brasil, a escolha do título GOAT — acrônimo de Greatest of All Time — reforça a temática esportiva e conecta imediatamente o público ao universo da NFL, onde a expressão já é consagrada para designar os maiores atletas de todos os tempos. Essa adaptação linguística evidencia o cuidado da obra em se comunicar com diferentes públicos sem perder sua essência crítica.

Narrativamente, o filme consegue equilibrar humor, drama e crítica social. A história acompanha a trajetória de jovens quarterbacks que enfrentam pressões quase sobre-humanas, lidando com expectativas da mídia, dos fãs e do próprio sistema esportivo. O roteiro não se limita a glorificar o sucesso, mas aprofunda-se nos bastidores do esporte, abordando lesões que comprometem carreiras, os efeitos devastadores do trauma craniano, o uso de substâncias para aumento de desempenho, além da corrupção e da manipulação nos bastidores das franquias. Dessa forma, GOAT oferece uma reflexão contundente sobre a dualidade entre divinização pública e exploração institucional de atletas, um tema raramente abordado com tanta clareza no cinema esportivo.

O uso de metáforas religiosas é uma das marcas da obra. A associação entre conquista esportiva e fé — comum entre atletas profissionais — é explorada de maneira recorrente, reforçando o caráter quase sacro que o público confere às estrelas da NFL. Embora algumas cenas, como a referência à Última Ceia, possam soar excessivamente literais, a estratégia simbólica contribui para a crítica central do filme: a transformação de atletas em figuras quase divinas enquanto são tratados como produtos dentro de um sistema competitivo e mercantilizado.

No que se refere às performances, o elenco entrega atuações consistentes. Há química convincente entre os protagonistas e momentos de autenticidade que sustentam as tensões dramáticas. Visualmente, o filme apresenta soluções criativas e impactantes, como as sequências em raio-X que mostram o corpo humano em sua fragilidade e mecanicidade, reforçando a ideia de atletas como máquinas de alto desempenho. O estilo do desfecho, com referências tarantinescas, traz ousadia e irreverência, contribuindo para um fechamento que mistura suspense, humor e crítica social. Pequenos deslizes técnicos, como o uso incorreto de equipamentos, são perceptíveis para os fãs mais atentos, mas não comprometem a experiência geral.

Entretanto, nem tudo é impecável. O desenvolvimento de personagens deixa lacunas significativas. A relação entre Cam e seu pai carece de profundidade emocional, reduzindo o impacto de seus conflitos internos. O arco de Isaiah White, outro personagem central, poderia ter sido explorado de maneira mais detalhada, oferecendo camadas adicionais à narrativa e fortalecendo a densidade dramática da obra. Ainda assim, a progressão do roteiro mantém o ritmo e evita que o público se desengaje, o que é um mérito importante em produções que combinam crítica social com entretenimento esportivo.

O filme também se destaca ao capturar a tensão psicológica inerente à carreira de um atleta de elite. A pressão por resultados, o medo constante do fracasso e o peso da mídia são retratados de forma autêntica, proporcionando ao espectador uma compreensão mais profunda do custo pessoal do sucesso no esporte de alto nível. Além disso, a trilha sonora de Jean Dawson contribui para criar uma atmosfera contemporânea e envolvente, reforçando momentos de tensão e celebração, e complementando a narrativa com um tom moderno e urbano.

GOAT encerra sua trajetória com uma mensagem clara e poderosa: a retomada do controle do próprio destino. Após enfrentarem sacrifícios físicos, emocionais e éticos, os atletas protagonistas emergem não apenas como competidores, mas como indivíduos que desafiam um sistema que frequentemente os vê apenas como mercadorias. Esse desfecho confere ao filme um peso simbólico, elevando-o acima do mero retrato esportivo e transformando-o em um comentário social relevante sobre meritocracia, idolatria e humanidade no esporte.

Embora não se configure como uma obra-prima, GOAT é ousado, incisivo e, em muitos momentos, surpreendentemente perspicaz. Consegue unir crítica social, entretenimento e estética visual de maneira coesa, oferecendo uma experiência cinematográfica refrescante dentro do gênero esportivo-dramático. A obra provoca reflexão sobre a natureza da fama, do sucesso e da pressão contemporânea sobre atletas, ao mesmo tempo em que diverte e entretém, mostrando que o cinema esportivo ainda tem espaço para inovação e relevância cultural.

Crítica – A Grande Inundação é um ensaio sensível sobre tecnologia e a fragilidade humana

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A Grande Inundação é um filme que não se contenta em contar uma história linear ou oferecer respostas fáceis. A obra aposta em uma narrativa densa, carregada de simbolismos e reflexões, que se desdobra como um estudo sobre as relações humanas em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia. Com uma abordagem ambiciosa, o longa se lança sem receios em temas existenciais e contemporâneos, buscando compreender o papel do afeto, da consciência e da empatia em uma sociedade que avança rapidamente rumo à automação emocional.

Desde seus primeiros minutos, o filme estabelece um tom contemplativo. A narrativa se constrói com ritmo deliberadamente cadenciado, convidando o espectador a observar, mais do que simplesmente acompanhar. Essa escolha pode afastar parte do público acostumado a estruturas tradicionais, mas se revela coerente com a proposta da obra, que exige atenção, paciência e envolvimento emocional. A Grande Inundação não se explica por completo; ele sugere, provoca e instiga.

No centro da trama está a tentativa de compreender o que nos define enquanto seres humanos quando até mesmo sentimentos, decisões e memórias passam a ser atravessados pela inteligência artificial. O filme não trata a tecnologia como vilã nem como solução definitiva. Pelo contrário, apresenta a IA como um reflexo de nossas próprias contradições, desejos e limites. Ao atribuir às máquinas a capacidade de aprender, interpretar e até simular emoções, o longa levanta questionamentos inquietantes sobre autenticidade, livre-arbítrio e a natureza do amor.

Um dos grandes méritos de A Grande Inundação está em sua recusa a simplificar o afeto humano. O amor, aqui, não é apresentado como algo romântico ou idealizado, mas como uma força complexa, muitas vezes contraditória, difícil de definir e ainda mais difícil de controlar. Em um mundo onde algoritmos tentam prever comportamentos e decisões, o filme reforça a ideia de que o amor permanece como um território instável, imprevisível e profundamente humano. É justamente essa imprevisibilidade que o torna essencial para dar sentido à existência.

As relações entre os personagens são construídas com cuidado e densidade emocional. Os diálogos evitam explicações didáticas e optam por silêncios, olhares e ações sutis, que revelam conflitos internos e dilemas morais. Cada interação carrega camadas de significado, funcionando como extensão das questões centrais do filme. A conexão entre humanos e sistemas artificiais, por exemplo, nunca é tratada como uma curiosidade futurista, mas como uma consequência direta de uma sociedade que busca conforto, controle e pertencimento.

Do ponto de vista técnico, o longa-metragem se apoia em uma direção segura e consciente de sua proposta. A mise-en-scène valoriza espaços amplos e, ao mesmo tempo, opressivos, sugerindo um mundo à beira do colapso emocional e ético. A fotografia contribui para essa sensação, com escolhas de iluminação que reforçam o contraste entre o frio da tecnologia e a fragilidade das emoções humanas. A trilha sonora surge de forma discreta, mas eficaz, acompanhando os momentos mais introspectivos sem manipular a emoção do espectador.

O roteiro demonstra maturidade ao articular debates complexos sem recorrer a discursos explicativos. A inteligência artificial é discutida a partir de suas implicações sociais e filosóficas, e não apenas como ferramenta narrativa. O filme questiona até que ponto delegar decisões às máquinas pode esvaziar a experiência humana e se, ao fazer isso, não estamos abrindo mão de aspectos fundamentais da nossa identidade. Ainda assim, evita um tom alarmista, reconhecendo que a tecnologia também nasce do desejo humano de compreender e melhorar o mundo.

É importante destacar que A Grande Inundação não busca consenso. Sua estrutura aberta e suas escolhas narrativas deixam espaço para interpretações diversas, o que pode gerar leituras distintas sobre suas mensagens. Essa ambiguidade é parte essencial da experiência proposta. O filme entende que respostas definitivas não existem quando se trata de sentimentos, ética e futuro, e transforma essa incerteza em motor dramático.

No panorama atual do cinema, marcado por produções cada vez mais orientadas ao consumo rápido, o filme se destaca por sua coragem em desacelerar e provocar reflexão. Trata-se de uma obra que exige envolvimento intelectual e emocional, oferecendo em troca uma experiência que permanece com o espectador após os créditos finais. Ao abordar a inteligência artificial não como um fim em si, mas como um espelho das nossas próprias escolhas, o filme reafirma a centralidade do afeto e da empatia em um mundo em constante transformação.

Crítica – Os Radley apresenta humor leve e diversão com vampiros nada convencionais

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Foto: Reprodução/ Internet

À primeira vista, os Radley parecem uma família absolutamente comum. Eles levam uma vida regrada no subúrbio, participam de clubes do livro, trabalham em carreiras bem estabelecidas e criam dois filhos adolescentes que seguem a rotina escolar sem grandes sobressaltos. São vizinhos respeitáveis, discretos e aparentemente perfeitos em sua normalidade. Mas essa imagem impecável é apenas um disfarce: por trás das cortinas fechadas e das refeições aparentemente inofensivas, eles escondem um segredo sombrio—são vampiros que decidiram reprimir sua verdadeira natureza para viver em sociedade sem despertar suspeitas.

Esse autocontrole, no entanto, é colocado à prova quando a jovem Clara se vê envolvida em uma situação inesperada e violenta, despertando um instinto adormecido que ela sequer sabia que existia. A partir desse momento, a família é arrastada para um turbilhão de caos e confusão, tentando desesperadamente restaurar a aparência de normalidade. Mas, como qualquer segredo bem guardado, a verdade não demora a se espalhar, trazendo à tona segredos do passado, paixões proibidas e um jogo de aparências que se torna cada vez mais difícil de sustentar.

Apesar da premissa sobrenatural, Os Radley não se propõe a ser um terror denso ou assustador. Em vez disso, aposta em um tom leve, flertando com a comédia britânica e equilibrando momentos cômicos com uma crítica sutil às convenções sociais. O enredo, embora simples e sem grandes reviravoltas, funciona dentro do que se propõe: entreter sem exigir muito do espectador. Os diálogos podem não ser marcantes, mas o roteiro entrega situações absurdas e engraçadas que garantem boas risadas.

Com a direção segura de Euros Lyn e um elenco carismático que se encaixa bem nos papéis, o filme adapta o livro homônimo de Matt Haig para o cinema sem grandes pretensões, mas com um charme que torna a experiência agradável. Estreando nos cinemas brasileiros em 27 de fevereiro pela Paris Filmes, Os Radley pode não ser um marco no gênero, mas é uma escolha certeira para quem busca um entretenimento descomplicado, divertido e repleto de vampiros pouco convencionais.

Crítica – Código: Vingança entrega ação eficiente, mas se perde ao tentar complicar a própria história

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Jason Statham já transformou um tipo bastante específico de personagem em uma espécie de assinatura. Ele entra em cena, observa o problema, distribui alguns golpes e, quando percebe que a situação ficou complicada demais, resolve tudo com ainda mais violência. Código: Vingança sabe exatamente o que o público espera do ator, mas comete um erro recorrente em filmes desse gênero: tenta transformar uma premissa que funcionaria melhor pela simplicidade em uma trama muito mais elaborada do que consegue sustentar.

O filme encontra seu melhor caminho quando deixa de lado a necessidade de explicar demais e coloca Statham no centro da ação. A escolha de um navio como principal cenário ajuda nesse sentido. O espaço limitado cria obstáculos naturais para os confrontos e permite que algumas sequências utilizem corredores, compartimentos e diferentes níveis da embarcação de maneira criativa. Não é uma revolução dentro do cinema de ação, mas existe um esforço visível para fazer com que o cenário participe das cenas em vez de servir apenas como pano de fundo.

E é justamente nas lutas que Código: Vingança mostra suas melhores qualidades. O filme tem consciência do que seu protagonista sabe fazer e não tenta esconder isso atrás de uma quantidade excessiva de efeitos ou cortes frenéticos. Statham continua eficiente nesse território, principalmente pela presença física e pela maneira como seus personagens parecem sempre estar a poucos segundos de transformar qualquer situação em uma briga.

O problema é que o roteiro parece não confiar nessa fórmula.

Em vez de construir uma narrativa de ação mais objetiva, o filme começa a empilhar conspirações, assassinatos, tráfico humano, vingança e diferentes interesses em torno do protagonista. A quantidade de elementos não seria necessariamente um problema se houvesse tempo ou interesse em desenvolvê-los. Mas boa parte dessas ideias aparece apenas para justificar a próxima virada da história, criando uma sensação de que o roteiro está constantemente tentando aumentar a importância de acontecimentos que, na prática, não têm o peso necessário.

As reviravoltas sofrem do mesmo problema. O filme quer surpreender, mas algumas mudanças de direção parecem mais mecânicas do que realmente inesperadas. Em determinados momentos, fica difícil não perceber a mão do roteiro conduzindo os personagens para a próxima revelação. O mistério, que poderia acrescentar tensão à história, acaba funcionando como um obstáculo ao ritmo.

Essa tentativa de ampliar a trama também prejudica os personagens secundários. Muitos deles existem mais em função da história do que como figuras com conflitos próprios. O resultado é uma narrativa na qual as consequências de determinadas decisões nem sempre provocam o impacto esperado, simplesmente porque o público não teve tempo suficiente para estabelecer uma relação com quem está envolvido.

Statham, por outro lado, permanece sendo o principal elemento de estabilidade da produção. Mesmo quando o roteiro perde o controle sobre a própria história, o ator consegue manter o filme funcionando graças ao tipo de presença que construiu ao longo da carreira. Há uma familiaridade quase confortável em vê-lo atravessar uma sequência de adversários, improvisar uma solução e seguir em frente como se nada tivesse acontecido.

Isso também expõe uma das limitações de Código: Vingança. O filme não parece interessado em encontrar uma identidade própria. Ele conhece muito bem os códigos do cinema de ação protagonizado por Statham, mas raramente consegue fazer algo de diferente com eles. Quando tenta sair desse terreno, tropeça em uma história excessivamente carregada. Quando retorna à ação, recupera imediatamente o ritmo.

No fim, Código: Vingança é mais eficiente como filme de pancadaria do que como thriller de conspiração. Suas melhores cenas são justamente aquelas que não exigem grandes explicações: Statham diante de um grupo de inimigos, um espaço apertado e uma sequência de golpes bem coreografada. O restante da trama parece trabalhar contra essa simplicidade.

Não chega a ser um filme ruim, mas também está longe de representar um momento especialmente inspirado na filmografia do ator. Código: Vingança entrega o pacote básico que seus fãs provavelmente procuram, mas acrescenta uma camada de complexidade que pouco contribui para a experiência. É uma produção funcional, com algumas boas cenas de ação, mas que termina sem deixar muita coisa para além da sensação de já termos visto essa história — e esse protagonista — várias vezes antes.